Um singelo tributo a Duque, o maior técnico da história do futebol pernambucano

Heptacampeão em Pernambuco e mentor de esquadrões de Náutico, Santa Cruz e Sport; técnico do Corinthians na "invasão corinthiana"; vitorioso no Fluminense e no Olaria; pioneiro no Oriente Médio. Davi Ferreira, o "Duque", faleceu neste domingo (16), aos 91 anos

Um singelo tributo a Duque, o maior técnico da história do futebol pernambucano
Foto: Divulgação/Náutico

Morreu na tarde deste domingo (16), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, o ex-técnico Davi Ferreira, conhecido como "Duque". Dono de sete títulos pernambucanos e campeão com Náutico, Sport e Santa Cruz, ele foi o treinador mais vitorioso de Pernambuco. Ganhou quatro Estaduais pelo Timbu, por quem foi vice-campeão nacional em 1967, além de dois pela Cobra Coral e um pelo Leão da Ilha. No Trio de Ferro do Recife, destacou-se por montar elencos de alto nível.

Também comandou o Fluminense na conquista do Campeonato Carioca de 1973 e o Corinthians no vice-campeonato do Brasileirão de 1976, ano da histórica invasão corinthiana no Maracanã, e em parte da campanha do inesquecível título do Campeonato Paulista de 1977, o qual encerrou um jejum de duas décadas no Parque São Jorge. Sua última glória foi a Taça de Bronze (atual Série C) pelo Olaria, em 1981.

Mineiro de nascimento, iniciou sua trajetória no futebol ao serviço do Cruzeiro. Também jogou no Fluminense, Vasco da Gama e Canto do Rio. Era zagueiro.

Papa-títulos em Pernambuco

Divulgação/Placar

Duque ganhou projeção nacional para a área técnica na década de 1960, época em que participou de quatro títulos da histórica sequência de seis conquistas do Clube Náutico Capibaribe, feito até hoje inigualável na Terra dos Altos Coqueiros. Foi campeão pernambucano em 1964, 1966, 1967 e 1968.

Também foi com Duque que o Náutico teve sua melhor performance em Campeonatos Brasileiros: o vice da Taça Brasil de 1967. A campanha rendeu epopeias contra Atlético-MG e Cruzeiro, mas parou em um fato cruel: Náutico e Palmeiras foram obrigados a jogar a finalíssima em um Maracanã cujo gramado não se encontrava em condições ideais para um embate. Panorama injusto para uma decisão que estava em seu terceiro jogo, depois de uma vitória palestrina em Recife e um triunfo timbu em São Paulo.  Os pernambucanos acabaram derrotados per 2 a 0.

No ano de 1968, viu da área técnica o gol de Ramos, que fez tremer um Estádio dos Aflitos mais acanhado do que hoje em dia. Ficou eternamente gravado na história do Clube Náutico Capibaribe como o mentor do Hexa e professor de um esquadrão onde nomes como Lula Monstrinho, Gena, Ivan Brondi, SalomãoNado, NinoLala e Bita se consagraram. Para muitos, o maior esquadrão da história do futebol pernambucano. Com jogadores garimpados e formados na região, vale ressaltar.

Todos os títulos de Duque ao serviço do Náutico vieram contra o Sport.

Ainda em 1968, guiou o Alvirrubro na Copa Libertadores da América, primeira e única participação do Timbu no maior certame interclubes da América do Sul. O time vermelho e branco do Recife foi eliminado por ter feito uma substituição além do permitido contra o Deportivo Português, da Venezuela, na penúltima rodada da fase de grupos.

História mal esclarecida até hoje. Há quem diga que o Náutico foi prejudicado por uma injustiça da Conmebol, que na época ainda não tinha adotado as duas mudanças de jogadores durante uma partida, regra a qual já era reconhecida pela Fifa e pela CBD. Há quem diga que o erro foi proposital, para que a equipe jogasse todas as fichas no inédito Hexa.

Levantou taças no Arruda em 1970 e 1971, contra Náutico e Sport, respectivamente. Dois títulos do penta tricolor. Na época, trouxe Gena do Náutico e também teve em mãos craques como Givanildo Oliveira, Luciano Veloso, CuicaRamón e Fernando Santana.

Reprodução/Placar

Em 1975, dessa vez pelo Sport Club do Recife, encerrou um domínio de alvirrubros e tricolores, que polarizaram Pernambuco de 1963 a 1974 (o Náutico foi hexa, o Santa Cruz foi penta, e o CNC evitou o hexa do Santa). Ao mesmo tempo, pôs um ponto final no maior jejum da história do Leão da Praça da Bandeira: 12 anos.

