O futebol feminino e eu: paixão e comprometimento ao longo de dez anos

Meu relacionamento e entusiasmo com a modalidade começou em 2007 e, anos depois, trago uma breve reflexão sobre o que venho aprendendo nesse período

O futebol feminino e eu: paixão e comprometimento ao longo de dez anos
Foto: Feng Li/Getty Images

Era um terça feira, no dia 11 de setembro de 2007. Na época, eu tinha 14 anos e estava em períodos de prova no primeiro ano do Ensino Médio, quando acordei de madrugada, insone, nervoso com uma prova de Biologia que iria fazer naquele dia. Após mudar de canal várias vezes, me fixei em um, que exibia uma partida de futebol entre Estados Unidos e Coréia do Norte pela Copa do Mundo de Futebol Feminino. 

Sempre fui apaixonado por futebol desde a infância. Guardo diversas recordações da Copa de 2002, desde os jogos pela madrugada, a pintura das ruas e o entusiasmo e patriotismo que tínhamos naquela época. A paixão com o tempo foi crescendo, acompanhando os mais diversos campeonatos, além do Brasileiro, que passavam pela televisão. 

Mas aquela madrugada foi diferente. Não era nenhuma reprise do mundial sub-20 ou sub-17 e sim, o jogo foi equilibrado, um 2 a 2 sofrido para as norte-americanas diante da organizada seleção norte-coreana. O time ianque contava com jogadoras como Abby Wambach, Heather O'Reilly e Hope Solo, desconhecidas para mim na época. Em 2007, eu ainda não possuía conexão de internet em casa e precisava ir para a minha avó ou para uma lan house para poder navegar nas redes sociais e fazer trabalhos escolares. 

Continuei a acompanhar o Mundial Feminino em 2007. Vi e me apaixonei pela seleção brasileira, que havia sido prata nas Olimpíadas de Atenas quatro anos antes, vencer suas três partidas na primeira fase, em um time comandado por Marta, Cristiane e Daniela Alves, um time que literalmente destruiu o todo poderoso USWNT nas semifinais com uma sonora goleada por 4 a 0, com direito a um imensurável da camisa 10 da seleção brasileira. Um gol de gênio, como definiu o saudoso Luciano do Valle, na transmissão daquela partida. 

Infelizmente, o Brasil perdeu para a Alemanha por 2 a 0 na grande decisão. A geração treinada por Silvia Neid tinha nomes como Brigit Prinz, Simone Laudehr, Nadine Angerer, entre outras. Eram as atuais campeãs mundiais e fizeram por merecer sua campanha, conquistando o bicampeonato mundial em solo chinês. 

Na época, as informações eram escassas e não se encontrava muita coisa. Só no ano seguinte, voltei a me envolver com a modalidade, na época do mundial sub-20 realizado no Chile. Acompanhando com uma transmissão lenta, pela recém chegada internet em minha casa.

Na época, eu não tinha nenhuma jogadora predileta tirando Marta e graças aquela Copa do Mundo, conheci uma jogadora alta, esguia, ágil, que jogava com a camisa sete e evitava a todo custo que a seleção da casa sofresse um massacre naquele mundial: Claudia Christiane Endler Mutinelli, a goleira da seleção chilena, que com apenas 17 anos na época, talvez nem imaginasse que alguns anos depois, iria se tornar uma das melhores da posição, atuando no gigante Paris Saint Germain, um dos principais clubes do cenário atual da modalidade. Tiane, como a teuto-chilena é apelidada, foi a minha primeira "paixão platônica" dentro da modalidade. 

A internet possibilita troca de informações e sobretudo, interação. Foi graças a ela que conheci pessoas que assim como eu, eram "loucos" por aquela modalidade. Que madrugavam para ver Austrália x EUA ou que acordavam cedo pela manhã de domingo para ver Bayern x Turbine Potsdam, tudo isso, por streams. As redes sociais foram fundamentais para esse crescimento e troca de informações. 

O hobby virou trabalho, mesmo que sem remuneração, por pura paixão. A convite de um grande amigo, que na época era um dos pioneiros em informar sobre futebol feminino por meio de uma página no Facebook, sobre a modalidade,chamado Mundo do Futebol Feminino e posteriormente, Planeta Futebol Feminino. Comecei a escrever já em meados de 2011 ou 2012, onde me focava em escrever sobre a Frauen Bundesliga e a DFB Frauen. Mesmo cursando Engenharia Mecatrônica, vi na escrita uma forma de me aproximar mais ainda do futebol feminino, por mais que não fosse um jornalista e tivesse (e ainda tenha) problemas com a escrita em alguns aspectos, procuro melhorar a cada dia, recebendo críticas construtivs no que posso e no que devo melhorar.

Com o tempo, passei a escrever em outros sites. Bundesliga Brasil, Surto Olímpico, até chegar a VAVEL Brasil, na época, para escrever sobre futebol (masculino) português, também após convite de um amigo em 2013. Por conta do período conturbado na graduação, desisti pouco tempo depois por falta de tempo e só retornei quase um ano depois, dessa vez para escrever sobre Ligue 1 e em seguida, integrei por um período a redação de futebol feminino da VAVEL UK, onde teria um grande desafio: escrever sobre futebol feminino em língua inglesa. Após novo período distante da VAVEL Brasil, voltei definitivamente em 2017 para escrever sobre futebol feminino. 

Ao longo desses anos, passei a acompanhar o crescimento da modalidade no Brasil e no mundo, por mais lento e ineficaz. Hoje no cenário nacional, temos duas divisões de um campeonato com jogadoras de qualidade, competitividade e clubes (não todos) comprometidos com suas atletas. Revelamos jogadoras que atuam em ligas competitivas como a Liga Iberdrola (Espanha), Frauen Bundesliga (Alemanha), D1 Féminine (França) e NWSL (Estados Unidos). Porém, falta muita coisa para a modalidade no país avançar, passando por gestão de clubes, profissionais comprometidos e competentes, entre outros aspectos. A luta é árdua, mas necessária para o progresso. 

São dez anos de muitas memórias e jogadoras a serem listadas. Dos cinco títulos de melhor do mundo dados a Marta ao título inédito da Eurocopa da Holanda, do São José levando a torcida da sua cidade para uma final de Libertadores em pleno meio dia de um domingo ao Iranduba colocando Manaus no cenário nacional com sua torcida e um time extremamente competitivo no cenário nacional. Marta, Christiane Endler, Wendie Renard, Patrizia Panico, Ada Hegerberg, Nadine Kessler, Cristiane, Jackie Groenen, Camile Abily, Carli Lloyd, Formiga, Kelly Smith, Brigit Prinz, Nadine Angerer, Silvia Neid, Pia Sundhage, Ralf Kellermann, são alguns dos nomes que me fizeram e fazem gostar do futebol feminino. Aprendi e conheci muitas pessoas ao decorrer desses dez anos, sejam jogadoras, treinadores, entusiastas, fãs e principalmente: grandes amizades para a vida. 

Palavras não são suficientes para mostrar tamanha gratidão que sinto por isso tudo ao decorrer de todos esses anos. Espero ter mais longos anos escrevendo, aprendendo, ensinando, acompanhando e informando sobre o futebol feminino.