O inferno, o céu e o purgatório: da queda ao mundo e a nova reformulação do Corinthians

Quase nove anos após a sofrida queda para a Série B, o Timão reescreveu sua história, mostrando cada dia mais que fez de sua fraqueza a maior força que poderia ter

O inferno, o céu e o purgatório: da queda ao mundo e a nova reformulação do Corinthians
Foto: Getty Images

É comum dizermos que nenhuma grande trajetória é feita apenas de vitórias. Na verdade, o que as fazem tão grandes são as adversidades que se colocam no caminho e são superadas com louvor. E foi assim, a partir de sua maior dificuldade, que o Corinthians começou a reescrever sua tão fantástica histórica no dia 2 de dezembro de 2007.

É um fato que, aos corintianos, a dor vivida naquele domingo jamais será esquecida. Na época, sob o comando de Nelsinho Batista, o empate em 1 a 1 diante do Grêmio selou a queda do Timão para a Série B do Campeonato Brasileiro pela primeira vez em sua história. Naquele fatídico ano, os problemas extracampo influenciaram negativamente a equipe: a já problemática parceria com a MSI, o elenco fraco, as constantes trocas de treinadores foram apenas alguns dos fatores que fizram o Corinthians viver o maior fracasso de seus então quase 100 anos. Era visível que as coisas não poderiam continuar como estavam. Por necessidade e pelo sentimento de voltar às glórias, as coisas mudariam no Parque São Jorge. Mas ninguém imaginava que, ali, nasceria um tão lindo enredo. 

Em 2008, antes mesmo de iniciar sua campanha na segunda divisão, o clube já tinha uma cara diferente. Andrés Sanchez assumira a presidência do clube, e, para o comando técnico, Mano Menezes chegou, depois de um bom trabalho no Grêmio vice-campeão da América, para ser o responsável por voltar o Timão para a elite do futebol brasileiro. A equipe titular do clube sequer tinha resquicíos daquela que fora rebaixada no ano anterior; afinal, daquele time, permaneceram apenas o goleiro Felipe, talvez o único ponto positivo da vexatória campanha, e Dentinho, cria das categorias de base alvinegras. Chicão, Willian, Alessandro, André Santos, Cristian, Douglas, Elias e Herrera foram contratados naquele ano e, aos poucos, se tornaram a base de uma das melhores campanhas da Série B. A reformulação geral do clube gerou frutos: ainda na 32ª rodada do campeonato, o Corinthians já havia garantido seu retorno à elite e, mais para frente, conquistou o título. A mais marcante das mudanças, porém, veio das arquibancadas. No ano mais difícil da história do Alvinegro, a torcida corintiana fez-se presente em todos os jogos da equipe, com ainda mais força, recebendo a mais que merecida alcunha de fiel torcida.

O ano de 2009 então começou um pouco mais cedo para o clube paulista, que, já em dezembro anterior, anunciou uma das principais contratações da história do futebol brasileiro: Ronaldo Nazário de Lima, ou, simplesmente, Ronaldo Fenômeno. Craque dentro e fora das quatro linhas (principalmente em sua passagem pelo Parque São Jorge), o atacante em pouco tempo tornou-se referência dentro do clube. Depois de chegar desacreditado ao clube, por uma série de lesões, problemas com a forma física e extra-campo, como jogador, Ronaldo foi Campeão Paulista e da Copa do Brasil, sendo decisivo nas duas campanhas e mostrando que o três vezes melhor jogador do mundo ainda tinha muito futebol para jogar. Do lado de fora, foi um dos responsáveis pela maior revolução da história corintiana: apesar de sua grandeza vir de antes dos tempos de Fenômeno, a estrutura que o Corinthians possuia não era correspondente a sua dimensão, e foi através da influência e experiência de Ronaldo, com o auxilio de Andrés e o fisioterapeuta Bruno Mazziotti, que uma transformação radical foi feita, em especial na estrutura oferecida pelo clube aos atletas, com o centro de treinamento e o novo centro de recuperação, além do pontapé inicial para a construção de um sonhado estádio próprio.

