Meu amor, meu legado! Torcedores do Cruzeiro contam histórias vividas com o clube

Equipe mineira completa 97 anos de existência nesta terça-feira (2)

Meu amor, meu legado! Torcedores do Cruzeiro contam histórias vividas com o clube
Foto: Cristiane Mattos/Light Press/Cruzeiro

O maior patrimônio de um clube é o seu torcedor. Em meio a patrocínios que estampam as camisas das equipes, valor nenhum se equipara à carga de sentimentos daqueles que as vestem, tampouco investimentos são maiores que o amor de uma torcida pelo seu time. Quando a instituição faz aniversário, então, a festa não é só sua. A comemoração é grande e de cada adepto que faz dela parte importante de sua vida. 

De Palestra a Cruzeiro: equipe mineira completa seus 97 anos

Nesta terça (2), o Cruzeiro está completando 97 anos de existência, e a VAVEL Brasil reuniu histórias de torcedores celestes com o clube mineiro. Se "azul e branco é a cor do sentimento", a coletânea que vem logo abaixo possui contos de pessoas que fizeram juras de união à Raposa por toda uma vida. 

O que é um celular perto de uma faixa?

Numa batalha ferrenha contra o inimigo, o que protegeria: seu celular novo ou uma faixa em alusão ao tricampeonato brasileiro do seu time, jogada pelo seu zagueiro? Se já pintou aquela dúvida aí, o Guilherme Henrique da Costa, de 21 anos, não teve nenhuma nas comemorações do terceiro título do Cruzeiro no Brasileirão, em 2013.

A danada da faixa!

Na carreata pela comemoração do tri, marquei presença no centro para participar da festa. Fiquei horas esperando os caminhões de bombeiros chegarem com o jogadores. Quando chegaram, para não ser roubado, coloquei meu celular novinho e caro na cintura. Após percorrer uma distância acompanhando os caminhões, [o zagueiro] Dedé reparou que eu estava chorando e jogou esta faixa para mim.

Foto: Arquivo pessoal

Porém, outro homem também segurou, e ficamos igual num "cabo de guerra", um puxando de cada lado, até que notei que meu lindo celular foi escorrendo por dentro da minha bermuda. Eu tinha duas opções: soltar a faixa e pegar o celular ou continuar segurando e perder o celular. Hoje fico muito feliz por ter vencido no cabo de guerra e algum sortudo "ganhou" um Galaxy S4.

Se eu fosse vender a faixa, valeria no mínimo 2.400,00 (preço do celular na época). Hoje, ainda posso "reaproveitá-la" no tri da Libertadores que esse ano virá.

Justa toda forma de amor - e amor celeste

Há preconceito no futebol? Sim. No entanto, muitos torcedores fazem disso lutas diárias, levantam bandeiras e enfrentam tudo como quem entra numa partida para não deixar de jogar um segundo sequer. A "partida" de Yuri Felipe Souza, de 22 anos, foi assumir que é gay nesse ambiente futebolístico, o que mudou muito a sua vida.

Sou gay assumido e amante do futebol. Porém, nunca deixei esses dois lados se cruzarem pelo medo da repressão. Meu amor pelo Cruzeiro vem desde 2002, desde 2007 acompanhando no estádio, até que eu cresci, ficou claro a minha sexualidade, e como eu iria demonstrar meu amor pelo time e não apanhar? Decidi me esconder e não deixar os dois explícitos: ia ao estádio e fingia ser o que não é. Ficava nas redes sociais sendo quem sou mas sem deixarem saber o meu amor [pelo Cruzeiro].

Foto: Arquivo pessoal

Mas aí o amigo Marcus mandou aquele conselho...

Até que, no começo de 2017, eu conversei com um amigo e ele mandou eu perder ser medo. No twitter, comecei a demonstrar meu amor pelo Cruzeiro sem medo de me assumir gay. E as coisas só melhoraram, meu coração bate mais forte pelo Cruzeiro, conheci pessoas incríveis, luto contra o machismo dentro das torcidas. Vou a jogos e a galera toda me adora, e agora tenho a certeza de que o amor que tenho pelo Cruzeiro é maior do que qualquer barreira que me aparece. Hoje eu vivo de Cruzeiro, mais do que vivia antes. Meu amor por esse time é inexplicável e imensurável. Se não fosse o futebol eu não teria lutado por alguns pontos importantes.

