Três passagens e uma idolatria: o legado de Tite no Corinthians

Como um gaúcho se tornou o maior técnico da história corinthiana e revolucionou o modo corinthiano

Três passagens e uma idolatria: o legado de Tite no Corinthians
Foto: Daniel Augusto Jr/Ag.Corinthians

Corinthiano, maloqueiro e sofredor. Essa é a frase que a Fiel cansa de cantar nas arquibancadas à fora. A segunda maior torcida do Brasil foi moldada na raça, na garra, no sofrimento de quem tinha no povo sua maior força. Foi assim que a torcida cresceu de forma gigantesca na enorme fila de 23 anos. 

Esse drama, sufoco, que desenhou a mística corinthiana foi transformada após a chegada de uma pessoa. Gaúcho, religioso e formal, Adenor Leonardo Bacchi chegou no conturbado ano de 2004, com o Corinthians na zona de rebaixamento, time fraco de Jô, Fábio Baiano, Gil... Sem ninguém de valor, sem expectativas, mas com trabalho e empenho, conseguiu levar aquele desacreditado e ruim time alvinegro ao quinto lugar, uma posição atrás da vaga da Libertadores. A torcida cresceu sua esperança com a chegada da MSI e as estrelas internacionais, mas o desejo por uma soberania nos vestiários prorrogaram a passagem com a promessa de que ele voltaria.

Foi em 2010 que as coisas mudaram de patamar. Mano Menezes foi para a Seleção Brasileira e Tite retornou. Sua segunda passagem foi iniciada com o terceiro lugar no Brasileiro daquele ano e eliminação vexatória para Tolima em 2011, na Pré-Libertadores. O momento de maior instabilidade em toda trajetória corinthiana quase o fez sair, mas Andrés Sanchez o bancou. O resultado disso, todos sabem. Brasileiro daquele ano, Libertadores e Mundial em 2012, Recopa e Paulista em 2013.

Com elenco acomodado e sem tirar muito de quem foi campeão, Tite e Corinthians não renovaram o contrato e, ao final de 2013, o Pacaembu agradecia emocionado ao seu treinador. Era o fim da segunda e mais vitoriosa passagem dele pelo Timão.

Com 2014 tirado para se reciclar, para estudar e trocar experiências pelo mundo do futebol, Tite se renovou. Todos o queriam, mas ele estava irredutível. Estudo, treinos, formas de jogo. E voltaria em 2015, recheado de expectativa e dúvidas. Pra onde? Como será? Estudou mesmo? 

A resposta para tudo isso foi em Itaquera. Mesmo com proposta do Internacional bem maior, Tite preferiu o Corinthians. As dúvidas aumentaram. Como pode voltar onde já foi feliz? Retranqueiro e paneleiro? As coisas mudaram e pra melhor.

Tite sempre foi da linha educada e filosófica. Sempre pregou a ética e a educação. O jogo limpo, a aplicação tática, valores acima de vencer a qualquer custo. Ele moldou a torcida. E a torcida moldou Adenor. O profissional Tite, que passou por Grêmio e Inter, Palmeiras e Corinthians, se viu maloqueiro. Se viu dizendo "mano". Se viu com faixa de favela. E viu um mosaico erguido em sua homenagem. Viu a torcida gritar seu nome no telão de Itaquera mais do que qualquer um. 

O treinador que fez do Corinthians mais vitorioso viu quem te carregou nos braços deixá-lo mais alvinegro. Talvez ele não seja corinthiano de nascimento, mas certamente é mais um louco do bando.