A expectativa era alta para 2010, mas, as glórias conquistadas no ano anterior não se repetiram, frustrando o tão sonhado e esperado centenário do clube. Mesmo assim, com Ronaldo ainda em campo e reforçado por Roberto Carlos, o Timão se preparou para uma temporada seguinte que fizesse jus ao projeto tão bem elaborado nos anos anterores. Só que 2011 não teria um início muito melhor. Sem conquistar vaga direta para a Libertadores, o Corinthians teve de disputar a pré-Libertadores, aonde foi eliminado pelo Tolima-COL. Foi a primeira vez na história em um clube brasileiro não conseguiu passar pela fase preliminar, tornando o alvinegro alvo de chacota por parte dos rivais e até da própria mídia. A derrota gerou momentos de tensão entre clube e torcida, que chegou a organizar manifestações violentas ainda na noite da eliminação. As reações chegaram a assustar parte do elenco, levando muitos jogadores a deixar o clube, como o próprio lateral campeão do mundo com a Seleção Brasileira. E, para agravar ainda mais o mau momento, Ronaldo anunciou sua aposentadoria logo em seguida. Tite, que havia chegado no comando do clube há apenas alguns meses tinha sua cabeça à prêmio após o ocorrido, e mesmo assim, Sanchez optou por manter o treinador.

O presidente não poderia ter feito escolha melhor. No final daquele mesmo ano, o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro seis anos depois. Foi o início da montagem do time que, no ano seguinte, realizaria o maior sonho de qualquer corintiano. No dia 4 de julho de 2012, depois de ter superado partidas dramáticas contra Vasco e Santos, o Timão foi campeão da Libertadores de forma invicta e pela primeira vez em sua história, batendo o Boca Juniors na final. Naquela noite, ficou claro que tudo havia valido a pena. O rebaixamento, a necessidade de se superar para voltar ao grupo dos grandes. Naquela quarta-feira, a América se rendia ao Sport Club Corinthians Paulista. E, em dezembro do mesmo ano, o mundo fazia o mesmo, pela segunda vez, após a conquista do Mundial de Clubes, no Japão. Entravam para a história não apenas dois títulos, mas um elenco, e em especial um treinador, e principalmente um momento histórico que tornaram-se alguns dos maiores do Time do Povo.

Em 2013, por mais que a expectativa fosse grande, vieram dois títulos de menor expressão. Dessa vez, a Recopa Sul-Americana, sobre o rival São Paulo, além de um Campeonato Paulista, ficaram em segundo plano para uma eliminação na Libertadores para o mesmo Boca Juniors, em uma partida repleta de erros de arbitragem a favor do clube argentino, e de uma sofrível campanha no Campeonato Brasileiro. No fim da temporada, a nova diretoria do clube, comandada por Mario Gobbi Filho, acertou a saída de Tite do comando. Viria mais um ano de mudanças, mas, com a conquista de outro grande sonho da torcida alvinegra: em 2014 a grande conquista do clube foi a inauguração: a grandiosa Arena Corinthians. Considerada um dos mais modernas do Brasil, o estádio possui capacidade para abrigar 47.605 pessoas, e recebeu a abertura da Copa do Mundo de 2014, além de partidas de futebol nos Jogos Olímpicos de 2016. Dentro de campo, com Mano Menezes no comando, um ano sem taças, e o clamor por um velho conhecido para cuidar da parte técnica.

Com o retorno do ídolo Tite em 2015, era de se esperar mais uma conquista corintiana. Mesmo com um ano sem tanto brilho, especialmente no primeiro semestre, aos poucos o Timão foi mostrando sua força, e, no fim da temporada, conquistou o hexacampeonato brasileiro. O elenco, com jogadores de destaque como Jadson e Renato Augusto, teve em boa parte do certame um esquema 4-1-4-1 praticamente inédito no Brasil, que ajudou a consagrar o treinador, convidado para comandar a Seleção Brasileira em 2016. Por não poder competir com o investimento de equipes do exterior, especialmente da China, o Corinthians perdeu muitos de seus titulares: Gil, Ralf, Renato, Jadson, Malcom e Vagner Love deixaram o time logo após a conquista. 

Apesar de não ter tido meses muito promissores ao longo de 2016, com as eliminações na Libertadores e no Campeonato Paulista, além de perder Tite para a Seleção e um total de 18 jogadores do elenco campeão, o Corinthians ainda tem a oportunidade de brigar por dois títulos, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro. Mesmo com um desempenho bem abaixo do que o torcedor se acostumou nos últimos anos, com uma equipe enxuta, resultados questionáveis e o técnico Cristóvão Borges cada vez mais pressionado, a torcida continua a sonhar com tempos melhores, sem jamais deixar de apoiar incondicionamente o clube que cresceu aprendendo a amar. O corintiano, que tanto sofreu com o rebaixamento em 2007, mas viu o time se reerguer de maneira heróica e conquistar o mundo anos depois, passa por uma fase de dificuldades, mas sabe que tem toda a condição de novamente dar a volta por cima. Se não tivesse, não seria Corinthians.