Joanna Maranhão: a atleta pernambucana que mudou a história da natação brasileira

Joanna é a única nadadora brasileira que disputou quatro edições dos Jogos Olímpicos

Joanna Maranhão: a atleta pernambucana que mudou a história da natação brasileira
Joanna Maranhão: a atleta pernambucana que mudou a história da natação brasileira

Colaboração: Bárbara Mendonça e Luís Francisco Prates

Nascida no Recife em 29 de abril de 1987, Joanna de Albuquerque Maranhão Bezerra de Melo iniciou sua trajetória na natação aos três anos de idade, quando ingressou no Clube Português do Recife. Posteriormente, a atleta ainda acumularia passagens por Sport, CPR e Náutico. Desde então, Joanna escreveu uma bela história no esporte brasileiro e se tornou um fenômeno das piscinas.

Fonte: Getty/Images
Fonte: Getty/Images

O primeiro grande resultado da pernambucana veio no Festival CBDA Correios Norte Nordeste de 1998, onde, aos 11 anos, venceu a prova dos 400 metros livre com 5m08s44 e os 200 metros medley com 2m45s02. No ano seguinte, mesmo na pré-adolescência, já teve responsabilidade de gente grande: participou dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg 1999. Quatro anos mais tarde, a nadadora participou dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo 2003 e conquistou a medalha de bronze nos 400 metros medley, além de um quarto lugar nos 200 metros medley e uma oitava colocação nos 200 metros peito.

Um ano depois, passou pelo maior desafiou de sua carreira ao conquistar um lugar nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. E voou ainda mais longe: ou melhor nadou mais longe. Ficou em quinto lugar nos 400 metros medley, a melhor colocação obtida até hoje por uma nadadora brasileira. Também na Grécia, ficou em sétimo nos 4x200 metros livre e foi a 11ª colocada nos 200 metros medley.

Fonte: Getty/Images
Fonte: Getty/Images

Nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro 2007, diante da torcida brasileira, Joanna ocupou o quarto posto tanto nos 200 metros medley quanto nos 400 metros medley. E saiu da capital fluminense com uma medalha de bronze na bagagem: conquistou o prêmio na categoria 4x200 metros livre por ter nadado a eliminatória da prova.

No outro lado do mundo, nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, marcou presença em três provas: nadou os 200 metros medley em 2m14s97 e quebrou o recorde sul-americano, porém ficou apenas no 22º tempo geral; nos 400 metros medley, obteve o 17º tempo geral, com 4m40s18. Em 2017, durante o Campeonato Paulista de Natação, a nordestina quebrou o recorde brasileiro nos 1500 metros nado livre com o tempo de 16m26s63.

Joanna Maranhão é dona de uma das maiores e mais impressionantes hegemonias dos esportes aquáticos de nosso país. Das 100 melhores marcas brasileiras da história dos 200 borboleta, 61 pertencem à nadadora. Não para por aí: o domínio é ainda mais arrasador nas provas de medley. Tanto nos 200 quanto nos 400 quatro estilos, a nadadora do Pinheiros (SP) é detentora de 79 dos 100 melhores tempos. Na prova dos 400, ela possui 60 melhores tempos brasileiros da história. Não é pouca coisa, não!

Em entrevista exclusiva à VAVEL BRASIL, Joanna contou o início e os melhores momentos de sua carreira, além das situações mais complicadas da sua vida, como o caso do abuso sexual que sofreu do seu ex-treinador. Mostrou-se orgulhosa pela lei contra o abuso sexual, criada, inclusive, com o seu nome.

Fonte: Getty/Images
Fonte: Getty/Images

Mais do que os resultados relevantes nas piscinas: a atleta utiliza o esporte como bandeira para o aumento da representatividade das mulheres em uma sociedade machista e misógina. Também foi peça importante do combate à corrupção na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). E talvez este seja o seu maior legado. Torcedora ferrenha do clube onde deu suas primeiras braçadas, o Sport Recife, Joanna Maranhão honra a alcunha de "Leão do Norte", da música de mesmo nome, uma espécie de hino particular dos pernambucanos - não à toa ficou famosa na voz de um pernambucano ilustre, o cantor Lenine.

