Legado Olímpico: como a União Soviética impôs seu destaque internacional em Moscou 1980

Moscou mostrou ao mundo sua habilidade para enfrentar diversas adversidades, como um boicote de vários países, e fazer, mesmo assim, uma bela competição. Seria um exemplo pro Rio de Janeiro?

Legado Olímpico: como a União Soviética impôs seu destaque internacional em Moscou 1980
A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Moscou, realizada no imponente Estádio Lujniki (Foto: Arquivo/ RIA Nóvosti)

Os Jogos Olímpicos de Moscou, no ano de 1980, foram um dos mais “políticamente afetados” em toda a história. Em plena Guerra Fria, com a União Soviética rivalizando internacionalmente com os Estados Unidos, o enorme país precisava demonstrar ao mundo não só sua potência, como também a habilidade em ser hospitaleiro.

Em 1979, a União Soviética decidiu invadir o Afeganistão, medida essa que gerou um boicote dos Estados Unidos, e também de seus aliados, aos Jogos Olímpicos de Moscou. Assim, o número de atletas que foram à União Soviética para a competição foi muito menor, o que também gerou uma desconfiança internacional quanto ao sucesso dos Jogos.

Desta forma, os jogos acabaram se tornando uma verdadeira “propaganda” da União Soviética, que precisava mostrar seu destaque frente os países do Ocidente, e também que não se abalaria quanto a decisão desses em boicotar as Olímpiadas.

O LEGADO DE MOSCOU

Moscou foi escolhida como sede apenas no ano de 1974, ou seja, a União Soviética teria cerca de 5 anos para se preparar para os jogos. E podemos dizer que teve sucesso nesse quesito. Os gastos foram de cerca de 9 bilhões de dólares, um valor menor ao que vem sendo gasto nos Jogos Olímpicos de 2016, mas muito alto para a época. Os recursos foram recolhidos numa espécie de loteria esportiva. Dessa forma, milhares de pessoas ajudaram a “construir” os Jogos de Moscou.

Mesmo assim, o legado pode ser considerado um sucesso. Nos 5 anos em que teve para se preparar, a União Soviética construiu cerca de 90 instalações, como o Centro Hoteleiro de Izmailovo, o maior da Europa, um grande centro de imprensa olímpico, que atualmente dá lugar à agência de notícias RIA Nóvosti, a vila olímpica, o canal de remo, a pista de ciclismo de Krilátskoe, o terminal Sheremetyevo-2, o maior do Aeroporto Internacional de Sheremetyevo, que até hoje permanece como o mais movimentado e ocupado de toda a Rússia.

Entretanto, a maior obra, sem dúvidas, foi a reforma do Estádio Lujniki. As instalações do Lujniki foram construídas no ano de 1956, com capacidade de cerca de 85 mil espectadores. Entretanto, as reformas para os Jogos Olímpicos de 1980 levaram o estádio a comportar até 103 mil pessoas, uma grandiosidade até mesmo para os padrões da época.

O estádio permanece até hoje como o principal do país, e casa de duas das principais equipes da cidade, o Spartak Moscou e o Torpedo Moscou. Em 1999, recebeu a final da Copa da UEFA, que foi vencida pelo Parma em cima do Olympique de Marseille. Já em 2008, o estádio foi novamente palco da decisão de uma grande competição europeia, mas dessa vez da final da Liga dos Campeões, disputada entre Chelsea e Manchester United, e vencida pelos “Red Devils”. E, no ano de 2013, recebeu o Mundial de Atletismo. Atualmente, encontra-se fechado em reformas para a Copa do Mundo de 2018, quando receberá 7 jogos, dentre eles a partida de abertura e a final.

Voltando ao legado de Moscou após os Jogos Olímpicos de 1980, podemos dizer também que a cidade ficou mais “democratizada”. O metrô sofreu transformações, como o anúncio das estações em inglês, e a venda de bilhetes que continham inscrições em inglês, francês e alemão, facilitando a locomoção dos estrangeiros que se deslocaram até Moscou.

As indústrias da União Soviética também foram fortemente alteradas pelos Jogos. Com a decisão de diversos países em boicotar os Jogos, a URSS precisou desenvolver sua indústria interna para a construção de suas instalações, já que não poderia importar muitos dos matérias necessários de outros países. Consequentemente, o número de empregos também aumentou, movimentando a economia soviética.

Também podemos destacar o aumento do interesse pelos habitantes de Moscou nos esportes. As instalações esportivas incentivaram muitos moscovitas a praticarem esportes, o que, consequentemente, melhorou ainda mais o desempenho da União Soviética, e posteriormente da Rússia, nos Jogos Olímpicos dos anos seguintes.

O sucesso das instalações também melhorou a imagem da União Soviética internacionalmente. Mesmo com o boicote feito pela grande maioria dos países ocidentais, a URSS mostrou ao mundo que o país estava pronto para receber grandes eventos. Inclusive, em outubro do mesmo ano, o recém-eleito Presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, declarou que os Jogos eram, a partir dali, um exemplo para os que seriam disputados posteriormente.