Em Chamas - Crítica
Foto: Divulgação/ Pandora Filmes

Em Chamas - Crítica

Oito anos desde sua última obra Chang-Dong Lee retorna para um conto sobre inveja, obsessões e jazz.

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Matheus França

Uma brasa de estranheza é soprada desde o inicio do filme, algo que caminha dentro do corpo, cresce, se transforma e queima ao seu fim. Neste que talvez seja o longa mais desafiador do ano, o extrapolar do poder moderno é o guia para o novo trabalho de Chang-Dong Lee adaptado do conto de Haruki Murakami.

Adentramos ao mundo de Lee Jongsu (Ah-in Yoo) que é apresentado como um jovem vivendo a sua maneira solitária, que acaba por reencontrar Haemi (Jeo Jong Seo) uma amiga de infância, o encontro traz um propósito a vida do protagonista algo em que ele pode despejar suas desilusões. Tão logo que seu encontro se torna em sexo, é visível os indícios das chamas que a história quer mostrar, a direção quanto ao intimo dos dois representa tudo que o Lee carrega, sua inexperiência, seu desejo e a obsessão.

Haemi viaja e o deixa a cuidar de seu gato, que nunca aparece, questionado sua própria existência, ao voltar ela traz consigo a terceira parte do triângulo Ben (Steven Yeun) seu novo companheiro amoroso, que logo se apresenta como alguém que não tem preocupações mundanas, devido a sua condição financeira ele marca o disputa de classes que sutilmente é discutido ao decorrer da obra.

O protagonista diz que é um aspirante a escritor sem nada escrito, quando na verdade ele busca a grande história onde ele será o personagem principal. O jogo de poder criando através da sutileza de movimentos, são uma dança unificada entre direção e atuações, onde até momentos de liberdade poética fluem tão suavemente que o espectador acaba por ser conduzido ao som do velho jazz.

Há uma aura que instiga e carrega os olhos por todo o decorrer dos acontecimentos, que calmamente vão escalando, sem perder-se em megalomaníacas exposições de roteiro e personagem. Aqui tudo tem uma razão de estar, quanto mais de perto se olha mais longe o fundo do poço fica. O relato de Ben sobre seu hobby de colocar fogo em celeiros alheios, foca em seu rosto sem exageros visuais, enquanto sutilmente chegamos cada vez mais perto de seu interior e questionamos se suas palavras são verdadeiras, nos agarra na trama para o que ali realmente reside. O diretor propõem um jogo e logo o espectador se torna uma peça de seu tabuleiro.

Expectativas são desconstruídas por um roteiro sutil que manipula o inconsciente, cada detalhe tem um motivo por mais insignificante pareça, ou mesmo que não venha ser diretamente respondido. A fotografia e trilha brilham ao destacar o cinismo e emoções, tudo a seu tempo. Perguntas não são respondidas, não claramente e cabe a nós tiramos a satisfação que a obra nos cria, após dias o gosto fica na boca, algo talvez amargo como cinzas.

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