Conheça a história de Jeohsah Santos: recordista brasileiro no salto em altura

Jovem atleta pernambucano é recordista brasileiro na categoria salto em altura (classe T44) e tem total apoio de sua técnica Glébia Galvão

Conheça a história de Jeohsah Santos: recordista brasileiro no salto em altura
Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB

Com 17 anos, um dos principais atletas mundiais no salto em altura é pernambucano de Pesqueira, seu nome é Jeohsah Santos. O jovem sequer conhecia a modalidade, até ver um amigo competir a modalidade.

O interesse veio quando conheceu Glébia Galvão, uma pessoa conhecida por lutar e trabalhar firme no para desporto da cidade. Além das dificuldades em conseguir material e local adequado para os treinamentos, a treinadora nunca tinha treinado esse tipo de prova. Corajosa e destemida, ela aceitou o desafio e começou a estudar para adquirir um amplo conhecimento do salto em altura. Desde então, precisou usar sua criatividade para começar a improvisar nos treinos.

Treinamentos e competições se passaram e só serviram de motivação, o atleta mostrou que era capaz de crescer ainda mais. Vieram três competições e ele sempre foi aumentando suas marcas, a primeira 1,65m, na segunda 1,71m e depois 1,74m, que até hoje é seu recorde. Esses resultados, deram a Jeohsah a convocação para a Rio 2016.

 A VAVEL Brasil entrevistou a sua técnica Glébia Galvão e ela nos contou um pouco da história do atleta, da ajuda dela em sua carreira, objetivos e do sonho em disputar os Jogos Paralímpicos.

Confira a entrevista na íntegra: 

Como você (Glébia Galvão) e Jeohsah Santos se conheceram? Essa parceria do esporte é repetida na vida pessoal de vocês?

"Então a gente se conheceu na escola dele, onde vou procurar os atletas para fazer parte da minha equipe, eu achei ele lá no CAIC, e depois reencontrei na Escola Margarida Falcão, foi quando ele veio ser meu atleta. A nossa parceria no esporte e na vida é muito forte, as vezes eu tenho mais relação de mãe com ele do que de técnica. Por ele ser tão jovem nos apegamos muito esse ano, fizemos 5 competições, convivemos muito, fomos para várias competições cinco meses treinando, então essa parceria do esporte se repete na vida também, amizade, carinho, cumplicidade. Eu tenho uma ligação forte com família dele também, até por tudo que passou para chegar onde chegou. Eu participei de tudo na vida dele, até financeiramente eu banquei do meu bolso, com certeza essa parceria é repetida na nossa vida pessoal, ele é praticamente um filho pra mim. Mas toda hora a gente tem que lembrar que eu sou técnica dele, então isso se sobrepõe, ser técnica, ser 'mãe', ser amiga, a gente com certeza tem essa parceria, a gente tem uma boa amizade."

Quando começou o interesse do atleta pela a prática do esporte?

"Convidei ele para treinar, mas ele não quis a princípio. Depois convidei novamente e ele aceitou, e então o levamos para as Paralimpiadas Escolares em São Paulo". 

Como foi a trajetória das Paralimpíadas Escolares até a Rio 2016, a mais importante da carreira? 

"As Paralímpiadas Escolares acontecem há seis anos, o Jeohsah participa há quatro anos. É uma competição feita para crianças com deficiência que estão na idade escolar de 12 a 17 anos. Só que as provas dele eram outras provas, ele competia no lançamento do dardo, salto em distância e os 100 metros, durante esse ano ele migrou para o salto em altura, nessa modalidade que é tudo novo na vida, foi onde começamos treinar forte as já fazem 4 anos. Então, por disputar essa competição durante esse período já tem uma boa experiência." 

Como começaram os treinamentos para disputar a primeira comepetição desta modalidade?

"Quando ele viu essa prova e gostou e quis treinar, fui estudar sobre o salto em altura, porque até então eu nunca tinha treinado ninguém nessa prova e faziam muitos anos que eu tinha visto alguém fazer essa modalidade. Nas competições que nós vamos, não é tão comum treinar o salto em altura e eu fiz dois cursos pelo Comitê Paralímpico durante junho e julho e vim para aprender um pouco com os técnicos do Brasil. Em março fizemos a primeira competição, em maio disputamos o mundial, junho e julho fizemos duas competições em São Paulo e agora estamos na Rio 2016."

