Tragédia na Fonte Nova: uma década depois, poucos esclarecimentos

O maior acidente em um palco esportivo no Brasil completa dez anos e muitas dúvidas e indagações sobre o fato seguem sem resposta

Tragédia na Fonte Nova: uma década depois, poucos esclarecimentos
10 anos depois ninguém foi responsabilizado pelo acidente que matou sete pessoas (Foto: Reprodução)

Neste dia 25 de novembro de 2017, o pior acidente dentro de um estádio brasileiro de futebol completa 10 anos. Foi no dia 25 de novembro de 2007 que sete torcedores (Márcia Santos Cruz, 27 anos; Jadson Celestino Araújo Silva, 25 anos; Milena Vasques Palmeira, 27 anos; Djalma Lima Santos, 31 anos; Anísio Marques Neto, 27 anos; Midiã Andrade Santos, 24 anos, e Joselito Lima Júnior, 26 anos) morreram após cair de uma altura de 20 metros, uma parte da estrutura da antiga Fonte Nova abriu e um buraco se formou no anel superior da arquibancada do antigo estádio.

Na disputa da Série C daquele ano, por várias vezes o estádio teve sua capacidade reduzida por conta do péssimo estado em que se encontrava. Mas na partida que marcaria o acesso do clube à Série B, foram liberadas mais de 60 mil pessoas para acompanhar o duelo diante do Vila Nova-GO, que acabou empatado em 0 a 0, garantindo o acesso às duas equipes.

Naquele mesmo ano, a Fonte Nova já havia sido considerada o pior estádio brasileiro, mas apesar de laudos e limitações, os lugares mais prejudicados foram liberados para a “festa do acesso”.

Apesar do acidente, ninguém foi responsabilizado criminalmente pela morte dos sete torcedores. A denúncia do Ministério Público da Bahia por lesão corporal de natureza culposa e homicídio culposo contra o ex-jogador Raimundo Nonato Tavares, o Bobô, e o engenheiro Nilo dos Santos Júnior, que na época era diretor geral e de operações da Sudesb. Os dois foram absolvidos pela justiça.

Já os familiares das vítimas receberam pensão vitalícia no valor de um salário mínimo, além de ter sido oferecida uma indenização no valor de R$ 25 mil.

O aviso veio antes

Mais de um ano antes do acidente, no dia 19 de janeiro de 2006, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) entrou com uma liminar para impedir o uso da Fonte Nova, por conta dos laudos da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros, falando sobre a situação precária que se encontravam os banheiros, lanchonetes e arquibancadas.

Em 2005, um laudo expedido pela Vigilância Sanitária chama atenção pelos pontos levantados e que algum tempo depois ceifaria a vida de sete torcedores. No laudo consta que “a Fonte Nova apresenta em toda sua extensão áreas com ferragem exposta, tubulações enferrujadas, piso irregular e sem revestimento, além de infiltrações”.

No final do governo de Paulo Souto, o superintendente da Sudesb, Marcus Cavalcanti solicitou um relatório da empresa Geluz sobre as condições estruturais da Fonte Nova. Neste laudo foi destacado os problemas de oxidação e a necessidade de reformas urgentes com possibilidade de “colapso” do mesmo. O relatório ainda trazia um orçamento das obras, que na época custariam 3,6 milhões de reais para a parte emergencial e mais de 11 milhões de reais, a recuperação completa da Fonte Nova.

Em comunicado interno, do dia 10 de janeiro de 2007, logo depois que Raimundo Nonato Tavares, o Bobô, assumiu a Sudesb, mostra que o diretor de Operações, Nilo dos Santos Júnior avisou sobre a necessidade de reparos na Fonte Nova. No documento diz: “o estádio necessitaria de reparos urgentes na estrutura e nas arquibancadas, tendo em vista que as mesmas não reúnem condições de uso, em razão do estado deplorável em que se encontra em alguns trechos”.

Depois, o Ministério Público investigou e entendeu que a Sudesb utilizou a verba de 1,6 milhões de reais disponíveis para realizar obras de fachada e reformas paliativas.

Um ano antes, a Fonte Nova já dava sinais de que não podia receber os jogos do Bahia na reta final das competições.  No dia 28 de outubro de 2006, o Bahia recebeu o Ipatinga, pela fase final da Série C. Antes do apito final, torcedores invadiram o gramado e atiraram pedras – retiradas das arquibancadas que estavam se desfazendo - no campo, transformando o cenário em um filme de terror. A partida foi suspensa por questões de segurança. Na época, o Bahia foi punido com perda de oito mandos de campo e mais uma multa de R$140 mil, o clube recorreu e diminuiu a multa para R$ 50 mil e os mandos de campos para apenas 6.

Um domingo de homenagens

A partida de amanhã será marcada por diversas homenagens, o Bahia já enviou um oficio à CBF para que seja feito um minuto de silêncio antes da partida diante da Chapecoense, às 18 horas, na Arena Fonte Nova.

O clube também irá passar o nome das sete vítimas no telão do estádio. Além disso, o clube também irá passar o nome dos 71 mortos no acidente aéreo do time catarinense, que irá completar um ano no próximo dia 29 de novembro. Os jogadores do tricolor baiano estarão com uma braçadeira preta, em sinal de luto.

Dois sobreviventes foram convidados pelo clube para acompanhar a partida diante do time catarinense, Jader Landerson, que hoje tem 27 anos, aceitou o convite e irá acompanhar a partida de um dos camarotes da Arena. Já Patrícia Vasques negou o convite para ir até a Fonte Nova, mas receberá uma camisa do clube, assim como Jader.