SANTA CRUZ 104 ANOS: "É sangue, vida, delírio, raça e amor"

O Time do Povo vivenciou bons e difíceis momentos nestes 104 anos de existência

SANTA CRUZ 104 ANOS: "É sangue, vida, delírio, raça e amor"
Foto: Júnior Ribeiro / Editoria de Arte VAVEL Brasil

“Em 3 de fevereiro de 14, o céu do Recife se enfeitou. Uma nova estrela brilhou naquele dia, nascia o meu tricolor”. A canção do compositor recifense Walmir Chagas é uma homenagem à fundação de um dos maiores e populares times do Brasil, o Santa Cruz Futebol Clube. Naquele dia, um grupo de jovens amigos – entre 14 e 16 anos –  que costumavam jogar bola próximo à Igreja de Santa Cruz, localizada no bairro da Boa Vista, área Central do Recife, decidiram fundar uma equipe profissional de futebol.

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Referindo-se, inicialmente, ao esporte como “foot-ball”, pois a cidade estava tomando feições mais europeias e com nomes estrangeiros, o primeiro presidente do Santa Cruz foi o Srº Miqueias Barros e as cores adotadas foram o branco e o preto, tornando assim um clube alvinegro. No ano posterior, o vermelho foi incorporado e o clube passou a ser tricolor. A adoção pela cor vermelha deu-se porque o Flamengo-PE era alvinegro e um dos critérios da federação é que os afiliados não poderiam vestir as mesmas cores, sendo assim, foi feito um sorteio e o Santa Cruz perdeu, tornando-o preto, branco e vermelho.

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Nesse mesmo ano, a Liga Sportiva Pernambucana (LSP), o que hoje é a Federação Pernambucana de Futebol (FPF), criou o campeonato entre os clubes do Estado de Pernambuco. Entretanto, o Tricolor só começou a participar em 1917. Contudo, foi no torneio de 1931 que o Santa Cruz conseguiu conquistar o seu primeiro título com a vitória por 2 a 0 contra o Torre.  A equipe daquele ano era composta por Dada, Sherlock e Fernando; Doía, Julinho e Zezé; Walfrido, Aluízio, Neves, Tará, Lauro e Estevão, João Martins e Popó. Dentre os maiores goleadores Coral, Tará é o primeiro com 207 gols marcados defendendo o Santa.

Entre idas e vindas dentro de Pernambuco, os administradores corais viram a necessidade de ter uma residência fixa para o clube. Em 1943, o dirigente Aristófanes de Andrade alugou um espaço na Zona Norte do Recife. Posteriormente, o terreno foi colocado à venda e comprado pela equipe. Quando em 1965 o clube consegue arrecadar dinheiro com vendas de cadeiras cativas, a construção é iniciada. A grande inauguração ocorreu em 1972, o jogo contra o Flamengo do Rio de Janeiro teve um público pagante de 47.688 e uma renda de 193.844,00 cruzeiros. Cercado por uma comunidade humilde e um canal, o Estádio José do Rêgo Maciel, assim chamado em homenagem ao Prefeito do Recife da época e localizado no bairro do Arruda, passou a ser a, oficialmente, casa do Time do Povo.

"Sempre vou te amar, nunca vou te abandonar"

O Santa Cruz passou por momentos marcantes durante os 104 anos de existência. O único clube do Estado a participar de todas as edições do Campeonato Pernambucano, dentro dos 29 títulos conquistados, até hoje, estão o primeiro tricampeonato (1931, 1932 e 1933); a maior goleada do Clássico das Multidões em 1934 contra o rival Sport Club do Recife quando ganhou por 7 a 0; um supercampeonato em 1957; um pentacampeonato (1969, 1970, 1971, 1972, 1973) e um tricampeonato (2011, 2012, 2013).

Outro momento histórico do Tricolor do Arruda foi em 1943 quando realizou a Excursão da Morte, via navio, rumo à Região Norte do Brasil, para disputar um torneio. Na ocasião, a Cobra Coral conquistou alguns troféus, mas a viagem, em plena 2ª Guerra Mundial, foi marcada pela superação e mortes de atletas que contraíram a febre tifoide. O clube viajante também ganhou o título de Fita Azul concedido pela Confederação Brasileira de Futebol (CFB). Em 1980, na viagem internacional para Europa e Ásia, o Santinha passou 12 jogos invictos e voltou para o Brasil com uma experiência inesquecível.

No âmbito nacional, em 1967 o Santa Cruz conquistou o Torneio Hexagonal Norte-Nordeste que contou com a participação de times do Pará e Ceará. Recentemente, em 2016, a torcida Tricolor viu o time, liderado por Grafite, ser campeão da Copa do Nordeste em uma final emocionante contra o Campinense-PB, concretizando mais um título importante na história do clube Pernambucano.

Mas nem só de conquistas a Torcida Mais Apaixonada do Brasil conviveu nesses mais de 100 anos do clube, a má fase do Santa Cruz pôde ser vivenciada no início do século XXI. Após conquistar o acesso para a Série A do Campeonato Brasileiro em 2005, no ano seguinte, perdeu o Pernambucano para o Sport e fez uma péssima campanha no Brasileirão. A derrocada do Coral se intensificou em 2007, quando terminou em 6º lugar no Estadual e foi rebaixado da Série B para a Série C. Em 2008, a equipe não conseguiu o suficiente para disputar a Terceirona e por um acordo com entidades, o clube presidido por Fernando Bezerra Coelho conseguiu disputar a recém-criada Série D em 2009 e 2010. Dessa forma, o Santinha jogou nas quatro divisões brasileiras.

