Entrevista. Judoca paralímpico Wilians Araújo à VAVEL: "Tenho condição de conquistar medalha"

Em entrevista exclusiva à VAVEL Brasil, judoca paralímpico número 1 do ranking mundial contou sua história, o que enfrenta sendo paratleta e quais as expectativas para os jogos da Rio 2016

Entrevista. Judoca paralímpico Wilians Araújo à VAVEL: "Tenho condição de conquistar medalha"
Foto: Editoria de arte/VAVEL Brasil

Wilians Silva de Araújo. Paraibano de 24 anos. Judoca paralímpico e número 1 no ranking mundial. Campeão Mundial de Jovens e vice-campeão Parapan-Americano em 2011, quinto colocado nas Paralimpíadas de Londres 2012, vice-campeão Pan-Americano de judô em 2013, além de inúmeras conquistas regionais, nacionais e internacionais. Por trás de todos os números e conquistas, existe uma história de superação, de alguém que enfrentou gigantes, venceu a si próprio e a deficiência visual para chegar onde chegou.

Ele é uma das promessas do Brasil para os Jogos Paralímpicos Rio 2016 e sua história de vida é um exemplo de superação desde o início. Wilians perdeu a visão aos dez anos de idade, em sua terra natal, enquanto brincava com uma arma utilizada para matar passarinhos. Antes de se envolver com o esporte, a maior dificuldade do judoca foi a situação difícil que enfrentou quando se mudou para o Rio de Janeiro.

"A maior dificuldade que eu enfrentei é que eu morava numa área de risco. Eu morava no complexo do Alemão, em uma casa que toda vez que chovia era um transtorno para mim e minha família. Uma casa super pequena, com quarto, sala, cozinha e banheiro onde moravam quatro filhos, no caso eu e meus três irmãos, e meu pai e minha mãe. Então era muito difícil. Toda vez que chovia era muito transtorno, era uma coisa que marcou muito a minha adolescência".

Porém, o encontro com a professora Terezinha, do Instituto Beijamin Constant, em um ponto de ônibus, foi o passo inicial para sua vida mudar. Wilians contou que já não tem mais contato com a professora, mas afirma que ela foi uma das peças essenciais de sua vida pois aprendeu muitas coisas graças a ela.

"Eu não tenho mais contato com ela. Há muito tempo que eu não a vejo, mas ela foi, digamos, realmente a responsável por tudo isso que aconteceu na minha vida. Ela quem me mostrou o caminho e me apresentou o Instituto Beijamin Constant, o qual eu tenho total gratidão por tudo o que fez por mim e continua fazendo. Hoje eu continuo sendo atleta do Benjamin Constant e o represento. Então esse encontro com a professora Terezinha foi o início de tudo. Não só no esporte, mas na minha carreira acadêmica. Através dela me formei, concluí meu ensino médio no Colégio Pedro II em São Cristóvão. Ela me mostrou um caminho de sucesso e vitórias. Me ensinou a ler e escrever em braile, me ensinou muitas coisas para eu estar onde estou hoje".

Sua primeira convocação para representar o Brasil como lutador profissional de judô aconteceu em 2011, ano em que participou dos Jogos Mundiais (2011), Mundial de Jovens (2011) e do Parapan-Americano de Guadalajara (2011). Em seu primeiro embate internacional, Wilians sofreu com o nervosismo e a pressão, mas aos poucos conseguiu se reestabelecer.

Era tudo muito novo para mim, meu primeiro campeonato foi nos Jogos Mundiais, na Turquia e sinceramente, eu não consegui lutar. Minha primeira luta eu fiz com um russo, que em 2014 eu tive a oportunidade de lutar com ele e ganhar. Eu não consegui lutar. Estava em um corredor esperando para entrar e entrei chorando. Na época eu tinha 18, 19 anos. Eu pensava: ‘Caraca, todo mundo aqui gritando meu nome, todo mundo chamando por mim’. E eu fui lá e realmente perdi na primeira luta que foi a pontuação mínima que foi o Yuko, e eu fiquei em último lugar nesse campeonato. Depois fui campeão mundial de jovens, que foi um campeonato por faixa etária”.

(Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB)
(Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB)

Para ele, participar dos Jogos Paralímpicos era um sonho, e em Londres isso virou realidade. Porém, não foi um caminho fácil. Ele precisava ser campeão em Guadalajara 2011 ou vice, desde que Cuba fosse o primeiro colocado. Foi difícil, mas o judoca brasileiro conseguiu garantir a vaga que seria a realização do sonho.

Eu me deparei com uma situação. Para eu classificar minha vaga pra Londres, tinha que ser campeão Pan-Americano em Guadalajara, ou ser vice desde que Cuba ficasse em primeiro. E foi isso que aconteceu, fui vice-campeão, Cuba ficou em primeiro e classifiquei minha vaga para os jogos. Então foi um momento muito diferente, um momento único. Eu tinha o sonho de participar dos Jogos Paralímpicos. Cheguei à semifinal e perdi. Disputei o bronze e perdi para um cara que ganhei dele em 2014. O sonho de participar dos jogos paraolímpicos eu já realizei, agora meu sonho é conquistar a medalha aqui no Rio e eu sei que tenho total condição de conquistar essa medalha. Foi um momento único na minha carreira, eu tinha esse sonho de participar dos jogos paralímpicos e ele se realizou, estive bem próximo da medalha. De lá para cá evoluí muito física e psicologicamente, então aquele Wilians que entrou chorando na primeira luta internacional foi se modificando”.

(Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB)
(Foto: Divulgação)

Apesar da realização do sonho, Wilians teve um desfecho frustrante na Paralimpíada de Londres 2012. Mesmo tendo chegado até a semifinal, não conseguiu vencer e nem levou a melhor na disputa do bronze. Foi algo difícil para o judoca, que retornou ao Brasil com uma lesão. Porém, o apoio de alguém especial foi essencial para que não deixasse de acreditar em si mesmo.

Foi frustrante sim, mas eu tive que passar por isso para hoje estar onde estou. Voltei de Londres machucado, me machuquei na primeira luta, tinha rompido a clavícula. Em uma das conversas com meu irmão lá em 2012 ele me abraçou e falou: ‘Po Wilians, você é meu herói. Cara, você é meu ídolo. Você estava representando 200 milhões de habitantes do Brasil. Quantas pessoas não queriam estar lá com você? E você que estava lá nos representando. Você é meu herói, você é meu ídolo. Se Deus quiser vai dar tudo certo e em 2016 você vai conseguir essa medalha’. Até hoje eu me emociono ao falar disso. Não sabem disso, acho que a gente não falou muito sobre isso, mas ele quem deu aquele empurrãozinho quando eu estava desanimado, chateado”.

Em relação aos Jogos Paralímpicos Rio 2016, Wilians se mostrou confiante desde o início, mas não garantiu favoritismo ao Brasil. Para ele, todos os atletas carregam uma boa expectativa, bem como chances de conquistar uma medalha na competição. Porém, o judoca brasileiro aposta muito em si e em seus companheiros de equipe no judô.

Os 12 atletas têm condições de conseguir conquistar medalha. Temos que continuar com os pés no chão e a cabeça tranquila. Favoritismo não existe, a gente pôde ver nos jogos olímpicos que se encerraram. Eu acompanhei bastante, vi atletas experientes perdendo para atletas desconhecidos. Essas competições são diferentes, onde não existe favoritismo. Todos os atletas possuem chances reais de medalhas, além do mais, todos os atletas aqui da seleção, Abner, Tenório, Arthur, Halyson, Harlley, Rayfran, Alana, Deanne, Karla, Lúcia, Michele, todos nós temos condições de trazer medalha para o Brasil”.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Quando questionado sobre a influência dos Jogos Paralímpicos no Rio em relação ao aumento de incentivo às pessoas com deficiência no Brasil, Wilians foi bem claro: é necessário, mas não somente no esporte, mas também na sociedade. É preciso investir no portador de deficiência, seja ela de qualquer tipo, para que tenham mais oportunidades.

