Palco da decisão da Fórmula 1 em 2016, Abu Dhabi também coroou campeão em 2010; relembre como foi

Neste ano, o campeão mundial será consagrado em Abu Dhabi pela segunda vez na história. A primeira foi em 2010, em uma corrida que encerrou um campeonato com vários postulantes ao título e terminou com a conquista surpreendente de Sebastian Vettel; relembre como foi a prova

Palco da decisão da Fórmula 1 em 2016, Abu Dhabi também coroou campeão em 2010; relembre como foi
Foi o primeiro de quatro títulos seguidos do alemão (Foto: Ker Robertson/Getty Images)

Neste domingo (27), a Fórmula 1 consagrará o seu campeão mundial de 2016, em uma situação que os fãs adoram: decisão na última corrida – nesse caso, o Grande Prêmio de Abu Dhabi, em Yas Marina. A disputa está polarizada entre os dois pilotos da Mercedes, com vantagem do alemão Nico Rosberg, que busca seu primeiro título (367 pontos, precisa apenas de um pódio), contra o inglês Lewis Hamilton, tricampeão e vencedor dos dois últimos campeonatos (355 pontos, precisa vencer e torcer para Rosberg ser pelo menos o quarto colocado).

Abu Dhabi irá coroar um campeão pela segunda vez na história da categoria. A primeira foi há seis anos, em 2010. Naquela ocasião, a capital dos Emirados Árabes Unidos viu quatro pilotos chegarem ao dia 14 de novembro daquele ano com chances matemáticas de título: Fernando Alonso (líder, Ferrari, 246 pontos), Mark Webber (vice-líder, Red Bull, 238 pontos), Sebastian Vettel (terceiro, Red Bull, 231 pontos) e Lewis Hamilton, o mesmo de 2016 (quarto, McLaren, 222 pontos, com chances remotíssimas). E a prova foi cheia de surpresas e emoções, com um final histórico. Relembre abaixo como foi o Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2010 de Fórmula 1:

Até chegar ao choro do título de Abu Dhabi, Vettel viveu uma montanha russa de emoções (Foto: Ken Robertson/Getty Images)
Até chegar ao choro do título de Abu Dhabi, Vettel viveu uma montanha russa de emoções (Foto: Ken Robertson/Getty Images)

O ano de 2010 foi bastante movimentado na Fórmula 1. Com várias movimentações importantes entre as equipes (Fernando Alonso na Ferrari, Jenson Button na McLaren, volta da Mercedes com Michael Schumacher no plantel retornando da aposentadoria, entre outros), a temporada prometeu bastante. E não faltou emoção, com os postulantes ao título tendo trajetórias bastante particulares até a prova final em Abu Dhabi.

Fernando Alonso enfim estava na Ferrari, depois de anos e anos de especulações. O espanhol não teve o carro mais competitivo do grid (terceiro entre os construtores), mas fez um grande ano. Chegou ao fim vencendo cinco provas (Bahrein, Alemanha – com a polêmica ordem da Ferrari sobre Felipe Massa -, Itália, Cingapura e Coreia do Sul) e com 246 pontos, precisando apenas de um quarto lugar para ser tricampeão.

Logo atrás, vinha a dupla da Red Bull, que estava em pé de guerra. Mark Webber e Sebastian Vettel tiveram uma pesada batalha interna, que teve seus ápices na Turquia (quando Vettel provocou um acidente entre os dois quando lideravam) e na Inglaterra (a equipe preferiu dar a única asa dianteira nova que tinha a Vettel; Webber venceu e criticou a Red Bull durante todo o fim de semana).

Foi Alonso (dir.) que chegou em Abu Dhabi com a liderança na tabela (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Foi Alonso (dir.) que chegou em Abu Dhabi com a liderança na tabela (Foto: Paul Gilham/Getty Images)

Webber era considerado um piloto obsoleto, fora de hora na equipe, que não tinha a capacidade ideal de brigar pelo campeonato, mas chegou à corrida final em segundo, com 238, com quatro triunfos (Espanha, Mônaco, Inglaterra e Hungria). O australiano, apesar de uma regularidade levemente maior que os outros, teve problemas que o comprometeram durante o ano, como o acidente na chuvosa prova da Coreia que lhe tirou bons pontos.

