Um ano do acidente da Chapecoense: responsabilidades pela tragédia na Colômbia

365 dias depois da catástrofe aérea, investigações seguem e novos sócios da LaMia são descobertos; duas pessoas estão presas e outras duas seguem foragidas pela Justiça da Bolívia

Um ano do acidente da Chapecoense: responsabilidades pela tragédia na Colômbia
Arte: Rodrigo Rodrigues/VAVEL Brasil

O aviso do piloto Miguel Quiroga à torre de controle do Aeroporto de Rionegro, nos arredores de Medellín, na Colômbia, na noite de 29 de novembro de 2016, já mostrava que o voo 2933 da LaMia havia algo errado. Na ocasião, o comandante boliviano alertava sobre uma falha elétrica no avião, que, horas depois de ter caído, descobriu-se que se tratava de uma 'pane seca', ou seja, falta de combustível.

O Brasil e o mundo ficaram indignados com a atitude do piloto, que custou a vida de 71 pessoas entre jogadores da Chapecoense, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e tripulantes. Mas, a cada passo que a investigação ganhava corpo, mais se tinha a certeza que uma série de erros ocorreram desde que a aeronave deixou o solo de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Quantas pessoas foram responsabilizadas pelo acidente aéreo que findou o sonho de um time a disputar uma inédita final de Copa Sul-Americana? A VAVEL Brasil listou todos os pontos importantes da investigação até aqui, que contou com a participação de autoridades bolivianas, venezuelanas e brasileiras.

Autoridades confirmam: pane seca derrubou avião

Dois dias depois do acidente, as autoridades colombianas confirmaram que a queda do avião da LaMia se deu pelo fato do mesmo ter sofrido uma 'pane seca', em função de falta de combustível. A afirmação veio antes mesmo da análise da caixa preta. A revelação veio depois de um áudio entre o piloto Miguel Quiroga e a torre de controle do Aeroporto de Rionegro, no qual o comandante solicitava prioridade no pouso por estar em 'falha elétrica total'.

Em entrevista coletiva, o secretário de Segurança Aérea da Colômbia, Freddy Bonilla, confirmou que faltou combustível para o avião, que, consequentemente, perdeu os motores no ar. Bonilla também afirmou que, no momento que Quiroga pediu prioridade no pouso, a torre de controle já auxiliava outra aeronave, da empresa VivaColombia, que reportou vazamento de combustível. 

Autoridades colombianas garantem que houve 'pane seca' (Foto: Divulgação)
Autoridades colombianas garantem: faltou combustível para avião (Foto: Divulgação/Aeroporto Olaya Herrera)

Até o momento da solicitação de prioridade, Miguel Quiroga evitou falar em 'falta de combustível', por temer multa assim que pousasse na Colômbia. Vendo que a situação da aeronave só piorava com a perda brusca de altitude, o piloto 'abriu o jogo' e disse estar com 'problemas de combustível', e pediu vetores para a controladora de tráfego aéreo, já que havia perdido todo o sistema elétrico. Os vetores foram dados, mas já era tarde. O avião bateu no topo de uma montanha, a 38 quilômetros da cabeceira da pista.

O diretor da Aeronáutica Civil da Colômbia, Alfredo Bocanegra, defendeu a atitude da controladora de voo naquela noite, afirmando que a mesma forneceu todos os vetores necessários para o piloto se orientar. A demora para falar o real motivo do problema no ar foi crucial para a queda da aeronave.

Voo de risco: quantidade de combustível era 'baixa' para percurso

Sabendo que o avião caiu por falta de combustível, os investigadores concentraram foco na origem do voo: Santa Cruz de la Sierra. Analisando o plano de voo, as autoridades comparam a autonomia do avião, modelo Avro RJ-85, com a quantidade de combustível indicado no roteiro, e viram que os dois números eram iguais. De acordo com a legislação boliviana, para um avião decolar, é preciso ter combustível para chegar a um aeroporto de alternativa, na ocasião, Bogotá, além de 45 minutos em altitude de cruzeiro.

Autonomia do Avro RJ-85 é de, aproximadamente, três mil quilômetros (Foto: Divulgação)
Autonomia do Avro RJ-85 é de, aproximadamente, três mil quilômetros (Foto: Divulgação)

A responsável pela assinatura do plano de voo foi Celia Castedo Monasterio, hoje, ex-funcionária da Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea da Bolívia (Aasana). Ela chegou a alertar sobre o tempo igual entre percurso e a autonomia do avião, mas o piloto Miguel Quiroga, também responsável pela LaMia, disse que faria o voo em menos tempo que o previsto.

Após o incidente, Celia pediu abrigo ao governo brasileiro, e ainda se defende da acusação de homicídio culposo na Bolívia, onde é considerada foragida. O Comitê Nacional para Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, ainda decidem se aceitam, ou não, o refúgio da ex-funcionária da Aasana. Caso a resposta seja negativa, ela terá que voltar para o território boliviano, onde responderá pelo processo. 