Espero que esse seja o grande legado dos Jogos Paralímpicos. Que aumente o incentivo não somente para ser atleta, mas aumente o incentivo para o deficiente estudar, para que possamos conseguir nosso espaço na sociedade, que aumente mais os empregos. Talvez possamos mudar a cabeça de alguns empresários, de muitas pessoas. Eu sei que tem pessoas que não acreditam, que tem uma certa barreira. Que esses empresários oportunizem a pessoa com deficiência. Esse será o grande legado, será algo muito bacana”.

Foto: Guto Marcondes//MPIX/CPB)
Foto: Guto Marcondes//MPIX/CPB)

Outro ponto importante para Wilians é o patrocínio para os atletas paralímpicos. Atualmente, esse tipo de investimento quase não existe e 95% dos recursos aplicados ao desporto paralímpico são de iniciativa do governo. Para ele, a situação está muito precária e precisa melhorar.

"Os patrocínios privados dos atletas paralímpicos ainda estão muito precários. Eu por exemplo não tenho nenhum patrocínio privado, nenhuma empresa investe em mim. Cerca de 95% dos recursos e patrocínios dos atletas paralímpicos são todos de iniciativa do governo. Mas as empresas privadas ainda não investem no desporto paralímpico como a gente acha que deveria investir. Ainda está muito precário".

​Hoje Wilians Araújo está vivendo a realidade de um sonho e é um exemplo para inúmeras pessoas no Brasil e também no mundo. Ele deixa uma importante mensagem para todos que o acompanham nessa jornada. Nada é impossível e os sonhos podem se realizar se houver esforço a cada dia.

Tudo é possível. A vida é surpreendente, Deus é maravilhoso. A gente quando as vezes acha que está no fundo do poço, Deus tem algo muito melhor em nossas vidas. Perdi minha visão, achei que realmente não teria noção do que poderia ser e Deus realizou essa obra maravilhosa na minha vida, então tudo é possível, basta a gente querer, basta a gente se esforçar a cada dia. E ter sonhos. O que move a gente são os sonhos, então tudo é possível. Para todo mundo que me segue, para todo mundo que me acompanha e torce por mim: acreditem”, finalizou.

 Confira a entrevista com Wilians Araújo na íntegra:

VB: Sua história de vida é um exemplo de superação desde o começo. Quando aconteceu o acidente que tirou sua visão você era muito jovem, com uma vida toda pela frente. Qual foi a maior dificuldade de todas que você enfrentou antes de se envolver com o esporte?

WA: A maior dificuldade que eu enfrentei é que eu morava numa área de risco. Eu morava no complexo do Alemão, em uma casa que toda vez que chovia era um transtorno para mim e minha família. Uma casa super pequena, com quarto, sala, cozinha e banheiro onde moravam quatro filhos, no caso eu e meus três irmãos, e meu pai e minha mãe. Então era muito difícil. Toda vez que chovia era muito transtorno, era uma coisa que marcou muito a minha adolescência.

VB: Quando se mudou para o Rio de Janeiro, sua situação de vida era muito precária, haja visto que morava numa comunidade do Alemão e não tinha uma boa condição, mas o encontro com a professora Terezinha, do Instituto Beijamin Constant, no ponto de ônibus, foi o passo inicial para sua vida mudar. Como você define esse encontro? Qual a consideração que você tem pela Terezinha?

WA: Eu não tenho mais contato com ela. Há muito tempo que eu não a vejo, mas ela foi, digamos, realmente a responsável por tudo isso que aconteceu na minha vida. Ela quem me mostrou o caminho e me apresentou o Instituto Beijamin Constant, o qual eu tenho total gratidão por tudo o que fez por mim e continua fazendo. Hoje eu continuo sendo atleta do Benjamin Constant e o represento. Então esse encontro com a professora Terezinha foi o início de tudo. Não só no esporte. Na minha carreira acadêmica. Através dela eu conheci o IBC, me formei, concluí meu ensino médio no Colégio Pedro II em São Cristóvão. Ela me mostrou um caminho de sucesso e vitórias. Não necessariamente você vai ser vitorioso no esporte. Você pode ser vitorioso numa carreira acadêmica, se formar, então o esporte realmente não é a única saída, mas ela me ensinou tudo isso. Me ensinou a ler e escrever em braile, ela que me ensinou muitas coisas para eu estar onde estou hoje.

