Dia da Consciência Negra: cinco atletas que marcaram história no Grêmio em diferentes épocas

Tricolor gaúcho teve jogadores negros cruciais em diferentes partes de sua história

Dia da Consciência Negra: cinco atletas que marcaram história no Grêmio em diferentes épocas
Imagem: Divulgação / Grêmio

Contra muitas observações equivocadas, o Grêmio Porto Alegrense teve atletas negros em diferentes constituições de sua história carregada de conquistas e de espaço para se tornar a maior torcida do Rio Grande do Sul e dentro de toda região Sul do Brasil. Ao contrário do que se pensa na lenda de que Tesourinha, no início da década de 1950, tenha sido o primeiro jogador negro a defender o clube, outros atletas já haviam marcado passagem com a camisa gremista e desde os primeiros tempos.

É importante catalogar que a Lei Áurea, para iniciar a libertação dos escravos, ocorreu somente em 13 de maio de 1888, sendo o Brasil um dos últimos lugares do mundo a tomar providências quanto a esta prática desumana. Apesar de libertados da condição de trabalho escravo, sem mais donos como antigamente, a realidade da população negra sempre foi marginalizada. Era difícil arranjar empregos ou fugir dos mais diversos preconceitos existentes na sociedade.

O futebol surge nos anos 1900 ainda muito fechado. Dos ingleses para regiões portuárias, como Montevidéu, no Uruguai e em algumas cidades do Rio Grande do Sul, estado de forte colonização alemã e italiana. O Grêmio Porto Alegrense surge em 1903, um clube fechado, a exemplo de outras agremiações surgidas no estado, como o anterior Rio Grande, o Esporte Clube Pelotas e os próprios primeiros adversários na capital gaúcha, o FussBall Porto Alegre e o Nacional.

Para o futebol e o esporte em geral se tornarem populares, ocorreu um longo processo. Vale destacar que as primeiras ligas que contaram com futebol para os negros eram disputadas à parte, sem a presença dos maiores clubes, como ocorreu na Liga dos Canelas Pretas, em Porto Alegre, e na Liga José do Patrocínio, em Pelotas.

Armando Luiz Antunes

Grêmio de 1915 com destaque a Antunes

O primeiro registro de um jogador afrodescendente a defender o Grêmio ocorreu a 19 de maio de 1912, antes do aniversário de nove anos do clube Porto Alegrense, poucos dias após os 24 anos da assinatura da Lei Áurea no país. O time gremista enfrentou o Nacional de Porto Alegre na ocasião e venceu as partidas do dia por 9 a 2 com o primeiros quadros e 8 a 0 com os segundos times. Muito mais importantes do que os registros de placares dos amistosos da época, ficou a presença do atleta Armando Luiz Antunes, conhecido por seu último sobrenome.

Antunes esteve em campo naquela partida disputada na Baixada e defendeu o Grêmio ainda nos anos seguintes de 1913 a 1915. Era um marco na história do clube e um desafio para aquela época. O esporte ainda era muito elitizado no país e ocorria, paralelamente, a disputa da Liga dos Canelas Pretas, na cidade de Porto Alegre.

Tesourinha

Divulgação / Blog do Kenny Braga

É verdade que a abertura do Grêmio não era das maiores, como ocorria em outros clubes do futebol brasileiro da época. Em registros do próprio Grêmio Porto Alegrense, através de seu site, de jornalistas e historiadores, o Tricolor contou com Adão (1926/35), Laxixa, Mário Carioca, Hélio, Prego e Hermes como alguns de seus atletas afrodescendentes nas décadas seguintes. Como visto, eles existiam, mas não eram muitos e isso refletia também em menor abertura e representatividade negra nas arquibancadas. Mas, sem dúvida alguma, um grande momento na história do Grêmio foi a contratação de Tesourinha.