Como foi o seu caminho rumo à profissionalização? 

 "Foi acontecendo naturalmente. Na minha família nunca tinha tido nenhum atleta. Eu iniciei no esporte porque, na época em que era criança, Vanderleia tinha perdido uma criança afogada. Minha mãe ficou com medo e me matriculou na natação, mas por uma questão de segurança. As coisas foram acontecendo. De alguma forma, eu, ainda criança, percebi que assimilava o que o professor falava com certa facilidade. Então, apesar de não saber de fato o que era aquilo, eu sabia que levava jeito. Sempre fui muito disciplinada, tanto para os estudos quanto para o treino. Sempre pensei que se uma coisa merece ser feita, tem que ser bem feita, então foi assim que fui seguindo. Não foi nada programado. A profissionalização foi uma consequência disso. As coisas aconteceram muito rápido".

Nessa longa jornada na natação, quais foram os principais momentos da sua carreira? 

"Sempre que me perguntam sobre as principais momentos, as pessoas sempre esperam que eu fale sobre algum resultado, como o quinto lugar em Atenas ou a medalha no Pan-americano. Mas eu não consigo, porque uma coisa que a maturidade me trouxe é que todos os momentos do processo têm sua devida importância, principalmente aqueles momentos em que você está se sacrificando e se superando; que não tem ninguém vendo, que é no dia-a-dia, com os treinamentos. Não consigo escolher um único momento, escolho o conjunto da obra".

Bom, você "quebrou" o silêncio contando o abuso que você sofreu do seu ex treinador.  Após essa revelação, foi criada uma lei com o seu nome. Ela faz parte da legislação brasileira que trata de crimes de abuso sexual, estupro e atentado violento ao pudor. Em 2012, foi aprovada a lei “Joanna Maranhão”, que muda as regras para estes casos. O que uma lei tão importante no tocante a uma situação tão delicada significa para você? 

"O fato de a lei ter o meu nome não é algo do qual eu me orgulhe. Me orgulho da lei existir e de hoje essa ser uma causa pela qual eu milito Não é algo que massageia o meu ego nem nada assim. Basicamente, quando eu trouxe minha história à tona, eu tinha 21 anos. O crime de que eu tinha sido vítima aos 9 anos já tinha sido prescrito, então a 'Lei Joanna Maranhão' dobra o tempo de prescrição. A partir do momento em que a vítima faz 18 anos de idade, ela tem o dobro do tempo, até os 36, para denunciar. Acho que é muito inteligente, tendo em vista que nos crimes de pedofilia, em sua grande maioria, a vítima se cala por muitos anos e só consegue falar sobre isso muitos anos depois, o que beneficiava o pedófilo."

Após sua eliminação nas Olimpíadas do Rio, você recebeu ataques nas redes sociais. Como lidou com isso?  

"O fato de eu ter recebido críticas na rede social após os jogos do Rio não tem nada a ver com meu resultado. Tem muito mais a ver com meu posicionamento político. É uma coisa que nunca deixei de fazer e nem nunca vou deixar. Não escolhi ser (uma pessoa) pública. Eu me tornei pública. É diferente de um cantor, de um ator ou de uma blogueira. Eles buscam isso, eu busco nadar rápido. Em consequência disso, me tornei pública. Acho que, neste momento, que o Brasil vem passando, de um cenário muito polarizado, apesar de eu me colocar como uma pessoa de esquerda, sou aberta ao diálogo. Pessoas que sejam de qualquer viés político, se quiserem dialogar e debater de forma respeitosa, eu estou completamente aberta para isso. Mas os ataques que eu sofri, e ainda sofro todo santo dia, a maioria é robô. Ou então são aquelas pessoas que não mostram o rosto, provavelmente têm uma vida extremamente medíocre e conseguem atacar mesmo, porque estão atrás de um celular ou de um computador." 

