Minha nova casa

Uma homenagem a todos que, assim como eu, cresceram nos estádios pelo Brasil inteiro

Minha nova casa
Júlia, atualmente com sete anos, é torcedora fanática do Flamengo (Foto: Fernanda Sá)

Lá estava eu, andando como dona do mundo no meio de tanta gente e vestida com as cores do time que defendia – pelo menos era isso que meus pais diziam. Olhei para todos os lados tentando entender o que ali acontecia. Por que aquelas pessoas pareciam tão felizes se a atração principal ainda nem havia começado? Por que tinha tanta gente vestindo as mesmas cores que eu?

Tudo era novidade. Mesmo que meus pais me colocassem na frente da TV e me explicassem tudo sobre aquele jogo, que para mim era fascinante, tudo ainda era muito... novo. Fui no colo de minha mãe, que olhava para mim a cada cinco segundos para garantir que estava tudo bem. E, para falar a verdade, estava tudo ótimo. No auge dos meus três anos, eu estou vivendo minha primeira aventura.

Entramos todos juntos, eu, papai e mamãe, naquele lugar enorme que eles chamavam de "Maraca". Estava impressionada. Andando pelos corredores, me perguntei quando chegaríamos naquele enorme tapete verde que a televisão mostrava. Perguntei-me se ficaríamos tão próximos aos jogadores, mas meus pensamentos foram quebrados em apenas um segundo. "Olha ali, filha. Olha o Maracanã". Parei.

Quem observava de fora devia estar achando que eu começaria a chorar a qualquer minuto, mas a verdade é que era tão bonito que isso literalmente podia acontecer. Meus olhos brilharam e meu sorriso não podia ser contido. Aquele mar de pessoas, aquele lugar imenso, as luzes e o tão esperado tapete – que, devo confessar, me deu vontade de correr para ele e 'bater uma bolinha'. Meus pais pareciam tão felizes quanto eu, se é que isso era possível. Eu estou cada vez mais animada.

As dúvidas ainda pairam em minha cabeça, mas a vontade de explorar tudo é muito maior. Começo a querer correr de um lado pro outro, descer aquelas escadas, observar as pessoas ao redor. E aquelas enormes bandeiras? O máximo que eu tinha visto era a bandeira que papai deixava na janela. Queria muito balançá-las como aqueles homens faziam, mas sabia que demoraria um pouco até ter tamanho (e força) o suficiente.

O jogo começou e a torcida cantava e batia as mãos. Queria participar de todas as formas, então tentava acompanhar. Muito divertido, devo dizer. Enquanto estava sentada em minha cadeira, observei todos que estavam por ali. Alguns rezavam, outros gritavam e outros pareciam estar malucos. Talvez todos ali fossem um pouco loucos. De repente as pessoas começaram a levantar e todas gritaram e pularam ao mesmo tempo. Ouvi um sonoro "GOL" e ali entendi. Elas estavam comemorando e até eu, que nem tinha visto nada, comemorei junto. Naquele momento, o ato de celebrar parecia incrivelmente familiar.

Comecei a perceber que estávamos indo embora, então chorei. Ninguém entendeu, mas era apenas porque eu não queria ir. Estar ali era surpreendentemente bom. Olhei para os lados e percebi que todos estavam saindo como uma grande família, juntos e felizes. Acalmei-me e entendi que era hora de ir. Virei-me para meus pais e perguntei "podemos voltar amanhã?". Os dois riram e se olharam sorrindo. O que era tão engraçado?

Minha mãe se virou para mim e disse com aquele olhar cheio de amor: "você pode voltar quando quiser. O Maracanã é a sua casa". E, a partir daquele momento, tudo pareceu certo.