Robson Conceição: das decepções em Pequim e Londres ao ouro dentro de casa na Rio 2016

Baiano conquistou o primeiro ouro da história do boxe brasileiro em Olimpíadas

Robson Conceição: das decepções em Pequim e Londres ao ouro dentro de casa na Rio 2016
Robson Conceição com sua medalha de ouro no peito. Rio 16 marcou a consagração do boxeador (Foto: Yuri Cortez/AFP/Getty Images)

A história do boxeador Robson Donato Conceição acaba se confundindo com a de inúmeros atletas brasileiros, principalmente quando olhamos para as dificuldades que o lutador de 27 anos enfrentou em toda sua vida, especialmente na infância e adolescência. Nascido e criado em Salvador, na Bahia, Robson vem de origem humilde e encontrou o esporte quase por acidente, sem ter a mínima noção do que ele poderia lhe proporcionar mais adiante. Com 13 anos, começou a praticar o esporte e, 14 anos depois, disputou sua terceira edição de Jogos Olímpicos.

A medalha de ouro foi simplesmente uma coroação para a carreira de um boxeador que já vinha se mostrando merecedor da mesma nos últimos anos. Depois de ser eliminado ainda na primeira fase em Pequim 2008 e Londres 2012, a volta por cima ocorreu da melhor maneira possível, quase como num roteiro de filme. Robson não só venceu em casa, como também deixou para traz um algoz que não lhe havia permitido ser campeão do mundo três anos antes, no Mundial de Boxe realizado em Almaty, no Cazaquistão.

Eliminações em Jogos Olímpicos, medalha em Pan-Americano e trave no Mundial: a carreira pré-Rio 16

Robson Conceição tem uma coleção de medalhas em seu currículo, a começar pelo ouro conquistado no torneio pré-olímpico da Guatemala, em 2008, quando se condicionou a disputar os Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Com apenas 19 anos, chegava à China com a expectativa de fazer uma boa competição, mas o sonho durou pouco: o brasileiro foi eliminado por Yang Li, que lutava em casa, logo na primeira rodada. À época, o boxeador ainda lutava na categoria peso pena (57kg).

Iniciando um novo ciclo olímpico, visando a Olimpíada de Londres 2012, Robson já havia mudado de categoria, passando a lutar na categoria peso leve, também conhecida como peso ligeiro (60kg). A história foi extremamente parecida. Um ano antes, o boxeador havia conseguido a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. O destino reservou um lutador da casa como adversário do brasileiro pela segunda vez consecutiva. A eliminação também veio logo na primeira fase, ao ser derrotado pelo britânico Josh Taylor.

Com a bandeira nacional, Robson comemora a prata nos Jogos Pan-Americanos de 2011, no México (Foto: Francisco Estrada/LatinContent/Getty Images)
Com a bandeira nacional, Robson comemora a prata nos Jogos Pan-Americanos de 2011, no México (Foto: Francisco Estrada/LatinContent/Getty Images)

Mas a determinação de Robson o levou ao seu terceiro ciclo olímpico e não seria um erro afirmar que esse último foi, de longe, o mais bem-sucedido. Entre 2013 e os Jogos Olímpicos Rio 2016, Robson conseguiu sagrar-se campeão sul-americano de boxe e acumulou duas medalhas em Mundiais. Em 2013, o brasileiro chegou muito próximo do tão sonhado título mundial, perdendo na final para o cubano Lazaro Jorge Álvarez. Em 2015, mais um excelente resultado: o bronze no Mundial de Doha, no Catar.

Campanha na Rio 16 incluiu vitória sobre tricampeão mundial

Já aos 27 anos, com muita experiência nas costas, Robson Conceição chegou ao Rio buscando uma medalha de ouro no que seria sua última participação numa Olimpíada, pois o próprio chegou a afirmar que, após a competição, buscaria seguir carreira no boxe profissional. E o desfecho de sua carreira não poderia vir de maneira mais espetacular. Iniciando a competição com o peso do favoritismo e da esperança de trazer uma medalha para o Brasil, o brasileiro estreou já nas oitavas de final da competição, contra Anvar Yunusov, do Tadjiquistão.

Demonstrando não sentir o peso da responsbilidade de lutar em casa, o brasileiro recebeu todo o apoio da torcida e conquistou sua primeira vitória com certa facilidade, vencendo por nocaute técnico no início do segundo assalto. Após a luta, foi revelado que seu adversário desistiu por conta de uma lesão numa das mãos. Avançando para as quartas de final, Robson ficava a uma vitória de garantir ao menos a medalha de bronze. Seu adversário seria Hurshid Tojibaev, do Uzbequistão, outro lutador com experiência olímpica, já tendo participado em Pequim 2008.

