Resenha, O Vilarejo de Raphael Montes

Quais são os nossos pecados? Raphel Montes, relata os sete pecados capitais de uma forma assustadora

Resenha, O Vilarejo de Raphael Montes
(Foto: Fernando Rhenius)

O ditado popular diz, “dê poder ao homem e verás quem ele é”. Em momentos de extrema necessidade, ou lutando pela sobrevivência, o ser humano revela sua verdadeira face. É isso que vamos encontrar em O Vilarejo, livro de contos escrito por Raphael Montes, e publicado pela Suma de Letras.

Em 96 páginas, Montes comprova que em condições adversas, a personalidade das pessoas pode ser muito mais sombria do que suas ações em dias normais. A concepção do livro é curiosa. Montes adquire cadernos antigos de um sebo no Rio de Janeiro. Escritos em Cimério, a língua de um povo que viveu ao norte do Cáucaso e do mar de Azov, por volta de 1300 a.C. Segundo alguns pesquisadores, os cimérios deram origem aos povos germânicos.

Entre vários livros adquiridos de Elfrida Pimminstoffer, senhora centenária que morrera meses antes, estavam três cadernos escritos em letra cursiva. O tipo da caligrafia, que ganhava força com o passar das linhas, chamou a atenção do autor. Existem poucas pessoas habilitadas e com conhecimento necessário para traduzir os textos. A língua ciméria estavas extinta muito tempo.

Dentro de um dos cadernos o nome Peter Binsfeld, chamou a atenção. Binsfeld, foi demonologista, teólogo e padre. Viveu em Trier na Alemanha, tendo morrido em 1598. Seu trabalho mais importante foi “A confissão de Warlocks e bruxas.” Na obra, Binfeld relacionou cada um dos sete pecados capitais a um demônio. Os cadernos de Elfrida, continham sete pequenas histórias. Os sete pecados.

A partir dali um extenso trabalho de tradução foi iniciado. Com os progressos, Montes se deparou com relatos tristes, de um povo que sofreu, morreu e matou. São histórias que mexem com o leitor, causam repulsa, e botam a fé no próximo em xeque. A Vila, pode ser comparada com a série Black Mirror, que retrata o comportamento humano nos dias atuais.

Todas as histórias se passam em um pequeno povoado, uma vila que sofre por conta de um tórrido inverno e a guerra. A falta de comida, e esperança, fazem pouco a pouco os moradores morrerem de fome, doença ou simplesmente abandonam suas casas em busca de melhores condições de vida na capital. Nos escritos de Elfrida, não existe uma localização precisa do lugar. Se ele realmente existiu, toda sua história, e qualquer objeto ou vestígio, estão enterrados em algum lugar e retratados nos três cadernos. Isso torna a ambientação de todos os contos muito mais empolgantes e interessantes.

Sendo um livro pequeno, a leitura pode ser feita em um dia. Todas as histórias têm finais surpreendentes, e revoltantes. Não precisam ser lidas na sequencia disposta no livro. Mesmo tendo conexões entre si. Ler em qualquer ordem, não será um problema. O ódio retratado, não é muito diferente do que encontramos diariamente no comportamento das pessoas em diversas redes sociais, onde a opinião de muitos revela sua ignorância e falta de compaixão com o próximo.

Algumas das histórias lembram muito os contos de Stephen King, que estão presentes no livro Sombras da Noite, considerado por muitos escritores, um dos melhores livros do autor, por conta dos finais surpreendentes e do medo em cada linha.

Livro é rico em ilustrações. (Foto: Fernando Rhenius)
Livro é rico em ilustrações. (Foto: Fernando Rhenius)

Um dos pontos mais intrigantes do livro é a possível participação da Elfrida Pimminstoffer, em uma das histórias. O leitor vai precisar se ligar nas entrelinhas para descobrir. A edição, é um caso à parte. Repleta de ilustrações, encontradas junto com os antigos cadernos, dão uma “cara” há todas as histórias. As páginas feitas em papel de gramatura mais grossa, dão a impressão que estamos segurando um dos cadernos centenários.

A escrita flui de uma forma rápida. Sem partes truncadas. Um texto leve com um teor pesado. Quem gosta de finais inesperados e reviravoltas, O Vilarejo é uma ótima indicação.

Belzebu – Banquete para Anatole (Gula)

Felika, esposa de Anatole e mãe de três filhos, tenta a todo custo por comida na mesa. Seu marido saiu a muito tempo em busca de alguma caça, deixando para trás uma vila que se esvai pouco a pouco. Sem muitas opções para dar de comer aos filhos, Felika se tranca em casa, se isola, tem medo. Como vai se virar até seu marido voltar?