Em terceiro vinha seu companheiro, Vettel, que era um dos azarões. O alemão foi duramente criticado por erros durante toda a temporada (como o acidente com Webber na Turquia, a precipitada largada na Inglaterra e a batida com Button na Bélgica) e ainda contou com alguns azares, como o problema no Bahrein e a quebra na Coreia, ambos quando lideravam (chegou em quarto na primeira e abandonou na segunda), sem conseguir liderar o campeonato em nenhum momento de 2010. Mesmo assim, chegou ao fim com chances.

O quarto e último postulante era Lewis Hamilton, mas com chances ainda menores. O inglês da McLaren chegou a Abu Dhabi com 24 pontos de desvantagem para o líder Alonso, com a vitória valendo 25 – ou seja, só um milagre lhe daria o bicampeonato. Hamilton venceu três provas (Turquia, Canadá e Bélgica), e chegou ser líder após a volta das férias de verão com a vitória belga, mas teve problemas capitais após aquele triunfo - como as batidas na Itália e em Cingapura – e se viu como o outro grande azarão para a decisão.

Os candidatos ao título em Abu Dhabi/2010, da esquerda para a direita: Vettel, Alonso, Hamilton e Webber (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Os candidatos ao título em Abu Dhabi/2010, da esquerda para a direita: Vettel, Alonso, Hamilton e Webber (Foto: Paul Gilham/Getty Images)

E Vettel mostrou que estava iluminado naquele fim de semana em Abu Dhabi já na sexta-feira, quando alternou a liderança nos dois treinos livres do dia com Hamilton. Alonso, que havia priorizado simulações de corrida durante a tarde, encerrou a sessão da noite em terceiro, com Webber em quarto – os postulantes ao título liderando o dia ao fim da sessão final.

No sábado à tarde, novamente os quatro “finalistas” lideraram o terceiro e último treino livre, com Vettel mais uma vez na frente, seguido por seu companheiro Webber, mostrando que a Red Bull, teoricamente, era o carro a ser batido em Yas Marina. Hamilton e Alonso fecharam o grupo. Todos estavam separados por menos de 1s, prometendo uma grande disputa na classificação.

Classificação essa que ratificou a superioridade de Vettel na pista. O alemão marcou a incrível décima pole-position do ano, seguido por Hamilton, Alonso e um “intruso”: Jenson Button. O inglês da McLaren, que passaria a coroa de campeão (levou a taça em 2009), apareceu entre os candidatos ao título, jogando Webber para o quinto posto. Caso o resultado se mantivesse na corrida, Alonso poderia comemorar o tri. Mas a prova foi uma caixinha de surpresas.

Vettel (centro), Hamilton (esq.) e Alonso (dir.) largaram na frente (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Vettel (centro), Hamilton (esq.) e Alonso (dir.) largaram na frente (Foto: Paul Gilham/Getty Images)

Na largada, Vettel disparou na frente, enquanto Hamilton era o segundo e Button assumia o terceiro lugar, jogando Alonso para quarto, com Webber em quinto. O resultado ainda dava a Alonso o tri, mas veio um dos momentos capitais da corrida: o acidente entre Michael Schumacher e Vitantonio Liuzzi.

Schumacher foi tocado pelo seu companheiro de Mercedes, um jovem alemão chamado Nico Rosberg, e foi atingido em cheio pela Force India de Vitantonio Liuzzi, que foi projetado para cima do carro do heptacampeão (quase atingindo sua cabeça). Apesar do susto, nada aconteceu, e o safety-car foi acionado, ficando na pista por quatro voltas. Alguns pilotos resolveram parar logo nesse intervalo, bagunçando as projeções de estratégias.

