Abel agradece homenagem na Ilha do Retiro: "Não poderia imaginar todo esse apoio"

Treinador tricolor diz que apesar do empate, Flu teve as melhores chances na partida

Abel agradece homenagem na Ilha do Retiro: "Não poderia imaginar todo esse apoio"
Nitidamente emocionado, Abel bate no peito e agradece o carinho dos torcedores (Foto: Divulgação/Fluminense FC)

Pela primeira vez comandando a equipe após perder o filho João Pedro, de 19 anos, Abel Braga foi recebido de forma acolhedora com palmas, vindas de todos os cantos do estádio, onde torcedores, jogadores e comissões técnicas do Sport e Fluminense o homenagearam de pé.

Na ocasião, seu colega de trabalho, Vanderlei Luxemburgo, foi ao encontro do treinador e o chamou para se juntar aos jogadores e árbitros durante a execução do Hino Nacional. Emocionado, Abel Braga falou sobre o assunto.

"Vim tentar mostrar para as pessoas que não podemos perder para a vida. Temos que aproveitar. A gente cai muito e levanta muitas vezes. Essa homenagem, como tantas outras, tem me feito ter essa força que nem eu sei de onde tiro. É principalmente pela solidariedade. Essa é a palavra. Assim a gente vai. Não esperava isso, participar do hino ao lado de um colega de profissão e dos árbitros. A homenagem da torcida do Sport me marcou", disse.​

Uma atitude que mostrou a força do Abel Braga, foi se manter à frente do Fluminense e comandar a equipe mesmo com o ocorrido. Com apoio vindo de todos os Estados do Brasil, e até do exterior, o treinador comentou que recebeu mensagem do atual técnico do Manchester United (ING), José Mourinho, e afirmou que não poderia deixar se abater. 

"Precisava me levantar. Perdi para a morte, não vou perder para a vida. Não vou me enfiar em casa, não sou um perdedor. Não poderia imaginar todo esse carinho. Recebi uma mensagem fantástica do Mourinho. Chamo ele de José, trabalhei com seu pai", comentou. 

Apesar de sair na frente do placar, ficando com dois gols de vantagem, o Fluminense sofreu o empate e ainda viu seu volante, Orejuela, ser expulso durante a segunda etapa. Sobre ficar com um a menos em campo, Abel disse que parecia que João Pedro, seu filho, estava em campo, e que não parecia que o Flu estava em desvantagem numérica. 

Confira na íntegra:

Motivo da solidariedade:

"Eu me sinto feliz pois isso não é por gostar do Abel. É pelo caminho que tracei, pelo caminho que meus filhos traçaram, de caráter, de honestidade, de dignidade. E de amizade para com todos. Então, hoje é um dia que fica marcado"

O jogo

"Além disso, foi um grande jogo. Falei aos meus jogadores que, com 10, parece que jogamos melhor. Tivemos as melhores chances. As mais claras. Acho que o João Pedro entrou em campo pois não parecia que tinha um a menos. Então, é isso. Aqui é muito difícil, o Sport está muito bem treinado. É só ver como o Vanderlei pegou e onde está o Sport. Eles têm movimentação, a gente deu a posse de bola e marcamos. Tivemos as melhores chances"

O apoio recebido:

"Depois do ocorrido, é a primeira vez que falo com vocês (jornalistas). Quero dizer que tudo que aconteceu nesses três dias... essa solidariedade, esse carinho, respeito... me fizeram forte. Me fizeram crescer muito. Eu digo sempre aos meus jogadores. Hoje não pedi nada, não pedi vitória para o meu filho, vitória para mim. A estratégia foi a treinada, nós combinamos. O jogo foi fantástico. A solidariedade foi algo que transcendeu limites, sonhos. Já fui inimigo do Sport, pois trabalhei no Santa Cruz. Outra coisa que emocionou foi por ser o primeiro jogo. Quero agradecer a todos, no país inteiro. Não poderia imaginar nem em sonho esse carinho"

Velório:

"Isso tem a ver com a gratidão. O Tite chegou no velório e ficou até 5h. O Cuca saiu de carro de São Paulo. Ficaram até 3h30. O presidente Abad estava na minha casa. Conseguiu na CBF, com acordo com a Ponte Preta, cancelar uma rodada. Ele perguntou se queria velar o corpo no Fluminense. Falei que seria onde foi enterrado. Mas lá fecha às 18h por conta da violência. Então, aceitei. Tinha uma festa marcada no clube. Foi cancelada, até peço desculpas a essas pessoas. Presidente arrumou cadeiras, colocou colchonetes na sua sala para as pessoas dormirem. Meu filho Fábio dormiu. Serviu café. Depois, eu li que facções contrárias estiveram juntas. Estive com Sandrão, com Mário Bittencourt. Todo esse gesto de solidariedade. Não posso colocar a minha cara no chão. Tenho de levantar. Eu perdi para a morte, mas não vou perder para a vida. Minha mulher tem que levantar, meu filho está lá dando força a ela. Tenho 20 pessoas na minha casa todo o dia"

Futuro:

"Não sou perdedor. Tenho 24 títulos na minha carreira. Em 2004, fui vice da Copa do Brasil com o Flamengo. Em 2005, fui vice de novo com o Fluminense. Me chamavam de bi vice. Se ali eu me enterro, não seria campeão da Libertadores e do Mundial em 2006. No Fluminense, depois de oito anos, era reserva. Fui para o Vasco, Seleção, Copa, pré-olímpico, Botafogo Cruzeiro. Tudo foi muito sofrido, mas eu lutei muito. Agora, mais do que nunca, vou lutar pela minha família. Pelos meus amigos. E principalmente pela gente desse país que foi solidária. Agradeço aos clubes, PSG, Liverpool. Recebi uma mensagem, que adorei. Sou mais ou menos amigo dele. Trabalhei com o pai dele. Recebi uma mensagem fantástica do Mourinho. Todos meus amigos de Portugal, da França. Isso não tem preço. Agora, tem um motivo: sou uma pessoa correta. A minha família é correta. E tem uma coisa que é a mais importante, gratidão"