Carta aberta para o Sr. Reunaud Lavillenie

Carta aberta para o Sr. Reunaud Lavillenie
Owens e Lavillenie competindo em Jogos Olímpicos

Sr. Renaud Lavillenie,

Nas imagens, temos dois atletas olímpicos. Dois expoentes e referências, cada um em suas modalidades. Dois recordistas mundiais. Dois craques.

O primeiro deles é Jesse Owens. Atleta e líder civil norte-americano. Jesse ganhou 4 medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Verão de 1936 em Berlim, na Alemanha. Infelizmente, Jesse entrou para a história do esporte, não só por sua participação espetacular dentro do estádio olímpico de Berlim, mas também por ter sido vítima de racismo por parte do alto escalão alemão, por ser um atleta negro.

Jesse Owens abalou a noção racista, não só da Alemanha, mas da nação americana do século XX. Na época, não foram as atitudes de Hitler que magoaram o atleta, mas o fato de o presidente norte-americano Franklin Roosevelt não ter, sequer, lhe mandado um telegrama felicitando-o por suas conquistas.

Na outra imagem, temos você. Atleta francês, recordista mundial no salto com vara e vencedor de uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012 em Londres, e de uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, no Rio de Janeiro, perdendo a final para o brasileiro Thiago Braz. Durante os momentos que antecederam o salto que rendeu a medalha de ouro para o brasileiro, você estava nitidamente irritado pelo fato de estar sendo superado. Atitude essa, absolutamente normal para um atleta de auto nível e atual campeão olímpico. Depois que Thiago saltou 6,03m, você se desesperou. Com apenas uma tentativa restante, foi para o tudo ou nada e tentou saltar 6,08m. E então, tudo aconteceu. Quando você estava preparando-se para seu último salto, o público brasileiro começou a vaiá-lo. Você errou, perdeu e irritou-se.

Depois da derrota, nitidamente chateado, você sequer cumprimentou o brasileiro. Pior do que isso, foi criticar, publicamente, a atitude do público brasileiro. Segundo o Sr., a atitude do público foi “uma vergonha” para o país e disse que não merecíamos estar em um estádio olímpico.

Agora, deixe-me explicar-lhe uma coisa: nós, sul-americanos, reagimos de uma maneira mais humana e passional do que vocês, europeus. Agimos com emoção quando estamos falando de esporte. Pulamos, gritamos, choramos, rimos e vaiamos. Não acho que nossa atitude tenha sido desrespeitosa. De maneira nenhuma. Apenas estávamos testando o emocional de um atleta campeão olímpico, que podia sim, naquele salto, levar a medalha de ouro do nosso atleta da casa. Você é um gigante do esporte, e por ser você, foi vaiado.

Portanto, Sr. Lavillenie, não faça comparações ABSURDAS e respeite a memória de Jesse Owens. Nós não estamos contra você, nós torcemos contra nossos adversários. Espero que fique claro também para os brasileiros que estão criticando a atitude dos torcedores de exercerem seu papel nos jogos.

Se nós somos maus torcedores, Renaud Lavillenie é mau perdedor.