Libertadores de 2018: hora de dar o troco?

A Libertadores de 2009 ainda dói no torcedor do Cruzeiro, que nunca vai esquecer o título perdido para o Estudiantes. No entanto, a "sina" de Lucas Costa Pereira, de 28 anos, começou dias antes com a derrota no clássico e nunca terminou, pelas memórias que coleciona. 

Parte 1: clássico

Sempre fui cruzeirense, mesmo morando em Brasília. Tinha visto o Cruzeiro jogar ao vivo somente quando o time vinha jogar em Brasília, o que era raro. Em 2009, o Cruzeiro atingiu a final da Copa Libertadores e eu senti que era a hora de ir assistir ao Cruzeiro no Mineirão. O jogo era quarta-feira, mas, como eu não era sócio, fui pra BH no domingo, já que as vendas iriam começar segunda-feira para o público. Neste domingo, haveria o clássico entre Cruzeiro e Galo, e decidi que ia aproveitar para ver este jogo também.

Foto: Arquivo pessoal

Cheguei em BH em cima da hora, com meu tio me buscando no aeroporto. Eu já estava devidamente trajado com a camisa do Cruzeiro, e fomos direto para o Mineirão, chegando lá mais ou menos aos 20min do primeiro tempo. Estacionamos em alguma rua próxima e fomos caminhando rumo ao Mineirão.

Chegando nas proximidades, eu percebi que só haviam atleticanos na rua. Como era de Brasília e era a minha primeira vez no Mineirão, achei que era normal as torcidas se encontrarem nos arredores do estádio, portanto continuei seguindo rumo ao estádio debaixo de alguns xingamentos. Chegando próximo aos portões, um grupo de policiais militares nos cercou e nos alertou que estávamos para entrar no portão da Galoucura e que as coisas poderiam ficar bem ruins.

Depois de uma bronca e depois que eu expliquei que era de fora e que era minha primeira vez no estádio, os policiais tiveram que nos escoltar ao outro lado do estádio, pois os atleticanos já estavam bastante agitados com nossa presença. Enfim, o Cruzeiro perdeu o jogo por 3 a 0, e eu e meu tio saímos direto do estádio para a Sede do Barro Preto para que acampássemos durante a noite para que conseguíssemos comprar os ingressos no dia seguinte.

Parte 2: compra de ingresso

Chegando lá, mesmo sendo aproximadamente 19h ainda do domingo, a fila já dava quase que uma volta inteira no quarteirão. Passamos uma noite de muito frio, sem dormir, e chegando o período da manhã a fila já dava quatro voltas no quarteirão e dobrava em um rua, de forma que eu nem conseguia mais ver seu final.

Por me encontrar ainda na primeira volta da fila no quarteirão, acreditava que não seria problema conseguir o ingresso. Porém, quando deu 8h da manhã e as vendas começaram, em meia hora avisaram que já haviam acabado os ingressos, apesar da fila ter andado somente uns 20 metros.

Resignado que não ia conseguir mais assistir a final, fui para a casa do meu tio em Caratinga-MG. Lá, meu tio pediu para que eu buscasse com qualquer conhecido de BH que quisesse vender ingressos, de forma que acabei conseguindo um ingresso para mim e meu tio para a Geral. O ingresso que nas bilheterias custava R$ 5,00 cada, saiu por R$ 100,00 cada.

Parte 3: o jogo (aquele jogo...)

No dia do jogo, meu tio me levou novamente a BH, onde assisti a aquele fatídico jogo, e não bastasse a tristeza pela derrota, quase fui preso ainda. Acontece que um grupo de três torcedores que estavam ao meu lado, fumando durante a partida, ao término da mesma colocou fogo em alguns estudos/balões e se retirou. Meu primo e eu, que nada tínhamos a ver com o fogo, continuamos sentados no mesmo local para que o estádio se esvaziasse.

