Especialistas apontam: não basta só talento, é preciso entender o futebol

Com a evolução do jogo, apenas a qualidade técnica natural da rua, praia ou várzea não é mais suficiente para formar grandes jogadores

Especialistas apontam: não basta só talento, é preciso entender o futebol
Se quiserem fazer sucesso no futebol como seus ídolos, estas crianças precisarão desenvolver capacidades cognitivas (Foto: Lynne Cammeron/Getty Images)

Havia na Zona Leste de Belo Horizonte um garoto bom de bola cujo pseudônimo era Juan Baptista. Canhoto com muita habilidade, sempre recebia a primeira chamada nas peladas de rua. Quando pegava a redonda, partia para cima dos adversários e era capaz de driblar o time inteiro. Aos 13 anos, JB passou em uma peneirada promovida pelo Atlético-MG. Ficou nas categorias de base do Galo por seis anos, até que desistiu do sonho, em 2017. O principal motivo, ele alega, foi a dificuldade de executar em campo o que os treinadores solicitavam.

O caso acima é fictício, mas retrata a história de muitos meninos que abriram mão do futebol, ainda nas divisões de base, porque sofreram com os novos termos exigidos no cenário atual. Afinal, como todas as coisas no mundo, o esporte mais popular do planeta evoluiu e gerou modificações – mais complexas – no jogo.

Pensando nisso, a VAVEL Brasil conversou com profissionais dos dois lados da história para buscar entender como as mudanças afetam o desempenho dos atletas. Diogo Giacomini, ex-coordenador metodológico das categorias de base do Atlético-MG, já trabalhou com jogadores de muita qualidade técnica e motora, mas com dificuldades cognitivas.

"Isso acontece devido ao fato de a maioria dos jogadores no Brasil virem da escola da rua, da escola da praia, onde ganha-se muito repertório motor, técnico, de controle da bola; mas jogando no instinto", analisou Giacomini, que deixou a função de auxiliar técnico do time profissional do Galo em setembro, após a queda de Rogério Micale – segundo dos três treinadores que passaram pelo clube em 2017 –, para voltar a trabalhar na base.

Durante sua passagem pelo Atlético, Giacomini assumiu a equipe profissional oito vezes (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)
Como auxiliar técnico, Giacomini assumiu a equipe profissional do Galo oito vezes (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)

Para ele, é tarefa dos clubes lapidar os atletas com esse perfil. "Cabe aos clubes, quando consegue captar esse jogador, ensiná-lo a entender o jogo. Esse é o nosso papel como formador: achar esse talento, que tem esse grande repertório que vem da rua, da praia, do futebol de várzea, e ensiná-lo a entender o jogo coletivo, que é muito diferente do que ele joga na rua", dissertou.

Se o time profissional do Atlético-MG deixou a desejar neste ano, o contrário aconteceu nas divisões de base. O Galo terminou como campeão de todas as categorias do Campeonato Mineiro: sub-14, sub-15, sub-17 e sub-20. Os títulos do Terborg, tradicional torneio internacional disputado na Holanda, e da Copa do Brasil Sub-20 também foram para a Cidade do Galo. A categoria sub-20, inclusive, poderia ter levado mais uma taça na temporada, mas perdeu a Supercopa do Brasil, nos pênaltis, para o rival Cruzeiro.

Sucesso da base, tecnologia e auxílio do treinador

O atacante Capixaba, de 20 anos, é cria das divisões juvenis do Atlético-MG. O atleta, que disputará a próxima temporada emprestado ao América-MG, reconhece o grande trabalho realizado nas categorias de base alvinegra.

Embora esteja no grupo profissional do Galo, Capixaba disputou a final da Supercopa do Brasil pela equipe sub-20 (Foto: Pedro Souza/Atlético-MG)
Capixaba jogará a próxima temporada pelo América-MG (Foto: Pedro Souza/Atlético-MG)

"O processo da base foi muito importante. A gente vai evoluindo, adquirindo mais conhecimento e ritmo de jogo a cada categoria. O futebol é assim: quanto mais se joga, mais você vai ficando maduro para novos desafios. O Atlético tem uma grande base, sempre está disputando grandes competições, com grandes equipes. Então, foi essencial para o meu crescimento, para o meu entendimento de futebol", frisou.