Falando em Olimpíadas, pretende disputar sua quinta?

"Eu já disputei quatro Jogos Olímpicos. Hoje estou com 30 anos, então, se decidir tentar Tóquio, vou estar com 33, o que já é bem fora da curva. Fizeram um levantamento este ano, e a única atleta acima de 30 anos que já nadou abaixo de 4:40 no mundo nos 400m medley tinha sido justamente eu. Caso eu decida ir para Tóquio, vou ter que ser ainda mais disciplinada, ainda mais inteligente em relação ao extrapiscina. Em relação à rotina de treinos, a fazer força e lidar com a dor. Isso é algo com o qual lido muito bem. Gosto de treinar, mas, para manter performance e rendimento, terei que ter um treino muito mais qualitativo do que quantitativo. Essa é uma decisão que eu não tomei ainda".

Você se filiou ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em fevereiro. Como surgiu o seu interesse e a sua disposição por Política? Tem vontade de disputar algum cargo público? 

"Eu me filiei ao PSOL por identificação com as pautas que o partido defende. Por ser um partido que não joga as regras do jogo, não se vende por um cargo político e não faz aliança política para chegar lá. Provavelmente é por isso que não chega, porque, dentro do nosso jogo político, se você não faz aliança por governabilidade, você não é eleito. Ou então você cai, tendo em vista o impeachment (da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016). A militância é um grupo no qual me identifico e aprendo muito. Não tenho nenhum interesse em disputar cargo político. Acho que há pessoas muito mais preparadas que eu para isso. O fato de eu me posicionar politicamente e ser filiada a um partido não me obriga a disputar um cargo. Apoio as candidaturas do partido, mas não tenho o menor interesse em entrar nesse jogo".

Você também foi alvo de ataques quando se posicionou  contra o conservadorismo, a redução da maioridade penal e figuras como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro.

"A minha opinião em relação à redução da maioridade penal continua a mesma: sou contra. Acho que um dos problemas do nosso país é a gente querer soluções drásticas para problemas sistêmicos. Vamos estar sempre apagando incêndios. O único problema em relação a esse tema é que as pessoas já estão muito machucadas diante de um cenário violento, o que é compreensível. Quando você fala que é contra, a pessoa fala 'Adota um bandido então'. Só que acho que, na minha parte de emancipar pelo esporte e estar dando aula para crianças carentes, estou seguindo o que eles querem dizer com 'Adote um futuro bandido', pode-se pensar assim. Sinto como se fosse não uma obrigação, mas uma forma de retribuir tudo que o esporte me deu. Com três anos de idade, eu estava matriculada na melhor escola de natação da minha cidade, então tive os melhores ensinamentos técnicos, o que ajudou muito para a minha qualidade e para o fato de eu ser atleta. Talvez a diferença de mim para outras crianças é uma questão de oportunidade, como é para todo ser humano, então penso muito por aí"

Acha que existe uma alienação ou falta de envolvimento da comunidade esportiva em causas coletivas? 

"Essa questão é muito complicada. Para nós, que somos atletas de alto rendimento, tem uma hora que o funil fica muito estreito, então a gente tem que se tornar meio que um 'robôzinho'. Acorda, come, treina, dorme. Você está competindo o tempo inteiro com os melhores do mundo todo, então é um pouco compreensível essa alienação que os atletas têm. Mas eu acho que, mais perigoso do que isso, é a alienação que o próprio sistema de federações e confederações faz em cima dos atletas. Você não pode falar, você não pode se posicionar. Você só pode falar sobre esportes, você só serve para isso. E o ser humano é plural. Ninguém é somente uma única coisa, ninguém é todo ruim ou todo bom. Eu procuro viver minha pluralidade em todos os sentidos. Nunca compreendi muito bem quando um cartola chegava para mim e dizia que eu não podia tocar em determinado assunto porque eu era atleta"

O ódio nas redes sociais contra atletas que se posicionam atrapalha o seu desempenho? No meio esportivo existe algum tipo de bloqueio, perseguição ou preconceito? 