De repente, um grupo de policiais compareceu ao local e nos acusou de ter iniciado o pequeno fogo, dizendo que ia nos prender. Após explicarmos o que havia acontecido e demonstrarmos que nem isqueiro nós tínhamos, fomos liberados.

"Pelo menos"

Enfim, depois de quase apanhar de atleticanos, gastar uma pequena fortuna na época para ver o jogo, ver o Cruzeiro perder dois jogos e quase ser preso ao final, pelo menos tudo rendeu uma boa história e memórias que nunca vou esquecer. Para terminar, depois desses jogos, continuei voltando a BH diversas vezes todos os anos para ver jogos e nunca mais vi o Cruzeiro perder ao vivo.

Só uma cirurgia, nada mais

Entre se recuperar de uma cirurgia e acompanhar o clássico que poderia garantir o Cruzeiro na Série A ao fim de 2011, Wisley Matos, de 27 anos, sequer pensou direito: ir até Sete Lagoas, saindo de Belo Horizonte, em 4 de dezembro. O torcedor da Raposa acabou acompanhando a goleada histórica por 6 a 1 para cima o rival, comemorou a permanência na elite... Mas e a cirurgia?

Apêndice, é um clássico!

Foto: Arquivo pessoal

Em 2011, um dia antes do meu aniversário, sofri uma crise de apêndice e demorei 11 horas pra ser operado, pois o apêndice saturou e vazou. Achava que o melhor presente aquele ano era não ser rebaixado. Tive alta e fui para casa. Uma semana depois, era o jogo Cruzeiro x Atlético-MG pela rodada final do Brasileirão.

Estava de repouso e não podia fazer esforço. Peguei um táxi na rodoviária sozinho, pois não conseguiria dirigir, e fui para Sete Lagoas. Chegando lá, só conseguia erguer os braços, não conseguia nem gritar por causa das dores ainda. Mas, no sexto gol, acabei me distraindo, subiu o bandeirão, bateu na minha testa eu caí na arquibancada. O pessoal me levantou, meu curativo soltou e tive que ir direto para o hospital refazer o curativo. Mas fiquei bem feliz, afinal, ganhamos.

Tetra x ano letivo

Assim como o ano escolar fica decisivo nos últimos meses, a temporada de um time também. Em 2014, por exemplo, o Cruzeiro foi tetracampeão brasileiro com uma vitória para cima do Goiás em novembro. Decisão nos campos para a Raposa, mas também para Larissa Rocha, hoje com 21 anos, nas arquibancadas do Mineirão. Ela colocou todo o seu ano letivo em risco para ver o tetra. E aí? 

Moro em Governador Valadares, a cerca de 6 horas de Belo Horizonte indo de ônibus. Até o ano de 2014, nunca tinha ido ao Mineirão. Então, um dia saí da minha cidade com a família para visitar uns parentes e combinamos de ir fazer aquele tour pelo Mineirão, já que, como eu estudava, nunca dava tempo.

Saí do bairro Goiânia umas 3 horas antes do horário e com um péssimo trânsito. Descemos no meio do nada e tive que pegar um táxi para chegar ao Mineirão. Chegamos dois minutos atrasados e fomos barrados de entrar. Implorei para o guarda, falei que era do interior e que a passagem era cara. Cheguei a chorar, mas mesmo assim o cara não aceitou. Depois disso, voltei arrasada e sem a menor possibilidade de ir em jogos além do horário, por dinheiro, pela passagem. 

O mundo dá voltas

Nesse tempo, o Cruzeiro estava bem e no momento do jogo do Goiás. Minha ex-namorada veio me presentear com o ingresso, mas eu teria que faltar de aula (provas finais), e na segunda após o jogo eu teria prova de dependência onde salvaria todo o meu ano letivo. Além disso, tinha que convencer meus pais a aceitarem toda essa história e a instituição de aceitar realizar a prova caso eu chegasse atrasada - só daria para estar em Governador Valadares depois das 14h. 