Pouco aproveitado no elenco principal do Atlético em 2017, Capixaba está ciente de que, para ter sucesso no futebol atual, é necessário estudar e corrigir os erros. Por isso, o jovem revê seus jogos a fim de avaliar o que pode ser melhorado em seu desempenho. Ele também usufrui de recursos tecnológicos para "levar vantagem" sobre o adversário dentro de campo.

"A tecnologia chegou ao futebol e nos ajuda muito. Às vezes, o treinador, mesmo na preleção, nos passa os detalhes do adversário e tudo mais. São ferramentas que chegaram e têm tudo para ajudar bastante dentro do futebol", salientou.

Matheusinho é fruto das divisões de base alviverde (Foto: Mourão Panda/América-MG)
Matheusinho é fruto das divisões de base alviverde (Foto: Mourão Panda/América-MG)

Principal promessa do América-MG, o meia-atacante Matheusinho, de 19 anos, também tem noção da importância dos conceitos modernos do futebol. Segundo ele, as instruções do técnico do Coelho, Enderson Moreira – o mais longevo das duas primeiras divisões do futebol brasileiro –, é fundamental para a absorção das ideias.

"O treinador ajuda a gente entender nos treinamentos e depois dentro de campo, com as orientações: quando é para marcar mais em cima, voltar para marcar... Os outros jogadores também falam durante os jogos", afirmou o jovem, que passará suas férias realizando sessões de fisioterapia em função de uma cirurgia no ligamento cruzado anterior do joelho direito.

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Recentemente, a revista FourFourTwo elegeu os jovens mais promissores do futebol mundial, e, na 14ª colocação, Matheusinho foi o brasileiro com a melhor posição do ranking.

Facilidade para jogar com os pés

Dos grandes times de Belo Horizonte, o Atlético não foi o único a comemorar títulos das equipes de base. A "Raposinha" sub-20 levou duas taças na temporada 2017: Campeonato Brasileiro e Supercopa do Brasil. Ainda que o goleiro Vitor Eudes tenha brilhado nas duas decisões – nas disputas de pênalti, pegou cinco cobranças (três do Coxa e duas do Galo) –, o surpreendente destaque ficou por conta de Gabriel Brazão.

Brazão sofreu apenas cinco gols em sete jogos no Mundial Sub-17. Ele realizou 29 defesas e teve um aproveitamento de 85,3% no torneio

Com apenas 17 anos, o prodígio era o titular do time sub-20, mas perdeu a reta final do Brasileiro e da Supercopa do Brasil – ficou no banco na grande finalíssima –, uma vez que estava a serviço da Seleção Brasileira Sub-20 no Mundial da categoria, disputado na Índia. Do outro lado do mundo, ele teve grande atuação com a camisa amarelinha e foi eleito o melhor goleiro do torneio.

Embora seja bem jovem, Brazão fala como "gente grande". Para ele, seu alto rendimento está atrelado ao processo mental de percepção, memória, juízo e raciocínio. "Desde que cheguei ao clube, sempre evoluí muito. Eu tenho uma parte do meu cognitivo que me faz aprender rápido as coisas. Isso me ajuda muito. Peguei bem tudo que me passaram e pude evoluir bastante", explicou.

Gabriel Brazão exibe medalha da conquista da Supercopa do Brasil Sub-20 (Foto: Divulgação/Assessoria P2)
Gabriel Brazão exibe medalha da conquista da Supercopa do Brasil Sub-20 (Foto: Divulgação/Assessoria P2)

Com a evolução do futebol, o goleiro passou a ser mais acionado durante as partidas para auxiliar a construção do jogo. O brasileiro Ederson, por exemplo, chegou a distribuir mais passes que os meias Christian Eriksen e Dele Alli na vitória do Manchester City sobre o Tottenham, no último sábado (16), em jogo da Premier League. Brazão compreende a necessidade do recurso.

