Adenor na cova dos leões

Missão de Tite no comando da Seleção Brasileira vai muito além dos resultados dentro de campo

Adenor na cova dos leões
Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Não foi coincidência que a primeira pergunta respondida oficialmente respondida por Tite como novo técnico da Seleção Brasileira tenha sido sobre ser agora subordinado de Marco Polo Del Nero, homem que teve sua renúncia da Confederação Brasileira de Futebol exigida por um documento do movimento Bom Senso seis meses atrás, endossado pelo treinador. Não foi também que a terceira pergunta tenha sido sobre o mesmo tema. E depois mais uma. E outra. Do total, quatro questionamentos de jornalistas durante a apresentação do nome mais unânime para comandar o Brasil não tiveram a ver com tática, técnica ou desempenho das quatro linhas. Não foi coincidência.

Adenor Leonardo Bacchi é, possivelmente, a única escolha acertada que a CBF tomou nos últimos bons anos. Melhor treinador do Brasil há cinco anos, mas, acima disso, um homem íntegro e transparente. Por isso, ao primeiro momento fica até duro de aceitar que Tite compactue com os nomes que, meses atrás, fez coro para tirar do poder. Claro que o sonho de treinar a Seleção e chegar ao auge de sua carreira não pode ser deixado de lado, mas é no mínimo curioso -- vale lembrar que, em abril deste ano, a CBF ouviu 'não' de Tite quando cogitou demitir Dunga antes da Copa América Centenário. O que mudou?

Muito bem preparado e pronto para responder qualquer pergunta, como já virou costume em suas entrevistas coletivas (que muitas vezes mais parecem aulas de futebol), Tite não engasgou, mas não disse com todas as letras o que o fez aceitar o convite desta vez. Disse, agora, que não vai misturar campo com administração, e que seu trabalho dentro das quatro linhas é a contribuição que pode dar para ajudar a melhorar o futebol brasileiro. Transparência e democratização foram algumas das palavras-chave destacadas pelo treinador, que disse que não vai julgar áreas políticas ou sociais. Em todas as suas respostas, Tite não fez duras críticas à entidade, mas, ao contrário do que nos acostumamos com Dunga, Felipão e Parreira, foi totalmente solícito com os repórteres e disse entender quem o critique por aceitar o convite da CBF agora. Pois bem.

É claro que não esperaríamos que chegasse em sua primeira entrevista criticando Del Nero e outros cartolas corruptos. Trabalha para eles agora. Mas há, sim, um pequeno tom de desapontamento em muitos de seus fãs após o abraço no presidente da CBF, registrado por jornalistas do mundo todo, que se seguiu após o mandatário entregar ao treinador uma camisa da Seleção com o nome de sua mãe, o grande norte de Tite. Esperado e até compreensível, mas que não deixa de ser desapontante. Esperamos que seu caráter seja o ponto de mudança que o futebol brasileiro precisa -- com anos de atraso, diga-se de passagem. Até porque, ninguém pode condená-lo. Todo brasileiro apaixonado pelo esporte já treinou a Seleção em sua imaginação. Já convocou 23, já escalou seus 11, já jogou como Brasil. O ego não pode ser julgado.

Vale lembrar que, além de excelente técnico, com Tite a CBF ganha uma perfeita cortina de fumaça. Vitórias que podem (e acredito que devam) vir tentarão ajudar a resgatar o esporte, tão em baixa pelos 7 a 1, por eliminações vexatórias em torneios continentais e pelas prisões dos cartolas, e aí enfim tirando o foco de tantos problemas que assombram a entidade. Mas não se enganem: os principais problemas estarão longe de serem resolvidos. Mesmo com goleadas em campo, é utópico pensar que tenhamos melhorias em um calendário esdrúxulo, nas sucateadas categorias de base e na falta de estrutura e apoio para 99% dos times do país. 

Se tem alguém que pode ser um dos motivos que faça o brasileiro ao menos tentar voltar a torcer como antes, esse é o unânime Tite. Nos resta imaginar que, a partir daí, surjam mudanças também na área administrativa da CBF. O torcedor-comum fica feliz com a conquista de uma nova Copa do Mundo, mas o apaixonado por futebol sabe que uma limpa na sujeira da entidade será a maior vitória de um país pentacampeão mundial. Mesmo que o motivo seja nobre, Adenor está na cova dos leões -- e por livre e espontânea vontade. Cabe a nós torcer para que seus valores sejam respeitados e ele não só não seja devorado como também nos ajude a arrumar a casa. Dentro de campo, sabemos que o que Tite menos precisa é do acaso: tem competência o suficiente fazer dar certo. Fora dele, talvez toda sorte do mundo seja pouco. Torcemos por você, Adenor. 

Bem-vindo, Tite. Por favor, repare na bagunça e nos ajude a arrumá-la (Foto: Rafael Ribeiro / CBF)
Bem-vindo, Tite. Por favor, repare na bagunça e nos ajude a arrumá-la (Foto: Rafael Ribeiro / CBF)