A história de Robson já havia ganhado seu maior capítulo quando os juízes anunciaram a sua vitória de maneira unânime sobre o uzbeque. A medalha de bronze estava garantida, mas Robson queria mais e deixou isso bem claro em entrevistas após a luta, declarando que iria em busca do ouro. Sua tarefa não era fácil. Para conseguir o título olímpico, teria que bater seu algoz no Mundial de 2013, o cubano Lazaro Jorge Álvarez, tricampeão mundial de boxe. A revanche estava programada para o dia 14, um domingo.

Com presença massiva da torcida brasileira, Robson não se intimidou com o retrospecto do lutador de Cuba e partiu para cima, garantindo a vitória que lhe deu a chance de disputar o título, também por decisão unânime. Seu adversário seria o francês Sofiane Oumiha, vice-campeão europeu da categoria. Com toda a confiança e apoio, parecia impossível parar o brasileiro, que fez sua melhor luta na competição, abusando da esquiva e usando toda a técnica para vencer, mais uma vez por decisão unânime e se tornar o novo campeão olímpico dos leves, marcando seu nome na história como o primeiro boxeador a conquistar um ouro para o Brasil em Jogos Olímpicos.

Robson Conceição comemora sua vitória sobre o tricampeão mundial Lazaro Álvarez, pelas semifinais da Rio 2016 (Foto: Yuri Cortez/AFP/Getty Images)
Robson Conceição comemora sua vitória sobre o tricampeão mundial Lazaro Álvarez, pelas semifinais da Rio 2016 (Foto: Yuri Cortez/AFP/Getty Images)

Volta a Salvador fica marcada por recepção nos braços da torcida e mensagem importante

A rotina um tanto quanto fechada do boxeador foi recompensada. Robson revelou que mal saía de seu quarto na Vila Olímpica, tendo pouco contato até mesmo com sua mulher, a ex-boxeadora Érika Mattos, que também disputou a Olimpíada de Londres 2012, e a filha Sophia, de apenas 2 anos. A volta para casa, no entanto, teve todo o calor e muito mais companhias do que o lutador poderia imaginar. A festa começou já no aeroporto, de onde o baiano saiu em carro de bombeiros até Boa Vista de São Caetano, bairro onde cresceu.

Recebido e saudado por centenas de pessoas trazendo a inédita medalha de ouro no peito, Robson fez questão de falar sobre a importância do esporte na sua vida: "Se não fosse o boxe, talvez eu não estivesse vivo, porque existe muita violência. São muitas mortes em Salvador e eu brigava muito na rua. Se não fosse pelo boxe, talvez tivesse sido uma história diferente", afirmou o pugilista, que deu seus primeiros passos no boxe tentando aprimorar suas habilidades para lutar nas ruas da capital baiana, inspirado por um tio que era conhecido justamente por brigar.

Oriundo de um projeto social, o campeão olímpico tenta retribuir e fazer o mesmo por outras crianças, dando aulas de boxe na comunidade onde cresceu, por um projeto intitulado "Luta Campeã", que também envolve acompanhamento escolar de todos que estejam envolvidos no mesmo. Conhecedor das dificuldades encontradas por jovens oriundos de classes mais baixas, Robson também deu declarações sobre um assunto muito discutido no Brasil recentemente: "Eu e Rafaela [Silva, ouro no judô] viemos de comunidades humildes e de projetos sociais. Não acho justo punir crianças. Isso seria totalmente diferente, mas deveríamos investir mais em projetos sociais e fazer crianças e adolescentes praticarem esportes", declarou, em crítica aos clamores pela redução da maioridade penal.

Robson Conceição pode ter deixado uma lição para boa parcela da sociedade brasileira, tanto pelas suas palavras, quanto pelas suas ações e conquistas. Assim como Rafaela Silva, o boxeador é uma prova de que o esporte salva vidas e pode fazer total diferença na vida e na história de jovens e crianças que têm poucas oportunidades, sendo seduzidos a caminhos tortuosos que, por muitas vezes, acabam encerrando vidas de forma precoce, como poderia ter acontecido com o próprio Robson. Teríamos não só uma vida perdida, mas um grande atleta e referência também. Cabe a reflexão.