Diretor-geral da LaMia é preso na Bolívia

Uma semana após o acidente e com as causas nas mãos, as autoridades bolivianas executaram uma ordem de busca e apreensão na sede da LaMia, em Santa Cruz de la Sierra, e decretaram a prisão de Gustavo Vargas Gamboa, diretor-geral da companhia aérea . Além disso, os agentes confiscaram documentos e computadores.

Gamboa é ex-militar da Força Aérea Boliviana. Ele serviu entre 2001 e 2007 e foi piloto de vários presidentes do país, incluindo Evo Morales. Gustavo está em prisão domiciliar e responde por homicídio culposo, lesões graves e gravíssimas, além de desastre em via aérea.

Piloto Miguel Quiroga, morto na queda do avião, Gustavo Vargas, preso, e Marco Rocha, foragido, são sócios da LaMia (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de diretor-geral, Gustavo era um dos sócios da LaMia, ao lado do piloto Miguel Quiroga. O filho de Vargas Gamboa, Gustavo Vargas Villegas, chegou a ser preso preventivamente, mas, em julho deste ano, a detenção foi substituída por 'medidas de substituição' pela Justiça boliviana. Villegas, na ocasião, respondeu por uso indevido de influência, contratos contra o Estado e violação de funções.

Até onde vai a responsabilidade da Chapecoense?

Muito se discutiu a responsabilidade da Chapecoense na tragédia aérea, principalmente na questão de seguros às famílias que perderam seus entes queridos. O fato é que os dirigentes já haviam contratado os serviços da LaMia em outra oportunidade, pouco mais de um mês antes do fatídico acidente, mas, dessa vez, para Barranquilla, também na Colômbia, onde enfrentaria o Junior Barranquilla pelas quartas de final da Sul-Americana.

A LaMia era uma empresa que utilizava o mercado de forma agressiva, oferecendo preços até 40% mais baixos que a concorrência para fretar voos. A Conmebol, de maneira informal, passou a indicar a transportadora para os clubes que disputavam competições sul-americanas - até a Seleção Argentina chegou a voar no avião que se acidentou, entre Belo Horizonte e Buenos Aires, após a derrota para o Brasil, no Mineirão, por 3 a 0, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, 20 dias antes, aproximadamente, da tragédia com a Chapecoense.

LaMia tinha o costume de personalizar sua única aeronave de acordo com o time transportado (Foto: Reprodução/Twitter)

Em outubro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) em Chapecó concluiu que a Chapecoense não foi negligente e nem imprudente na contratação da LaMia. O órgão não identificou pagamentos indevidos ou qualquer tipo de 'interesses obscuros' na escolha da empresa. A investigação contou com pessoas indicadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa).

LaMia segue na mira da Justiça; outros sócios são descobertos

Na semana em que completa um ano do acidente, uma nova etapa da investigação foi deflagrada, desta vez, na Bolívia. Novos sócios da LaMia foram descobertos, após análise de documentos. Vale ressaltar que a empresa era dividida entre as filiais em solo boliviano e venezuelano. As novas informações são do boliviano El Deber.

Na Bolívia, Miguel Quiroga e Gustavo Vargas Gamboa eram os sócios, além de Marco Antônio Rocha, este último ainda foragido. Já na Venezuela, o ex-senador Ricardo Albacete Vidal controlava a LaMia de forma sigilosa, à distância, já que morava na Espanha, ao lado da filha, Loredana Albacete, além de outro político de cidadania boliviana ainda não identificado. Antes, a dupla era 'encoberta' pela administradora Miriam Flores, além de Vargas Gamboa.

Ricardo Albacete Vidal comandava a LaMia na Venezuela, mas mantinha conexão com empresa na Bolívia (Foto: Divulgação)

O Ministério Público da Bolívia possui um documento de 30 páginas, contendo áudios, fotografias e mensagens por aplicativo que comprovam a participação de todos os nomes citados no negócio. A prova cabal, no entanto, se deu na análise do contrato entre a Chapecoense e a LaMia. O clube entregou documentos ao Ministério Público Brasileiro, e neles havia um comprovante de pagamento de U$$ 130 mil pelo fretamento do voo, depositados na conta da Kite Air Corporation Limited, cuja dona é Loredana Albacete, e possui sede em Hong Kong e Caracas.

Com isso, a investigação do acidente foi ampliada por mais seis meses. A expectativa é que o nome de Ricardo Albacete Vidal, por exemplo, apareça entre os acusados. Além de Gustavo Vargas Gamboa, Joons Teodovich, ex-funcionário da Aasana também cumpre prisão domiciliar. Teodovich, ao lado de Celia Castedo, também aprovou o plano de voo 'irregular'.

Resumo

Cumprem prisão domiciliar: Gustavo Vargas Gamboa (ex-diretor-geral da LaMia)* e Joons Teodovich (ex-funcionário da  Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea da Bolívia)**

Foragidos: Marco Antônio Rocha (um dos sócios da LaMia) e Celia Castedo Monasterio (ex-funcionária da Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea da Bolívia)

Investigados: Ricardo Albacete Vidal, Loredana Albacete e um político ainda não identificado (sócios 'ocultos' da LaMia)

*Responde por homicídio culposo, lesões graves e gravíssimas, além de desastre em via aérea
**Responde por homicídio culposo