Quais foram as maiores dificuldades que vocês tiveram que enfrentar e superar para poder chegar até onde estão hoje?

"Nossa dificuldade no começo foi material, não tinha, e a primeira vez que a gente treinou para ele disputar sua primeira competição em março, foi numa piscina, na academia onde eu trabalhava, por dois dias. Depois a Escola Margarida Falcão, onde o atleta cursa o ensino médio, trouxe um colchão de Recife-PE, com esse importante material treinamos durante 15 dias e aí conseguimos com uma empresa de estofados cobrir o colchão da gente. A gente também treina com uma corda, amarra em duas barras de futebol na quadra municipal da cidade e treina forte. Dentro das possibilidades temos tudo, as dificuldades foram os materiais"

Apoio para superar as dificuldades e poder disputar as competições. Quem foi importante para dar esse suporte?

"A Prefeitura Municipal de Pesqueira-PE bancou todo custo, todas as competições eles ajudaram financeiramente, como as competições tem um custo, não teríamos condições de bancar essas disputas. E até então o Comitê não bancava nada, a gente vinha por conta própria, então essa seria a maior dificuldade, mas não foi uma dificuldade por fecharmos parceria com o município".

Qual era o principal objetivo de vocês quando iniciaram, era chegar na Paralimpíada ou vocês viam isso como um sonho distante ainda?

"De verdade a gente nunca viu o Rio como um objetivo, a gente queria acertar, queria ver como era a prova, queria aprender sobre a prova, queria fazer competições. Tanto é que a competição que almejamos, o Mundial de Jovens, será em Londres, em julho de 2017. Mas o Rio foi uma das coisas que não estavam em nossos planos, quando aconteceu foi a maior surpresa da vida da gente. Nunca cheguei tão alto como cheguei agora. Quando eu vou treinar um atleta é pra tirar ele de casa, para dar uma boa qualidade de vida e mostrar que existem pessoas iguais, que têm competições, que eles têm potencial, que eles podem fazer muitas coisas, superar limites, dar exemplo, mas nunca vi nenhum atleta meu chegando até onde o Jeohsah chegou, pra mim é um orgulho muito grande."

Agora que chegaram no ponto maior da carreira e sendo Jeohsah o recordista braisleiro de sua categoria, qual a expectativa para os Jogos, dá pra sonhar com medalha?

"Realmente o lugar mais alto de um atleta é a Paralímpiada, no seu país, na sua casa, mais emocionante ainda. Jeohsah tem 17 anos, apenas cinco meses de prova, vai competir com caras super experientes. O campeão da prova dele que é o polônes lepiaco tem 2,18m, é uma categoria bem alta, ele tem os três recordes mundiais. Além de um japonês que vai estar no Brasil, de 2,05m e tem outro cara, que tem 1,95m. No Brasil são 6 competidores com ele, se ele melhorar a marca dele dá pra ter uma boa colocação, mas pela a classificação que a gente sabe que tem as metragens de 2,18m, 2,10m, 2,05m, 1,95m, por medalha eu acho difícil. Nosso foco é subir a marca até porque é a primeira competição dele de nível internacional, então com certeza a gente traz isso como aprendizado. Vamos fazer o nosso melhor, tudo pode acontecer. Então só na hora o que pode ser possível, mas gente está focado, a gente tá concentrado." 

Com experiência como técnica no esporte paralímpico, qual o recado que você pode deixar?

"Nunca deixar de acreditar em ninguém, independente de ter ou não ter deficiência, todo mundo tem um talento, todo mundo pode conseguir. Chegando ou não a ser um atleta paralímpico, a ser um atleta da seleção brasileira, mas você dar uma melhor qualidade de vida a uma pessoa que ninguém acredita nela. E esse é o papel de um técnico que trabalha com esporte paralímpico, é mostrar para a família primeiramente que aquela pessoa tem um potencial e pode superar qualquer limite, obstáculo que tem na frente dela. E mostrar para a sociedade que ele está ali, que ele existe, que ele é uma pessoa, independente da deficiência, de ter ou não ter, esse é o recado que deixo para as pessoas."