Leviathan – As irmãs Vália, Velma e Vonda (Inveja)

Se os vizinhos estão passando fome, na casa das gêmeas Vonda e Velma, existe uma certa fartura. As pequenas não precisam se preocupar com as dificuldades alheias. Os dias se resumem a brincadeiras com a amiga Jekaterina.

Para supervisionar as gêmeas, a irmã mais velha, Vália as acompanha com o namorado Krieger. Mesmo pequena, Vonda tem uma paixão secreta pelo namorado da irmã. Acaba criando histórias enaltecendo o jovem Krieger. Acha injusto a irmã ter o homem mais bonito do vilarejo. Ao mesmo tempo entra em um conflito. Não gosta de desejar o homem que ama sua irmã.

Como Vonda vai conseguir segurar seu desejo, e ao mesmo tempo respeitar a irmã mais velha?

Lúcifer – O negro caolho (Orgulho)

Sem dúvida, o conto mais forte dos sete. O preconceito velado em todos nós, é magnificamente retratado, quando um negro, aparece na vila. Ele é grande, não fala direito e tem apenas um olho. Isso foi o suficiente para que todos, antes enclausurados em casa, se unissem para dar fim ao mal, que acreditavam ter acabado de entrar na localidade.

O destino do negro era a decapitação. Todos os preparativos estavam indo a contento, até que a Sra. Helga, interveio e com uma compaixão ímpar, salvou o negro, que depois descobriu que se chamar Mobuto.

Mobuto, só queria encontrar as duas filhas raptadas, acreditava que estavam presas na vila. Helga, lhe dá comida, proteção e um fio de esperança. Mal sabia ele que isso tudo mudaria sem muitas explicações. Helga sempre foi a boa samaritana da vila, seu comportamento causou estranheza, principalmente pelo filho pequeno que tinha. Mobuto seria um risco para o pequeno? Ou Helga seria um risco para Mobuto?

(Foto: Fernando Rhenius)
(Foto: Fernando Rhenius)

Asmodeus – A doce Jekaterina (Luxúria)

Mikhail, um exímio carpinteiro, fora para a capital em busca de melhores condições de vida. A vila não supria suas necessidades, tanto financeira quanto sexuais. Em um dos bordéis que frequentava, encontrou um velho com uma adolescente no colo.

Estranhou a jovem mulher, quase uma criança em um ambiente como aquele. Mesmo assim, aquela imagem mexeu com seus desejos. Despertou uma necessidade de possuir uma menina. Seus pensamentos logo se voltaram para Jekaterina, sua vizinha na vila.

Começou a traçar um plano para ter aquela menina. Seguia seus passos, virou uma sombra. Ele finalmente consegue. Qual os desdobramentos disso? Jekaterina, iria se submeter aos seus desejos? Seu pai deixaria que o mal se apoderasse de sua filha?

Belphegor – A verdadeira história de Ivan, o Ferreiro (Preguiça)

Ivan tinha uma vida boa. Herdou do pai o ofício de ferreiro. Tinha apenas um defeito, era acomodado demais. Com a crise que se instaurou na vila, as mortes, a fome, Ivan passava o dia deitado na cama.

Era um homem forte, poderia trabalhar. Ivan tem um segredo, toda sua fama de ferreiro, não foi necessariamente conquistada por suas mãos.

Elfrida Pimminstoffer. Ela possui um segredo. (Foto: Fernando Rhenius)
Elfrida Pimminstoffer. Ela possui um segredo. (Foto: Fernando Rhenius)

Mammon – O Porquinho de porcelana da Sra. Branka (Ganância)

Latasha vem ao mundo de uma forma triste. Durante seu parto, sua mãe morre. A pequena, fica aos cuidados da avó Branka. Tudo ia bem enquanto existia dinheiro. Roupas boas, comida farta e estudos.

O contador da Sra. Branka vinha alertando que mais cedo ou mais tarde, suas economias iriam minar. O grande motivo da sangria, era a vida que Latasha tinha. Com medo de perder tudo, a avó, antes carinhosa, se transforma em um monstro privando a neta até das refeições básicas. Com a mudança subitaa de comportamento, Latasha se sente acuada, e começa a nutrir um ódio pela avó.

Satan – Um homem de muitos nomes (Ira)

Anatole ainda busca comida na floresta. Pensa em sua mulher, Felika e nos três filhos. Reunindo forças de onde não existirem mais, está nas últimas. O camponês, cruza com um homem. Um senhor corcunda, que lhe dá comida e uma bolsa repleta de animais mortos que irão saciar toda a sua família.

Quando volta para casa, reencontra a mulher, que estranhamente está bonita. Ela teria conseguido comida por seus meios? Anatole iria descobrir da pior forma possível.

Ficha técnica

Raphael Montes

Ficção

ISBN: 9788581053042

96 páginas

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