Ouro Olímpico: relembre a conquista inédita do atirador Guilherme Paraense

Viagem complicada e longa, roubo de munição, auxilio dos americanos e o primeiro ouro do Brasil em Olimpíadas, relembre a trajetória de Guilherme Paraense

Ouro Olímpico: relembre a conquista inédita do atirador Guilherme Paraense
Foto: Divulgação/Ministério do Esporte

Ser o primeiro a realizar alguma façanha muito importante representando seu país é algo que marca o nome dessa pessoa para sempre. Na história das Olimpíadas, o Brasil conquistou apenas 23 medalhas de ouro. A primeira veio em 1920. O pioneiro foi Guilherme Paraense, militar natural de Belém e atleta do Fluminense.

Guilherme Paraense foi medalha de ouro no tiro rápido de 30 metros, atualmente a distância é de 25 metros. Competiram com ele cinco norte-americanos e um suíço. Nesta olimpíada, os atiradores brasileiros usaram revólveres Smith & Wesson com miras ajustáveis. Os estadunidenses usaram Colt Army Special e a Smith & Wesson militar com mira fixa.

O atirando brasileiro terminou sua participação cedo, ou seja, toda equipe americana sabia da pontuação de Guilherme, que acertou o alvo no tiro derradeiro. Raymond Bracken teve a chance de derrota-lo, mas seu primeiro tiro na última rodada acertou a marca seis, tirando a possibilidade de vitória. A diferença de pontos foi muito pequena: 274 a 272. Fritz Zulauf, da Suíça, ficou com o bronze.

A primeira medalha de ouro conquistada por um brasileiro aconteceu no dia 3 de agosto de 1920, no Camp de Beverloo, em uma instalação miliar situada em Leopoldsburg, a 45 quilômetros de Antuérpia, sede dos jogos. O local ficava muito próximo a Waterloo, onde Napoleão foi derrotado.

Medalhas de ouro e bronze conquistadas por Guilherme em 1920

O tiro esportivo é disputado nos Jogos Olímpicos desde a primeira edição da era moderna, que aconteceu em Atenas em 1896. Entre o fim do século XIX até os jogos de Paris em 1924, não existiam muitos critérios. O esporte ficou de fora do evento em Amsterdã em 1928, retornando apenas quatro anos mais tarde em Los Angeles, com duas modalidades. Com o passar dos anos, outras categorias foram incluídas. Em Londres tivemos 15. O tiro feminino foi colocado nas Olímpiadas também em LA, mas na edição de 1986.

Guilherme também conquistou outra medalha naquela edição. Ao lado de Dr. Afrânio da Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade e Sebastião Wolf, o paraense ficou com o bronze na pistola militar de 50 metros por equipe.

Paraense e mais sete companheiros viajaram para a Bélgica em um navio chamado Curvello. Sob condições precárias, chagaram em Lisboa e seguiram de trem até o destino final. O trecho por terra durou 27 dias e ele ainda teve sua munição roubada. Com isso, os brasileiros contaram com o apoio dos americanos, que emprestaram alguns equipamentos. Eles cederam equipamentos aperfeiçoados para um adversário.

O chefe da equipe de tiro, Dr. Afrânio Antônio Costa, relatou toda a situação em seu relatório:

"Na véspera, ao partirmos de Bruxelas, fôramos roubados em alvos e quase toda a munição .38, de forma que eu e o Paraense ficamos reduzidos a 100 balas cada um, para treinar uma semana e atirar nas provas oficiais 75 tiros!... Foi neste estado de corpo e de espírito que nossos atiradores, sem dormir e mal alimentados, mais debilitados ainda pelo frio, chegaram a Beverloo, a 26 de julho, ao meio dia... À noite, procurei aproximar-me dos americanos, cujo conforto era notável e não necessitavam esmolas do seu governo para o seu sustento. Era o único recurso para remediar os desfalques que houvéramos sofridos em alvos e munições. Lane e Bracken, dois famosos campeões, jogavam uma partida de xadrez; fui 'peruar' o jogo e as folhas tantas arrisquei uma opinião na partida... acharam boa; daí por diante entraram em franca camaradagem. Ao final da noite já me haviam dado 1.000 cartuchos .38, 1.000 cartuchos .22 e 50 alvos, fabricados especialmente para o concurso..."

O primeiro brasileiro a conseguir o ouro olímpico faleceu em 18 de abril de 1968, no Rio de Janeiro. Mas como mencionado anteriormente neste texto, o nome de quem conseguiu tal feito está marcado para sempre na história do esporte nacional. Guilherme Paraense permaneceu como o único campeão olímpico do país durante 32 anos.

Dica: veja o documentário “Ouro, Prata, Bronze... e Chumbo!”, de José Roberto Torero.