Depois de muitos pedidos, consegui ir no primeiro jogo da vida com 18 anos. Foi meu primeiro jogo do Cruzeiro em Belo Horizonte e primeira vez no Mineirão, justamente no dia em que fomos campeões [tetracampeonato brasileiro]. Saí do estádio umas 21h naquela chuva absurda para ir até um bairro distante. Voltei para asa de alma lavada por ter visto meu time.

Mas, e a prova?

Cheguei em cima da hora e liguei para a escola avisando que faria. Com sono e cansada, não passei. Mas, como era uma matéria e por alguns problemas por sorte, pude refazer depois de uns dias.

Uma cruzeirense em Sampa

O Cruzeiro venceu o São Paulo fora de casa no começo deste ano, pela partida de ida da quarta fase da Copa do Brasil. No Morumbi, Pamela Viana, de 24 anos, acompanhou o duelo na torcida tricolor, depois de quase ficar de fora do duelo.

Sou mineira de Nova Era e me mudei para Guarulhos há cerca de três anos. Sempre tive vontade de ir em um jogo do Cruzeiro aqui, mas não tive a oportunidade pois a maioria dos jogos eram em horários ruins. Surgiu, então, a oportunidade do jogo contra o São Paulo pela quarta fase da Copa do Brasil de 2017.

Foto: Arquivo pessoal

O ingresso estava em um preço acessível, e chamei meu marido (palmeirense) para ir comigo, só que aconteceu de ele sair do serviço tarde nesse dia. Meu desejo era muito grande de ir, então bateu a loucura, peguei ônibus, metrô e uber. Embora Guarulhos seja do lado de São Paulo, o Morumbi fica na zona sul, que é a que fica mais distante daqui. Mandei mensagem pro Paiblito [torcedor do Cruzeiro] e falei se podia ficar com a galera de Belo Horizonte. Ele falou que sim e que era pra eu avisar quando chegasse.

Chegando lá, por volta das 20h, não tinha mais ingressos - os ingressos para a torcida do Cruzeiro seriam liberados a partir das 19h30. Fiquei desesperada, tinha muita gente querendo ingresso, mas ninguém achava e tinha uns cambistas vendendo a preços altíssimos. Fiquei meia hora sentada pensando no que fazer. Como não queria perder viagem, fui e comprei na torcida do São Paulo mesmo, escolhi um lugar com menos fluxo de gente e assisti ao jogo.

Cruzeiro venceu por 2 a 0; e na hora dos gols?

Foto: Arquivo pessoal

Quando saiu o primeiro gol, não aguentei. Dei um pulo e gritei. Com isso, me dei conta e mudei de lado no setor. No outro gol consegui me conter mais e fiquei muito feliz com a vitória. Saí uns 5 minutos antes do jogo acabar, pois o último ônibus para Guarulhos seria às 23h35. Precisava pegar um uber até o ponto, mas não consegui pelo fluxo intenso de pessoas. Bateu o desespero mais uma vez, vi todo mundo indo embora e eu ficando. Já estava pensando em dormir lá, mas consegui pegar um táxi até minha casa.

O taxista foi camarada e fez um preço "bacana": 100 reais, mas o normal seria uns 200. Tanto o motorista do uber, como o do táxi me falaram que eu era louca de ir. Depois de tudo, realmente pensei na loucura: fui num lugar desconhecido, na torcida adversária, mas foi a melhor loucura da vida. Pelo Cruzeiro faria outras mais, sempre que precisar.

Fora de forma e da Libertadores

Muitos torcedores que frequentam o Mineirão fazem da Avenida Antônio Carlos sua principal via de acesso ao estádio. Foi assim com Paulo Roberto Dias Ribeiro, de 36 anos, que resolveu pegar uma carona para assistir ao jogo entre Cruzeiro e Boca Juniors pela Libertadores de 2008. Paulo saiu da região da Rodoviária da capital e aproveitou a carona por cerca de 10 minutos até chegar na Antônio Carlos. Mas a avenida estava lotada.... e a Libertadores?