Com maior abertura, principalmente nos anos 1940, o Internacional formava seu time apelidado de Rolo Compressor, dominando a década no futebol gaúcho e aplicando sucessivas vitórias sobre o Grêmio nos clássicos Gre-Nal. Se observarmos os números da rivalidade em jogos, a vantagem colorada é construída nessa década, com as demais apontando intenso equilíbrio entre os clubes. A sacada do Internacional em contar com mais jogadores de origens distintas o colocou em primeiro lugar no futebol gaúcho na ocasião. O Grêmio precisava reagir.

Tesourinha foi ídolo no "rolo compressor" do Inter, estava no futebol do Vasco da Gama e o Grêmio resolveu trazê-lo para sua remontada. Apesar de não ter se destacado com a camisa gremista tanto quanto no rival, Osmar Fortes Barcellos virou símbolo dessa mudança trazida no clube em sua vinda em 1952. Essa importante evolução na mentalidade dos gestores do Grêmio começou a dar resultados dentro e fora de campo. O resultado de tudo isso traz como benefícios, por exemplo, a construção do Olímpico, inaugurado em 1954 e a conquista de 12 estaduais em 13, já contando com sua nova casa. Era uma retomada para o caminho de conquistas contra o rival Inter.

Airton Pavilhão

Foto: Arquivo / Jornal Correio do Povo

Elogiado por outro negro, simplesmente Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, Airton Pavilhão foi, nas palavras deste Rei, "um dos maiores defensores que tive a felicidade de ver jogar e de jogar contra e a favor". Ele conquistou um total de 11 Campeonatos Gaúchos entre 1956  e 1967, escapando de suas faixas somente o campeonato de 1961. Como previsto no tópico destinado a Tesourinha, era a remontada gremista dando muito certo. A torcida gremista no Olímpico contava com Airton Ferreira da Silva, o Airton Pavilhão, um ícone na história do clube. Jogador de força e inteligência para levar vantagem sobre os ataques adversários.

Airton foi apelidado de Pavilhão por sua chegada ao Grêmio. O clube Força e Luz o vendeu pelo preço de 50 mil cruzeiros e mais um pavilhão de arquibancadas como exigência em 1954. Nascia o apelido e um dos maiores nomes da história gremista. Atuou ainda pelo Santos de Pelé, pelo Cruzeiro e em Cruz Alta.

Alcindo Bugre

Divulgação /
Grêmio FBPA

Alcindo Bugre foi simplesmente o maior artilheiro da história do Grêmio. Multicampeão nos anos 1960, Alcindo marcou um total de 264 gols e empilhou títulos de Campeonato Gaúcho. O Grêmio venceu os campeonatos de 1964 a 1968. Após uma nova maré de domínio vermelho, com a inauguração do estádio Beira-Rio, o atacante retornou ao time em passagem mais discreta, mas no marcante ano de 1977, temporada de título estadual, retomada da confiança do time e dos torcedores. Entre eles, na arquibancada, a presença da Coligay, movimento que perdurou entre 77 e 83, em grande exemplo de combate ao preconceito. Importante lembrança em uma data que serve para combater as discriminações.

Everaldo - a estrela tricolor

A história da estrela dourada na bandeira do Grêmio

Tarciso Flecha Negra

Tarciso é um dos grandes nomes da história gremista. Recebeu o apelido por sua tamanha velocidade e desenvoltura nas corridas que traçava pelas pontas do campo. Ele é o atleta que mais vezes vestiu a camisa do Grêmio: 721 jogos. Atrás somente de Alcindo Bugre, Tarciso é o segundo maior artilheiro da história do clube: 222 gols. Campeão estadual, campeão brasileiro em 1981, campeão da Libertadores e do Mundial em 1983. Predestinado a colher vitórias pelo Tricolor, Tarciso nasceu exatamente no dia 15 de setembro, data de fundação do Porto Alegrense. Uma história muito rica em dedicação, esforços e conquistas pelo seu clube do coração.

Em sua página em rede social, sua foto de capa traz a seguinte frase: "Valeu a pena toda a disciplina, ter lutado e chorado pelo Grêmio".

Além dos atletas citados, muitos outros vestiaram o manto do Grêmio e honraram suas cores. Honraram literalmente as cores do Grêmio que, desde seus primórdios, estapam o azul, o preto e o branco.