VB: Antes de integrar o Instituto Beijamin Constant você alguma vez havia pensado que poderia praticar algum tipo de esporte mesmo com a sua deficiência?

WA: Não. Na verdade, eu sabia que poderia fazer, e devido ao fato de eu estudar no IBC eu cheguei a treinar natação, futebol, só que não gostei muito de treinar natação. Gosto de nadar, mas treinar como alto rendimento não gostei. Treinei futebol, mas eu era ruim para jogar futebol até quando eu enxergava (risos), depois de cego foi um caos. Eu era tão ruim, mas tão ruim de futebol que quando eu enxergava, eu morava no interior da Paraíba e tinha um técnico lá na época e tinha também um campeonato de crianças entre 10 a 12 anos, e lembro que para ele deixar eu jogar, tive que dar uma chuteira minha que era grande. Ele me falava: ‘Se tu me der a chuteira eu deixo tu jogar’. E eu dei a chuteira, ele usou e eu cobrei, queria que me escalasse. Quando chegou o dia do campeonato, ele me deixou jogar no segundo tempo. Eu joguei cinco minutos ou menos e ele me tirou e falou: ‘Cara, você é muito ruim, toma sua chuteira’. Eu era muito ruim de futebol.

VB: Sua primeira convocação para representar o Brasil como lutador profissional de judô aconteceu em 2011, ano em que participou dos Jogos Mundiais (2011), Mundial de Jovens (2011) e do Parapan-Americano de Guadalajara (2011). Como você encarou esse desafio? Se sentiu pressionado? Teve algum tipo de medo ou encarou numa boa?

WA: Na verdade, eu evoluí muito fisicamente, isso é notório. Todo mundo vê, se olhar as fotos de antes e as de hoje, eu evoluí muito fisicamente. Eu estava engatinhando, na época eu fazia judô há dois anos e meio em 2011. Eu fui convocado no final de 2010 para servir a seleção em 2011. Na época que fui convocado eu era faixa laranja, quando eu fui para a seleção, eu era faixa verde.  Era tudo muito novo para mim, meu primeiro campeonato foi nos Jogos Mundiais, na Turquia e sinceramente, eu não consegui lutar. Minha primeira luta eu fiz com um russo, que em 2014 eu tive a oportunidade de lutar com ele e ganhar. Eu não consegui lutar, entrei chorando. Estava em um corredor esperando para entrar e entrei chorando. Na época eu tinha 18, 19 anos. Eu pensava: ‘Caraca, todo mundo aqui gritando meu nome, todo mundo chamando por mim’. E eu fui lá e realmente perdi na primeira luta que foi a pontuação mínima que foi o Yuko, e eu fiquei em último lugar nesse campeonato. Depois fui campeão mundial de jovens, que foi um campeonato por faixa etária. Aí eu me deparei com uma situação. Para eu classificar minha vaga pra Londres, tinha que ser campeão Pan-Americano em Guadalajara, ou ser vice desde que Cuba ficasse em primeiro. E foi isso que aconteceu, fui vice-campeão, Cuba ficou em primeiro e classifiquei minha vaga para os jogos. Então foi um momento muito diferente, um momento único.