Após anos de sofrimento, em 2011, com 54.798 pagantes no Mundão do Arruda, o time do até então técnico Zé Teodoro consagra-se campeão do Pernambucano em cima do Sport. Nesse mesmo ano, depois de amargar cinco anos de decadência, o Tricolor conquistou o acesso à Série C contra o Tupi-MG. Em 2012 o acesso tão esperado para Segundona não aconteceu, porém, no ano seguinte o Santa Cruz conquistou o seu primeiro título nacional contra Sampaio Corrêa e tornou o mais novo Campeão Brasileiro da Série C

Durante os anos de crise, o clube conseguiu reerguer-se graças à torcida. O título de Torcida Mais Apaixonada do Brasil não foi à toa quando o Santa lotou o seu Estádio e viu os apaixonados se deslocarem para outros cantos do Brasil para ver o time jogar. A parte do refrão que toma o título deste tópico “Nunca negarei que sou Tricolor, sempre vou te amar, nunca vou te abandonar” define o amor intenso que os milhares de Tricolores sentem pelo clube do Arruda. 

"Da Música à Literatura: Sou Santa Cruz, sou Tricolor de Coração"

Falando em torcida, grandes personagens do Estado expõem seu amor pelo clube. Reza a lenda que Capiba, um dos maiores compositores de Frevo de todos os tempos, não conseguiu escrever o hino oficial do seu clube de coração devido o forte laço de amor que sentia pelo time. Então, a tarefa de escrever uma canção oficial para o Santa Cruz ficou sob a responsabilidade dos Irmãos Valença João Vitor e Raul, que também torciam para a equipe Tricolor.

“Nos cascalhos e na lama 
Esse ouro é sangue, é vida 
É delírio, raça, e amor...”

 (Trecho do hino oficial do Santa Cruz escrito pelos Irmãos Valença)

Um clube que nasceu no mês do Carnaval também é contemplado por um grupo seleto de artistas como Nélson Ferreira; Getúlio Cavalcanti; Walmir Chagas; Jackson do Pandeiro; André Rio; os Maestros Forró e Spok; o forrozeiro Maciel Melo e o inesquecível Chico Science, além do sempre presente nas arquibancadas Cannibal. Um dos maiores escritores brasileiros, Gilvan Lemos, e um dos mais conhecidos cineastas, Cláudio Assis, são exemplos de tricolores.

Dentro das quatro linhas, os ídolos Ramon; Ricardo Rocha; Givanildo Oliveira; Rivaldo; Carlinhos Bala e Grafite deram alegria para a torcida defendendo o time das Três Cores.  Do povão, é impossível deixar de ressaltar os torcedores símbolos como Bacalhau – que representa o clube da cabeça aos pés; o Super Santa; Mazinho da Buzina; Chico da Cobra; Elvis Tricolor, em alusão ao cantor Elvis Presley; o massagista Catatau e, claro, todos os milhares de torcedores espalhados pelo Brasil e no mundo. 

"Tu és a minha vida, a minha história e o meu primeiro amigo"

Fazer a pergunta: O que o Santa Cruz representa para a sua vida? pode ser difícil para os apaixonados pelo Tricolor do Arruda. Alguns  torcedores foram questionados e expressaram a importância do clube em poucas palavras.

"Santa Cruz pra mim representou, desde cedo, oportunidades. Chance de aprender a gostar sobre futebol, me sentir estimulado a ir ao estádio, querer conhecer mais sobre esta linda instituição e acima de tudo, confraternizar com familiares e amigos. Fiz amigos, cresci compartilhando tal sentimento. Hoje tenho a oportunidade de ter o Santa Cruz como frente de trabalho e me sinto lisonjeado em ser repórter de um site que faz parte desta história." (Alexandre Ricardo)

"Sobre o Santa Cruz: Jurei amar eternamente, mas como não sou eterna, jurei amar até o último dia da minha vida." (Layres Leonor)

"Gigante desde o princípio. Primeiro clube a aceitar negros. O clube que representou nas cores o negro, branco e índio. O clube onde a torcida ajudou a construir o estádio... O que isso representa pra mim? falta em palavras mas escorre nos olhos." (Denis Alisson)

"O Santa Cruz é um fascínio estranho, é o clube que eu escolhi para amar, e essa foi a escolha mais certa que já fiz na vida. Como já diz em um hino do santa: O santa é minha vida, minha história e meu amor." (Mariana Gomes)

"O Santa Cruz representa a união das raças, a união do povo, dos cidadãos comuns, da massa desprestigiada socialmente. Representa resistência e força." (Gabriel Santana)

"Santa Cruz é tipo um vício, um chiclete. Cola em você e não solta mais. Só quem torce pelo Santinha sabe o que é amar um clube que é mais que um clube." (Suzane Beltrão)

"O Santa Cruz é delírio, raça e amor." (Marllon Arruda)