Trabalhava ao lado da rodoviária e largava o serviço às 18h. O jogo contra o Boca Juniors pela Libertadores de 2008 era às 19h10. Marquei de encontrar com um amigo depois do serviço. Saindo de lá, um colega atleticano disse que passaria pela Antônio Carlos e peguei carona com esse amigo.

Quando entramos na Antônio Carlos, ela estava totalmente parada, e ficamos 10 minutos no carro. Olhamos um para o outro e falamos: "Vamos a pé?" Não deu outra, descemos do carro e resolvemos ir a pé até o Mineirão. Detalhe: estava fora de forma e tivemos que correr um bocado. Graças a Deus resolvemos ir à pé, pois estava tudo parado mesmo. Chegamos na hora certa do jogo. Foi o tempo de chegar, entrar e o juiz começar o jogo.

Perdemos a classificação, mas a festa e a garra dos jogadores em campo valeram cada suor deixado no caminho. Eu não sabia a distância exata que estava do Mineirão. Se eu soubesse, não teria ido. O problema é que o meu amigo, Daniel Peluso, sabia e estava em forma..

Vida após o episódio no Ernestão

Sob cerveja, aparelhos de rádio e pedras, Gregory Vilhena, atualmente com 33 anos, acompanhou o duelo do Cruzeiro contra o Joinville, em 2002. Ele é de Florianópolis a aproveitou para ir à cidade vizinha.

Em 2002, consegui convencer o meu avô a viajar comigo por 2 horas para assistirmos ao jogo entre Cruzeiro e Joinville, pela Copa Sul-Minas, no Estádio Ernestão. Moro em Florianópolis e tinha 15 anos na época. Chegando lá, o estádio era péssimo, horrível, com madeiras podres, tudo ruim. Choveu, e o Cruzeiro ainda venceu o jogo por 2 a 0, com gols de Vander e Sorín.

Para piorar, tinha meia dúzia de cruzeirenses e com isso muita ira da torcida do Joinville. Alguns subiram nas grades e queriam nos matar. Meu avô ainda respondia a algumas provocações, e tinha certeza que morreria. Acabou o jogo, choveu cerveja, rádio, pedra... Tivemos que ir até o carro escoltados pelo BOPE com escudos, etc.

Olha o furão aí!

Depois de ver um acordo sendo quebrado e não conseguir o ingresso do pai para a semifinal da Copa do Brasil de 2017, entre Cruzeiro e Grêmio, o torcedor celeste abriu mão da cerveja por um novo bilhete.

Três dias antes do jogo do Cruzeiro contra o Grêmio, estava marcando de comprar um ingresso na mão de um homem que participava de um grupo do Cruzeiro comigo. Então tinha acertado tudo, quanto ia pagar e o horário. Cheguei lá 2 horas antes e nada dele aparecer. Liguei várias vezes e ele dizia que estava chegando.

Foto: Arquivo pessoal

Faltando cinco minutos para começar a partida, liguei novamente, e ele já tinha entrado. Eu tinha meu ingresso, mas o ingresso do meu pai estava na mão desse homem que furou com a gente. Então, apareceu um rapaz e perguntou se eu queria comprar um que estava sobrando.

A gente só tinha 70 reais para o ingresso e em cima da hora era difícil achar nesse valor. Então ele fez por 80 reais, mas tínhamos só 70. Eis que lembrei do dinheiro da cerveja que eu iria comprar no intervalo. Vendo a situação do meu pai, dei os 10 reais junto. Acabou que gastei quase 200 reais só com ingresso, já que o que eu comprei pra mim custou 100.

Um cruzeirense e um colorado em Belém

José Dias Neto, de 30 anos, quase perdeu a semifinal da Copa do Brasil de 2017 entre Cruzeiro e Grêmio, não fosse o dono de um bar em Belém que contrariou a onda carioca na capital paraense. Ao lado do torcedor da Raposa, estava um colorado para se unir às forças celestes. Veja só! 