Quando a corrida recomeçou, Alonso não podia perder a quarta posição para Webber, pois essa situação lhe tiraria o título. Com 11 voltas, o australiano foi aos boxes, e ali a Ferrari cometeu a estratégia suicida: em vez de seguir os líderes da prova, os italianos resolveram seguir a tática de Webber. A Scuderia apostou em chamar Felipe Massa logo depois, para que ele segurasse Webber, mas o piloto da Red Bull voltou logo à frente. Alonso parou e conseguiu voltar à frente do australiano, mas tinha que ultrapassar uma montanha de carros pela frente. O tri começava a escapar.

Foram 39 voltas de Alonso atrás de Petrov (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
Foram 39 voltas de Alonso atrás de Petrov (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

Naquele momento, os líderes estavam com pneus macios que voltaram a render (foi a queda de desempenho deles no começo que instigou Webber e Alonso a pararem cedo). Com isso, os ponteiros começaram a abrir vantagem para segurarem suas posições após as paradas que teriam que fazer no fim da prova, enquanto os que pararam no início com o safety-car não voltariam mais aos boxes. Alonso voltou logo atrás de um deles: Vitaly Petrov.

O russo da Renault logo se tornou um dos principais personagens da corrida, pela dificuldade que impôs ao espanhol. O tempo passava, os dois subiam, mas Alonso tentava de forma cada vez mais agressiva e não conseguia ultrapassar. Para piorar a situação, o russo tinha um motor novo, contra um propulsor usado de três corridas do espanhol.

Quem tentou explicar melhor o caso complicado foi o também espanhol Marc Gené, piloto de testes da Ferrari à época e que comentava a prova pela TV local: “É uma série de circunstâncias. Não esperávamos (Ferrari) o safety-car, pois aqui há muitas áreas de escape, e a degradação dos pneus macios deveria ter sido maior. Configuramos o carro dele (Alonso) para defender, não atacar. Pensamos mais na classificação, o Petrov tem a terceira melhor velocidade máxima e ele é o 13º. E trabalhamos com a sétima marcha muito curta, então ele chega no limitador de velocidade antes de conseguir pegar o vácuo. Está complicadíssimo. Tínhamos tudo previsto na Ferrari, menos isso”, dizia preocupado.

Após a parada final, Vettel disparou na frente e não largou o campeonato (Foto: Clive Mason/Getty Images)
Após a parada final, Vettel disparou na frente e não largou o campeonato (Foto: Clive Mason/Getty Images)

Com as paradas no fim, Vettel voltou na liderança (que foi sua o tempo inteiro), e contava com os problemas de Alonso e Webber (que esteve apagado em todo o fim de semana) para levar a taça. E as coisas aconteceram como ele queria.

Alonso passou todas as 39 voltas restantes após a precoce parada atrás de Petrov, e não saiu da sétima posição (o espanhol reclamou bastante do russo após a corrida, em vão), enquanto Webber também não teve ritmo para conseguir sucesso e terminou em oitavo. Mantendo a liderança, Vettel cruzou a linha de chegada e, 44s depois, foi informado via rádio da situação, o que não havia acontecido em toda a prova (a Red Bull quis mantê-lo focado em sua corrida).

O alemão não se conteve. Ao se consagrar como o campeão mundial mais jovem da história (23 anos e 134 dias, recorde que é dele até hoje), Vettel chorou como uma criança no rádio, ao chegar nos boxes e no pódio. Entre os três primeiros, uma cena emblemática: Hamilton e Button, segundo e terceiro da prova, e que eram os dois campeões anteriores (o primeiro em 2008, o segundo em 2009), banharam de champanhe o mais novo campeão mundial. O reinado estava sendo justamente trocado de mãos.

Hamilton (esq.) e Button (dir.) passaram a coroa para Vettel (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Hamilton (esq.) e Button (dir.) passaram a coroa de campeão para Vettel em Abu Dhabi (Foto: Paul Gilham/Getty Images)

Aquele 14 de novembro de 2010 trouxe um final cheio de emoções, surpresas e disputas em Abu Dhabi. Tudo o que o fã de automobilismo espera para o 28 de novembro de 2016. Que venha a decisão!