"Eu acho que esse ódio nas redes sociais não é só contra atleta, não. Acho que ele é contra qualquer pessoa que pense diferente. A gente não sabe mais dialogar, e esse cenário polarizado só contribui para isso. Dentro do meio esportivo, eu me posiciono contra a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) desde 2006. Demorou 11 anos para eles serem presos. O que eu percebia dentro do meio era um medo dos meus colegas de Seleção de compartilhar informações comigo para não serem cortados de seus direitos também, como aconteceu comigo diversas vezes"

Como lidar com o machismo no esporte? 

"A natação é um esporte machista como a sociedade. É um reflexo. Eu não dava muita conta disso. Sempre escutei desde muito cedo que tinha que treinar 'como homem', e eu assimilava aquilo como treinar forte e não reclamar de dor. Com o passar dos anos, fiquei conhecida como 'a menina que treina mais que muito homem', só que eu nunca entendi. Depois, comecei a entender que eu não estava treinando como homem. Eu estava treinando como Joanna, superando e suportando dores. Isso não é coisa de gênero. Já treinei com mulheres que eram muito mais fortes que eu. Já treinei com homens que eram muitos mais fortes que eu mentalmente e fisicamente e com homens que não eram. Não tem nada a ver com gênero. É uma coisa construída"

O que você acha da cultura brasileira de só valorizar os esportes na hora que se ganham medalhas? 

"A política escolhida pelas Confederações e pelo Comitê Olímpico para esses jogos do Rio foi a política de investir naqueles atletas que seriam potenciais medalhistas olímpicos. Até os próprios programas de Bolsa Atleta e Bolsa Pódio têm essa hierarquia, porque é muito dinheiro. Alguns atletas chegavam a ganhar 20 mil reais do Governo por mês, somando o que ganhavam de cada clube. É uma verdadeira fortuna. Se foi pensado muito potencialmente nesses atletas, para que o Brasil ganhasse o maior número de medalhas possíveis e crescesse no quadro. Isso é uma política extremamente arriscada porque ela não traz nenhum legado olímpico e medalhista todo mundo quer ser. Na minha opinião, o erro foi aí. (Foi) A gente não investir em estrutura, nem em legado, nem pensar no que viria depois dos Jogos, e sim pensar naqueles atletas que eram potenciais medalhistas"

Qual a importância de repassar sua experiência tanto no esporte quanto na vida para essa nova geração? 

"Eu fico muito satisfeita de ver que a CBDA, após 30 anos de uma gestão corrupta, finalmente caiu. A gente lutou muito para ter uma eleição e tivemos. A gestão é nova. Eu sinto que estou começando esse processo de transição do esporte e que valeu a pena tudo o que eu passei. Lógico que doeu no bolso e em outros momentos também, porque você tem que enfrentar cartolas, que são pessoas muito poderosas dentro desse sistema. Mas, se eu pudesse voltar atrás, faria tudo de novo. Tenho certeza de que o que vem agora, para as próximas gerações do Brasil e até neste ano, nos campeonatos de categoria, a gente já vê uma geração com uma qualidade de natação muito melhor que a outra. Também existe uma gestão da CBDA que enxerga isso e sabe como trabalhar isso a longo prazo. Acho que eu não preciso fazer mais nada. Acho que minha parte já foi feita, e que essa galera vai nadar rápido e vai ter orgulho de vestir a camisa da CBDA. Para mim, era muito paradoxal. Eu queria estar na Seleção e lutava para estar lá, mas, quando eu botava aquele uniforme com aquele símbolo, aquelas pessoas... Era muito ambíguo"