Eu tinha o sonho de participar dos Jogos Paralímpicos e bati muito perto de uma medalha. Cheguei à semifinal e perdi. Disputei o bronze e perdi para um cara que ganhei dele em 2014 já. Então foi um momento único na minha carreira, eu tinha esse sonho de participar dos jogos paralímpicos e ele se realizou, estive bem próximo da medalha. Na época fiquei muito nervoso, lembro que quando recebi os quimonos, os uniformes que usavam nos jogos paralímpicos eu ficava abrindo, pegando nos uniformes, vestia, tirava. Eu já passei dessa fase, o sonho de participar dos jogos paraolímpicos eu já realizei, agora meu sonho é conquistar a medalha aqui no Rio e eu sei que tenho total condição de conquistar essa medalha.  De lá para cá eu vim em uma crescente muito grande, evoluí muito física e psicologicamente, então aquele Wilians que entrou chorando na primeira luta internacional foi se modificando. Atualmente sou o primeiro do ranking mundial, medalha de prata em Toronto, bronze no mundial de judô em 2014, bronze nos jogos mundiais em 2015 então consegui evoluir e trazer bastante bagagem para lutar bem aqui no Rio de Janeiro.

VB: Na Paralimpíada de Londres 2012 o desfecho foi um pouco mais frustrante, já que a conquista da medalha não foi possível. Como você considera esse acontecimento? Seria de certa forma um aprendizado?

WA: Foi frustrante sim, mas eu tive que passar por isso para hoje estar onde estou. Além de tudo meu irmão. Eu voltei de Londres machucado, me machuquei na primeira luta e eu conversava com meu irmão e estava desanimado, tinha rompido a clavícula. Em uma das conversas com meu irmão lá em 2012 ele me abraçou e falou: ‘Po Wilians, você é meu herói. Cara, você é meu ídolo. Você estava representando 200 milhões de habitantes do Brasil. Quantas pessoas não queriam estar lá com você? E você que estava lá nos representando. Você é meu herói, você é meu ídolo. Se Deus quiser vai dar tudo certo e em 2016 você vai conseguir essa medalha’. Na época eu chorei pra caramba. Até hoje eu me emociono ao falar disso. Não sabem disso, acho que a gente não falou muito sobre isso, mas ele quem deu aquele empurrãozinho quando eu estava desanimado, chateado. Eu aprendi, fui amadurecendo, aprendi com tudo que sofri em Londres e se Deus quiser aqui no Rio 2016 será tudo diferente.

VB: Então o apoio maior nessa hora difícil foi a palavra amiga do irmão que te impulsionou e te motivou?

Na verdade, muita gente me incentiva, muita gente me apoia. Minha família, minha esposa, meus pais, sobrinhos, irmãos, avós, tios e tias, meus senseis que são os meus técnicos. Todo mundo me apoia, incentiva e acredita muito em mim e isso é legal. Quando você tem muita gente que torce por você, e no momento que desanima e pensa: ‘Eu vou continuar porque além de eu acreditar em mim, tem muita gente que acredita em mim, então eu vou continuar'. É muito bom poder contar com essas pessoas que me incentivam, me apoiam todos os dias.

VB: Você tem uma luta ou alguma conquista que te marcou de um jeito especial? Se sim, por que ela te marcou?

WA: Tem sim. Uma luta que eu fiz na disputa do bronze em 2014. Eu ganhei a primeira luta no mundial, ganhei a segunda e na terceira luta eu perdi com o cubano e fui disputar o bronze com o Azerbaijão que ganhou de mim a disputa do bronze em 2012 nos jogos paralímpicos de Londres. Ele estava confiante que ia ganhar até mesmo pela experiência. Ele é bicampeão paralímpico, medalhista de bronze em Londres, então era uma luta muito difícil. Foi uma luta que lutei super bem. Ele estava perdendo na luta, de posição, de Yuko, e eu consegui fazer ele tomar punição. E do meio para o final, consegui jogar ele de Ippon e caí em cima dele. Para mim foi uma luta que me marcou muito porque foi um adversário que eu tive que me superar para ganhar dele, além de ser a luta em que foi a minha primeira conquista internacional, uma medalha de bronze no Campeonato Mundial de Judô.

VB: Agora falando dos jogos paralímpicos Rio 2016, qual sua expectativa para o evento?