"Primeiramente, o goleiro tem que defender, mas o jogo com o pés é muito importante, ainda mais nas partidas de hoje. A construção [do jogo] começa pelos goleiros. A cada dia mais temos que aprimorar essa parte. Posso dizer que sou um goleiro que tem facilidade e joga bem com os pés, mas a gente sempre tem que evoluir mais", pontuou.

Análise de desempenho

João (à esq.) mostra vídeo aos jovens da base (Foto: Acervo Pessoal)
João Felipe (à esq.) mostra vídeo aos jovens da base do Cruzeiro (Foto: Acervo Pessoal)

Dos três principais times de Minas Gerais, América, Atlético e Cruzeiro, apenas o clube alvinegro não dispõe de um departamento de análise de desempenho. No Coelho e na Raposa, os profissionais trabalham duro para dissecar e melhorar a performance dos jogadores profissionais. E na base não é diferente.

Juan Gomes e João Felipe trabalham como analistas de desempenho no América e no Cruzeiro, respectivamente. A tarefa de ambos, que têm olhos voltados aos atletas de base, é a mesma: lapidar o jogador e potencializá-lo a compreender o jogo de forma eficaz.

"Temos um protocolo no América que se chama ID. Separamos os lances individuais dos atletas: números de passes errados, passes qualificados, assistências e o vídeo daquele lance" - Juan Gomes

"Há dois ou três anos, [a análise de desempenho] era algo quase que inexistente na base. Às vezes acontecia na filmagem de jogo, mas uma participação mesmo não tinha. Hoje, nós filmamos os jogos, fazemos um material de vídeo com análise de jogo, semelhante ao que é feito no profissional; a gente consegue separar lances individuais e ter uma base de dados enorme, com lances individuais de cada atleta da base, desde o sub-15 ao sub-20", esclareceu Juan.

O profissional do América defende a ideia que seria impossível ajudar um atleta a atingir certos níveis de rendimento sem o suporte da análise de desempenho. "É claro que o fator principal é o treinamento, a qualidade das pessoas que estão envolvidas nesse meio, porém, quando se trata de alto rendimento, nós precisamos estar sempre melhorando 1%, 2%, 0,5%, e eu acho que sem a análise de desempenho nós não conseguiríamos ter essa melhora", opinou.

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João, por sua vez, implanta no Cruzeiro uma metodologia peculiar para auxiliar os atletas a corrigirem os erros. O jogador assiste a dois vídeos: um de sua atuação na partida anterior e outro do desempenho de um atleta de nível mundial. A partir daí, o jovem percebe o que poderia ter feito de diferente no último jogo tomando como base o comportamento do jogador europeu.

"O departamento de análise consegue, através de números e processos visuais, fornecer um feedback ao jogador quanto a sua atuação, mostrando a ele quais ações executou com qualidade ou que poderia ter executado melhor. Com esse processo, o jogador vai se aprimorando junto com os treinamentos e outros departamentos, evoluindo constantemente", salientou.

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Juan e João também concordam com uma coisa: a troca frequente de treinadores no futebol brasileiro prejudica os jovens atletas: "O jogador perde seu modelo norteador de jogo, tendo que se adaptar a outra filosofia, estilos diferentes de treinos. E para uma adaptação total levaria um tempo para acontecer, perdendo a qualidade e a sequência que o jogador vinha tendo com determinada filosofia de jogo", destacou o analista do Cruzeiro.

"O atleta está num trajeto de entendimento de jogo, entender qual é a proposta do time, entender o que o treinador quer. Muitas vezes esse entendimento não está em paralelo com os resultados de jogo. Às vezes, o jogador está começando a entender o jogo, jogar bem, ganhando corpo, porém os resultados estão ruins, e se tem uma ruptura ali. Naquele entendimento, todo o trabalho pode ir por água abaixo", observou o profissional do América.