Trabalho viajando e sempre tenho que me desdobrar pra assistir aos jogos do Cruzeiro. Estava saindo de Macapá para Belo Horizonte e chegaria a tempo do jogo decisivo entre Cruzeiro e Grêmio, pela semifinal da Copa do Brasil de 2017. Mas o voo em Macapá deu um problema e acabei tendo que fazer uma escala em Belém. Eu esperaria até 2h da manhã para embarcar pra Belo Horizonte. Nisso, bateu o desespero porque perderia a semifinal da Copa do Brasil.

Foto: Arquivo pessoal

Estava com o diretor da minha empresa, ele é torcedor do Internacional, e isso foi determinante para que topasse fazer um tour por Belém de táxi para procurar um lugar pra ver o jogo. O Flamengo jogaria com o Botafogo no mesmo horário e todos os bares estavam com a programação do Flamengo.

Encontramos um bar que topou passar o jogo do Cruzeiro desde que consumíssemos no local. Topamos e estávamos comendo, bebendo e vendo o pré jogo quando torcedores do Flamengo começaram a chegar. O dono do bar manteve a palavra de deixar no jogo do Cruzeiro. Um torcedor do Flamengo mais exaltado chamou um garçom e pediu pra trocar o canal, e o garçom trocou.

O garçom ficou apertado pela situação e trocou. Meu diretor e eu chamamos o garçom e explicamos a situação. Ele pediu para a gente falar com o dono do bar, falamos e ele novamente colocou no jogo do Cruzeiro. O torcedor do Flamengo xingou tudo o que pôde, discutimos, tentamos explicar tudo, dizer que tinha outros lugares passando o jogo do Flamengo e aquele era o único que passaria o do Cruzeiro.

O homem ficou enlouquecido, xingou o dono do bar, pagou o refrigerante que tinha pedido e foi embora. O bar só funcionava até o final do primeiro tempo. Ficamos pedindo coisas até a conclusão dos pênaltis. O dono do bar fechou todas as portas e nós dois, loucos, ficamos lá dentro. Eu torcendo pelo Cruzeiro e meu diretor contra o Grêmio.

Um filho? Um animal de estimação? Não, um ingresso!

Um filho não estaria tão protegido nas mãos de um pai como o ingresso da final da Copa do Brasil, entre Cruzeiro e Flamengo, esteve nas mãos de João Pedro Souza, de 25 anos. Ao lado de um amigo, o torcedor da Raposa viajou para o Rio de Janeiro e protegeu seu bilhete tanto quanto Fábio o fez com a meta celeste ao defender o pênalti de Diego Ribas, uma semana depois, no Mineirão.

Foto: Arquivo pessoal

Meu amigo e eu fomos para o Rio de Janeiro para assistirmos ao primeiro jogo da final da Copa do Brasil, no Maracanã. Guardamos os ingressos muito bem guardados com medo de perdê-los. Lá ficamos num hotel econômico. Nosso plano era assim que chegar colocar os ingressos dentro do cofre do quarto. Para a nossa surpresa, o quarto do hotel não possuía cofre.

Ficamos com muito medo de perder os ingressos enquanto saíamos para conhecer o Rio de Janeiro. Escondemos os ingressos então dentro de um livro bem grosso e colocamos no fundo da mala. Como a expectativa era de Maracanã lotado, saímos do hotel 5 horas antes do jogo e com medo de perder os ingressos ou tê-los roubados no caminho. Havia também a preocupação de como ir para o estádio sem sermos identificados (apesar do clima pacífico, toda torcida tem algumas pessoas mais exaltadas).

Vesti uma camiseta branca e coloquei a camisa do Cruzeiro dentro de duas sacolas plásticas escuras, enrolei e coloquei debaixo do braço, de forma que ninguém visse. Fomos do hotel ao estádio com as mãos no bolso para ter a certeza que o ingresso ainda estava lá. Quando chegamos no metrô, todos os vagões estavam extremamente cheios. Conseguimos chegar ao Maracanã sem perder os ingressos e sem problemas mesmo num trem cheio de flamenguistas.