O elenco, carinhosamente chamado de "Supertime da Ilha", contava com nomes como Luciano Veloso (o mesmo que tinha feito história no Santa), Dadá Maravilha, Assis Paraíba (autor do gol do título, no triunfo pela contagem mínima diante do Alvirrubro da Rosa e Silva) e Pedro Basílio.

Algoz do Rubro-Negro por cinco anos, Duque agora era herói leonino. E heptacampeão pernambucano, feito apenas conquistado por Palmeira, vitorioso em 1946 e 1947, no Santa Cruz, 1950, 1951 e 1952, no Náutico, e 1961 e 1962, no Sport.

Se tinha uma coisa que Duque sabia fazer, essa coisa era ganhar título.

Vitorioso no Sudeste e pioneiro no Oriente Médio

Pouco antes de tirar o Sport Recife da fila em Pernambuco, Davi Ferreira fora campeão pelo Fluminense no Rio, em 1973. O grito de campeão veio em um épico Fla-Flu no Maraca: 4 a 2 para o Tricolor das Laranjeiras, com dois gols de Manfrini, um de Toninho e um de Dionísio

Outro grande momento de sua carreira ocorreu em 1976, já como treinador do Corinthians. Embora não tenha terminado a temporada com título - o campeão brasileiro foi o Internacional -, presenciou um dos momentos mais marcantes da história do Timão e do futebol brasileiro: a invasão corinthiana no Maracanã. A Folha de S. Paulo reportou à época que 70 mil dos 146 mil torcedores os quais assistiram à semifinal do Brasileirão no Maior do Mundo eram alvinegros

Com bola rolando, um gol para cada lado. Pintinho anotou a favor do Flu e Ruço assinou pelo Corinthians. O empate persistiu na prorrogação. Na disputa de pênaltis, brilhou a estrela do goleiro Tobias. O Coringão venceu por 4 a 1 e carimbou o passaporte para a decisão.

Saiu do Corinthians em 1977, tendo deixado uma base pronta para Oswaldo Brandão. Sucedeu-se a essa mudança o fim de um tabu de quase 23 anos sem taças, diante da Ponte Preta, no Morumbi. O gol do título foi marcado por Basílio.

Quatro anos mais tarde, gravou seu nome na história novamente, ao conquistar a primeira edição da Série C pelo Olaria, frente ao Santo Amaro-PE. Paulo Ramos, Salvador, Lulinha, Zé Ica, Chiquinho e Ricardo estavam entre os destaques do escrete da Rua Bariri.

O ex-comandante também se orgulhava de ter aberto as portas para os técnicos brasileiros no Oriente Médio. Treinou o Al-Muharraq no Catar. Em entrevista à sessão "Que Fim Levou?", do comentarista esportivo Milton Neves, ele disparou: "Alguns técnicos espalharam que eu tinha morrido para que eu não concorresse com eles no Oriente Médio".

Muito obrigado, Duque

Duque foi casado com "Mana", prima de Seu Ivanildo Fernandes de Lima, meu saudoso avô materno. Talvez a explicação do meu "nautiquismo" esteja no DNA, ainda que seja um parentesco bem distante - porém inegavelmente valioso.

Infelizmente não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. A vida tem seus requintes de crueldade, não é?

Encerro este singelo tributo ao maior técnico da história do Timbu - e também do futebol pernambucano - com uma frase postada no Blog de Cassio Zirpoli, do Diario de Pernambuco, neste domingo:

"Eu era o preparador físico, o preparador técnico, o preparador tático e o homem que impunha a psicologia a serviço da equipe"

(Davi Ferreira, o "Duque", ex-jogador e ex-técnico de futebol)

O que mudou de lá para cá? O preparo físico dos jogadores tem um avançado aparato tecnológico ao seu favor atualmente, é verdade. Por outro lado, os sistemas táticos influenciam bastante esse aspecto do indivíduo. E, mais do que a tática, ao treinador também cabe a missão de trabalhar o âmbito humano dos atletas.

Por ter colocado Pernambuco entre os grandes centros do futebol nacional, por ter se consagrado entre os grandes técnicos do Brasil e pelo seu lado folclórico (para se ter ideia, ele oferecia laranjas aos jogadores antes das partidas), só temos a agradecer. Morre o homem e fica o legado. Muito obrigado, Duque!