Ibrahim Al-Hussein: vitimado pela guerra, sírio carregará bandeira da delegação de refugiados na Rio 16

Nadador competirá na classe S10 do esporte

Ibrahim Al-Hussein: vitimado pela guerra, sírio carregará bandeira da delegação de refugiados na Rio 16
Ibrahim Al-Hussein conduz a tocha Paralímpica no revezamento (Foto: Louisa Gouliamaki/AFP/Getty Images)

Faltando muito pouco para o começo dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, é importante conhecer todas as histórias que a Paralimpíada nos traz. Seguindo o mesmo padrão das Olimpíadas, o evento está recheado de personagens com carreiras e histórias de vida inspiradoras. Um deles virá à Cidade Maravilhosa competindo sob a bandeira do Atletas Independentes Internacionais (IPA, na sigla em inglês). A delegação participará sob a bandeira do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês), mas seus dois atletas são refugiados, que tiveram de deixar os países onde viviam.

Por conta dessa peculiaridade, é comum se referir à essa delegação como o time de refugiados da Paralimpíada e ela é composta por um iraniano, Shahrad Nasajpour, que tem paralisia cerebral e compete na prova do lançamento de disco, pela classe F37. O outro é o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein, parte da classe S10 do esporte, responsável por carregar a bandeira do IPC na cerimônia de abertura dos Jogos, programada para às 20h de desta quarta-feira (7).

A história do nadador relembra até mesmo a origem dos Jogos, criados após a Segunda Guerra Mundial, visando incluir e reabilitar os soldados que foram feridos em confronto. Al-Hussein, mesmo sendo civil, também sofreu com a guerra dentro da Síria. Em 2012, o atleta de 27 anos perdeu parte de sua perna direita após ser atingido por um bombardeio, enquanto tentava salvar um amigo: "Ele gritou meu nome e o de outros amigos. Corremos para socorrê-lo e, enquanto tentávamos tirá-lo da rua, fomos atingidos. Alguns dos meus amigos morreram", relatou o nadador em entrevista já na Vila Paralímpica, no Rio de Janeiro.

Depois de ter sofrido a amputação na perna, Al-Hussein tinha problemas para conseguir condições de vida decentes. Por conta da guerra civil em seu país, o sírio tinha acesso limitado às medicações necessárias e essa foi uma das motivações que o nadador teve para deixar seu país. Sua primeira opção foi a Turquia, buscando abrigo e melhores condições médicas, sem sucesso. No fim, foi a Grécia que lhe acolheu e, depois de receber tratamento, acabou voltando ao esporte que já praticava desde criança: a natação.

Ativo desde a infância, o nadador sonhava em disputar os Jogos Olímpicos, enquanto praticava judô, natação e basquete. Segundo o mesmo, em entrevista ao site oficial das Paralimpíadas, seu sonho será realizado: "Sonhei em participar dos Jogos por 22 anos. Pensei que esse sonho nunca seria realizado depois de perder minha perna, mas agora ele está de volta. Ainda nem acredito que vou ao Rio", declarou Al-Hussein, reponsável por carregar a tocha da competição dentro da Grécia, em ação conjunta do IPC com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), quando declarou estar "carregando a chama também pelos sírios, pelos refugiados em todos os lugares, pela Grécia e pelos esportes".

Ainda nessa entrevista, o sírio demonstrou a importância do esporte para sua reabilitação. Trabalhando 12h por dia num café, Ibrahim ainda passa mais 4h de seus dias treinando e não se contém ao falar sobre seus sentimentos em relação à natação: "A dor me faz querer competir, me dá energia. O esporte é uma maneira de extravasar essa energia. Não tenho problema em ficar sem comer ou não ter uma casa, mas ninguém pode me impedir de treinar", afirmou.

O conflito que fez com que Al-Hussein perdesse parte do seu corpo ainda continua na Síria, levando milhares de pessoas a deixar o país, muitas vezes nas mesmas condições que o atleta. Nem todas conseguem sobreviver à travessia do Mar Mediterrâneo e, por conta disso, o nadador fez um apelo em relação ao confronto: "Eu só quero que isso acabe. A mensagem que quero passar é essa: façam tudo que for possível para que tudo acabe", clamou, falando sobre a guerra civil síria.

Por fim, é importante ressaltar a lição que fica e pode ser aprendida pelas palavras do nadador: "Eu só tenho um desejo: o ouro. Quero mandar uma mensagem para todos aqueles que se machucaram e dizer que vocês ainda podem alcançar seus sonhos. Um alemão me disse que queria ser como eu. Eu respondi que ele deveria treinar muito, para que ganhasse o ouro e eu, a prata. Não existe nada como uma lesão. É uma lesão mental quando você se restringe. Olhe para o futuro, não para o passado. Não quero relembrar o que aconteceu, só pensar no futuro. Meu objetivo é sempre seguir avançando, nunca desistir. O esporte me proporciona isso".