Elas também entendem de tática

VAVEL Brasil conversa com mulheres que dão um nó tático no preconceito e fomentam questões estratégicas do jogo

Elas também entendem de tática
Arte: Rodrigo Rodrigues/Editoria de Arte

Não é muito difícil encontrar pessoas interessadas em dissecar o futebol com um olhar mais profundo acerca do jogo. Com o advento das redes sociais, analistas de desempenho, comentaristas e jornalistas utilizam ferramentas como Facebook e Twitter para expor suas análises ao público. Mas em meio a um ambiente dominado por homens, uma mulher se destaca divulgando seu trabalho sobre o futebol feminino.

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Formada em Educação Física, a jovem Camila Lima, de 22 anos, realizou no blog Seu Esporte análises de jogos do Campeonato Brasileiro Feminino Série A1. Apaixonada por tática e análise de desempenho, a aspirante a treinadora de futebol compartilha seu trabalho no Twitter e troca mensagens com profissionais referências no assunto para receber feedback.

Em bate-papo com a VAVEL Brasil, Camila contou que o interesse por examinar o futebol feminino de um ângulo tático surgiu quando estava na faculdade. “No segundo ano de curso, eu fiquei responsável por ministrar os treinos de futsal na faculdade. Fui me apaixonando por tática, estudando cada vez mais a lógica interna do jogo e tudo que ele rege”, disse a paulista, cujo TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) foi sobre o desenvolvimento de inteligência e criatividade tática dos jogadores em modalidades coletivas.

Ao falar sobre as equipes que disputaram o Brasileirão Feminino, Camila destaca Corinthians, Iranduba, Kindermann, Rio Preto, Santos e Sport. Ela mostra desenvoltura para examinar essas equipes. “São times muito bem organizados, com bons trabalhos. Dentro do modelo do jogo, eu gosto de equipes que jogam com a posse de bola para propor o jogo. O modelo do Santos é muito legal, de muita circulação de bola, triangulação, profundidade. O Corinthians entra dentro da mesma perspectiva. O Sport também triangulava bastante, tinha inversões de lado”.

Camila, que tem Johan Cruyff, Pep Guardiola e José Mourinho como referências, diz ser adepta às escolas espanhola e portuguesa (Foto: Arquivo Pessoal)
Camila, que tem Johan Cruyff, Pep Guardiola e José Mourinho como referências, diz ser adepta às escolas espanhola e portuguesa (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas um time que encantou Camila foi o Iranduba. “É uma equipe muito bem organizada taticamente: defendia com duas linhas de quatro, atacava num 4-3-3 muito agudo, explorando a velocidade das atacantes”, afirmou. Ela também enalteceu a ação de marketing do clube, que, na derrota para o Santos, colocou 25 mil pessoas na Arena da Amazônia. “Colocar 25 mil pessoas na Arena da Amazônia, cuja média de público do futebol masculino girava em torno de 2 a 3 mil pessoas, é uma coisa mágica, arrepia só de falar”, salientou.

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Se Camila disseca o futebol longe das quatro linhas, Jéssica Ferreira o faz dentro de campo. Com 36 anos “bem vividos”, como ela mesma diz, a volante do Rio Preto se sobressai quando o assunto é o ‘tatiquês’. Nada mais justo, afinal a atleta paulista definitivamente respira futebol: é graduada em Educação Física, trabalha nas divisões de base (feminino) do clube paulista e foi preparadora física do time alviverde na Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano.

À reportagem, Jéssica dissertou sobre os aspectos táticos no futebol feminino. De acordo com a jogadora, as mulheres sofrem mais que os homens para executar modificações táticas durante a partida.

O que eu vejo no futebol, principalmente no feminino, é a dificuldade em mudar a variação tática por causa das meninas. Elas não têm esse repertório tático mais aguçado como é com o masculino, que vem desde a base. Pode mudar, mas eu acredito que a menina tem um pouco mais de dificuldade em relação ao masculino”, observou.

Foto: Marcelo Pereira/All Sports
Jéssica é uma das atletas mais experientes do Rio Preto (Foto: Marcelo Pereira/All Sports)

Assim como a estudiosa Camila, Jéssica deu a sua opinião sobre os times que disputaram o Brasileirão Feminino. Para a volante, a equipe do Santos é a mais organizada e obediente taticamente do futebol brasileiro. “[As Sereias da Vila] chegaram à final com mérito, e não é fácil jogar contra elas: ganhamos um e perdemos o outro. É uma equipe muito bem postada”, elogiou.

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“Antes mesmo de me formar, eu já gostava de ler sobre, e ainda continuo lendo. Gosto muito da parte tática” – Jéssica Ferreira

Jéssica é autocrítica quando o papo é a evolução do futebol. “Nós, atletas, sabemos que precisamos dessa melhora em relação à leitura de jogo, que é uma coisa bem cognitiva cujo não tivemos lá atrás. Quando nós começamos a jogar, era só ‘toca a bola e se vira’. Então, saber o que está acontecendo, você ter autonomia para conseguir sair de uma situação que às vezes nem o treinador consegue passar para a gente, isso eu acho que falta muito: esse poder de decisão”, elucidou.

Mais que tática, Gleide enfatiza a formação de base para um melhor execução do jogo (Foto: Isabelly Morais/VAVEL Brasil)
Gleide enfatiza o trabalho na categoria de base da modalidade feminina (Foto: Isabelly Morais/VAVEL Brasil)

Gleide Costa, técnica do Botafogo-PB, endossa o pensamento de Jéssica. Única treinadora da Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A2, a comandante, de 41 anos, pontuou para o trabalho nas divisões de base. Em sua segunda passagem pela agremiação paraibana, a treinadora deu início, em 2015, a um trabalho mais sistêmico, com uma proposta na linha da formação de atletas.

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De acordo com Gleide, a deficiência apresentada no profissional para compreender as estratégicas táticas é consequência da falta de preparação nas divisões de base.

“O aspecto tático é de suma importância para uma equipe. Como entender futebol sem entender da parte tática e das estratégias?” - Gleide Costa

Eles [os homens] já vêm com a base. Eles vêm trabalhando essas questões estratégicas, táticas desde que adentram às escolinhas de futebol. Então, quando as meninas têm essa entrada tardia, eu acho que isso pode ser um ponto. Existe, sim, a dificuldade de entendimento tático, mas isso não é via de regra”, explicou.

Diante dessa situação, Gleide sugere que os técnicos ajudem as jogadoras numa imersão aos termos mais complexos do jogo. “Como a gente vive numa modalidade de alto rendimento, é necessário que todos os técnicos tentem envolver nossas atletas com esse conhecimento do jogo, de suas estratégias, dos termos. É lógico de você precisa usar outras adequações, mas existem os termos científicos para descrever os esquemas, sistemas, as estratégias de jogo”, sublinhou.

Cobertura VAVEL Brasil sobre futebol feminino


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