WA: Expectativa boa acredito que todos os atletas carregam. Acho que não existe favoritismo. Os 12 atletas têm condições de conseguir conquistar medalha. Temos que continuar com os pés no chão e a cabeça tranquila. Favoritismo não existe, a gente pôde ver nos jogos olímpicos que se encerraram. Eu acompanhei bastante, vi atletas experientes perdendo para atletas desconhecidos. Essas competições são diferentes, onde não existe favoritismo. Todos os atletas possuem chances reais de medalhas, além do mais, todos os atletas aqui da seleção, Abner, Tenório, Arthur, Halyson, Harlley, Rayfran, Alana, Deanne, Karla, Lúcia, Michele, todos nós temos condições de trazer medalha para o Brasil.

VB: Você acha que, pela paralimpíada ser em casa, existe pressão ou isso é uma vantagem para você em relação aos adversários?

WA: Cada um reage de uma maneira. Tem gente que não gosta, tem gente que acha que fica muito pressionado. Eu não acho isso. A torcida é extremamente importante. Eu e a torcida somos dois contra um adversário. Então, na minha opinião, acredito que quem tem que sentir pressionado são os nossos adversários. Em relação a isso fico bem tranquilo, vou dar o melhor de mim como sempre dei, lutar bem e o resultado é consequência. Se Deus quiser estarei lá comemorando.

VB: O Brasil hoje é uma superpotência no esporte paralímpico, um exemplo disso é o desempenho do país no Parapan-Americano de Toronto 2015. Isso faz com que o Brasil seja um dos favoritos para liderar o ranking de medalhas. Você acredita que esse objetivo é possível?

WA: Tudo pode acontecer, tudo é possível. Mas o comitê paraolímpico, a última competição que a gente teve em Londres, ficamos em sétimo lugar. O comitê trabalha com a meta de ficar em quinto nos jogos do Rio 2016, que a gente consiga subir mais duas posições no quadro de medalhas. Eu acredito que é possível estar brigando lá em cima. Realmente é possível cumprir a meta que o comitê estabeleceu de ficar em quinto lugar. A torcida vai fazer toda a diferença e vão surgir muitos atletas que não estavam em Londres e vão realmente brigar por medalhas. Vão surgir muitas medalhas para o Brasil.

VB: Para você, os Jogos Paralímpicos no Rio podem influenciar o aumento de incentivo às pessoas com deficiência no Brasil?

WA: Acredito que sim. Na verdade, eu espero isso. Espero que esse seja o grande legado dos Jogos Paralímpicos. Que aumente o incentivo não somente para ser atleta, mas aumente o incentivo para o deficiente estudar, para que possamos conseguir nosso espaço na sociedade. Que aumente mais os empregos. Que talvez possamos mudar a cabeça de alguns empresários, de muitas pessoas. Eu sei que tem pessoas que não acreditam, que tem uma certa barreira. Que esses empresários oportunizem a pessoa com deficiência. Esse será o grande legado, será algo muito bacana. O deficiente tem diversas vertentes para conseguir ter sucesso na vida. A população, as pessoas precisam acreditar mais na gente, no nosso potencial. Que a população aprenda a respeitar a limitação do outro. Não importa se você é deficiente visual, cadeirante, negro, judeu, não importa. A gente tem que viver um mundo sem preconceitos. A gente tem que aprender a respeitar a diferença do outro. A gente vai viver melhor em sociedade se a gente aprender cada dia melhor isso.

VB: Como você classifica a questão do patrocínio para os atletas paralímpicos? Você está satisfeito com o apoio aplicado aos paratletas?

WA: Tem muito o que melhorar. Os patrocínios privados dos atletas paralímpicos ainda está muito precário. Eu por exemplo não tenho nenhum patrocínio privado, nenhuma empresa investe em mim. Cerca de 95% dos recursos e patrocínios dos atletas paralímpicos são todos de iniciativa do governo. Eu tenho a bolsa pódio, recebo através do ministério do esporte, que eles investem em atletas de alto rendimento e tenho também o Time Rio, que é a parceria da prefeitura do Rio de Janeiro com o comitê paralímpico brasileiro através da secretaria municipal da pessoa com deficiência. Eles dão uma melhor qualidade de treinamento, estrutura para os atletas. Patrocinando além do salário que nos dão todo mês, eles pagam fisioterapeuta, técnico, psicólogo, dão uma atenção com os materiais esportivos como quimonos e outras coisas mais. Esses são os dois patrocínios que eu tenho, que investem em mim há muito tempo. Mas as empresas privadas ainda não investem no desporto paralímpico como a gente acha que deveria investir. Ainda está muito precário. 

VB: Os judocas paralímpicos possuem alguma ligação com a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) ou a única entidade coordena a modalidade é a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV)?

WA: Eu sou faixa preta, pago a anuidade à CBJ, eles dão meu diploma, eles têm meu registro como faixa preta, mas eles não me ajudam em nada. Não regem o judô de cegos no Brasil. Todo o apoio e atenção quem dá é a CBDV, ela quem convoca, desconvoca, que traz a gente para as fases de treinamento, então é a CBDV.

VB: Como é a estrutura do judô paraolímpico brasileiro? Você acha que existe um desnível em relação a estrutura da seleção brasileira de judô convencional?

WA: Melhorou muito do que era antes. Em 2011 a gente tinha só um técnico, um coordenador e um fisioterapeuta. Hoje nós temos duas psicólogas, um nutricionista, um coordenador técnico, um técnico, um auxiliar, um preparador físico, dois fisioterapeutas. Melhorou muita estrutura, está bem bacana, bem legal. Não tenho do que reclamar e não tenho noção de como é a estrutura da seleção olímpica de judô.

VB: Quais são suas referências no esporte?

WA: No esporte paralímpico eu sou fã de um rapaz que até brigou pela vaga para disputar os jogos olímpicos no Rio e acabou ficando de fora, esteve comigo em Londres. É do Brasil, do Rio de Janeiro e o nome dele é Roberto Julian. É o cara que eu tenho como ídolo, como herói. Por tudo o que ele fez por mim, por ter sempre me incentivado no momento que eu pensava em desistir, ele sempre estava comigo. Treinamos muito juntos, quando eu estava chorando ele sempre aparecia para me incentivar. Ele é um dos grandes responsáveis por estar aqui hoje. Já no esporte olímpico eu sou fã do Baby, Rafael Silva. É um cara que eu admiro pra caramba, um exemplo de atleta, de pessoa, é um cara que torço muito. Até fui assistir a luta dele no parque olímpico. A luta inicial, fui assistir porque é um cara que eu torço pra caramba, sou fã. Até mesmo hoje ele veio aqui no hotel que estou concentrado em São Paulo na aclimatação. Ele veio aqui me ver, me deu um abraço, trouxe a medalha para eu pegar e sentir aquela energia que eu precisava para lutar bem nos jogos. É um cara que torço muito e tenho como ídolo. Ele é o cara.

VB: Hoje você está vivendo a realidade de um sonho e é um exemplo para inúmeras pessoas. Qual a mensagem que você deixa para elas? O que você acha que pode ensinar a elas com sua história de vida?

WA: Eu posso passar para elas que tudo é possível. A vida é surpreendente, Deus é maravilhoso. A gente quando as vezes acha que está no fundo do poço, Deus tem algo muito melhor em nossas vidas. Perdi minha visão, achei que realmente não teria noção do que poderia ser e Deus realizou essa obra maravilhosa na minha vida, então tudo é possível, basta a gente querer, basta a gente se esforçar a cada dia. E ter sonhos. O que move a gente são os sonhos, então tudo é possível. Para todo mundo que me segue, para todo mundo que me acompanha e torce por mim: acreditem. Dia 10 de setembro, deixo o convite para quem quiser ir lá me assistir, vou dar o melhor de mim, lutar bem e a medalha será uma consequência. Não vai faltar vontade e dedicação para conseguir conquistar essa medalha.