A luta pelo reconhecimento feminino no futebol

Especial sobre as barreiras enfrentadas para a prática do futebol feminino

A luta pelo reconhecimento feminino no futebol
Foto : Rafael Ribeiro / CBF

Uma bola, uma equipe de jogadores e as traves, isso faz qualquer espaço se tornar um local abençoado pelos deuses do futebol.

Mas para as mulheres que admiram e querem se profissionalizar na área do esporte mais popular do mundo não é tão fácil ser aceita pela sociedade.  Apesar da influência significativa que o futebol tem na cultura brasileira, a figura da mulher sofre preconceitos desde o princípio. Houve uma época que o futebol feminino era exibido em circos como atrações curiosas, parece até brincadeira, não é?

Até hoje as mulheres que decidem seguir essa carreira sofrem com a falta de incentivo e não conseguem se firmar. Na maioria das vezes, as jogadoras não são registradas em nenhuma federação esportiva, pois não há uma instituição responsável por administrar a modalidade no Brasil. Por causa disso, nem todas as atletas recebem salário ou ajuda de custo de seus clubes, e muitas ganham menos que um salário mínimo. A falta de patrocínio e divulgação são as maiores barreiras enfrentadas no Brasil para a prática do futebol feminino.

Um fato que comprova essa barreira entre os gêneros é o Decreto-Lei 3.199, de 1941, que ficou vigente até 1975, quando ainda era proibida a prática de futebol para as mulheres. Já em 1964, o Conselho Nacional de Desportos (CND) proibiu o futebol feminino de ser praticado e essa decisão somente foi anulada em 1981, mas elas não poderiam se profissionalizar.

De certa forma, a mídia também tem um pouco de culpa nessa situação, por não dar importância à atleta feminina tanto quanto ao masculino, e quando abre uma exceção, acaba enfocando a beleza da mulher, o "corpo", a questão da sexualidade, e não o esporte em si.

O primeiro registro da mulher como jogadora de futebol foi em 1921, entre as senhoritas tremembenses x senhoritas catarinenses. A partida foi anunciada no jornal A Gazeta como atração curiosa das festividades de São João.

Voltando um pouco na história pode-se encontrar indícios de que a prática de esporte tinha domínio masculino, como comprova o Decreto-Lei 3.199, de 1941, vigente até 1975, que, em seu artigo 54, estabelece que "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". E, em 1965, o Conselho Nacional de Desportos delibera que as entidades desportivas devem seguir a seguinte norma em relação à prática esportiva das mulheres: "Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol". Hoje, essas normas não têm validade, mas ainda há muito que mudar (BRUHNS, 2000).

Como se não bastasse, jornais que apoiavam o jogo feminino começaram a ceder às posições dos médicos que condenavam a prática do futebol por mulheres, e, consequentemente, as reportagens começaram a aderir à posição dos médicos. O argumento utilizado era que tal esporte prejudicava os órgãos de reprodução, afirmando que era grande a possibilidade de trauma causado por uma bolada ou trombada, mas esquecendo-se que os homens também têm órgãos reprodutores que devem ser protegidos dos impactos.

Carta de um cidadão a Getúlio Vargas

[Venho] Solicitar a clarividente atenção de V. Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. Refiro-me, Snr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraíndo-as para se transformarem em jogadoras de futebol sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe.... Ao que dizem os jornais, no Rio, já estão formados, nada menos de dez quadros femininos. Em S. Paulo e Belo Horizonte também já estão constituindo-se outros. E, neste crescendo, dentro de um ano, é provável que, em todo o Brasil, estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes. (José Fuzeira, carta datada de 25/04/1940 In - SUGIMOTO, Luiz. Eva futebol clube, 2003).

Esta carta mostra a preocupação de um cidadão, e foi como uma "premonição", pois poucas décadas depois, no início dos anos 80, 200 times aguardavam a liberação e oficialização do esporte no Brasil, pela CND, que teve que garantir que pretendia oficializar, pois já reconhecia que a prática já havia se tornado popular pelas mulheres (BRUHNS, 2000).

FUTEBOL FEMININO NA ATUALIDADE

As dificuldades daquela época ainda não foram vencidas, mesmo que a sociedade esteja começando a mudar de ideia, a discriminação ainda é muito grande, o pensamento que “meninos devem brincar de carrinho e de futebol, e meninas só devem brincar de bonecas e casinhas” é muito forte.

 A mulher no esporte em geral, é lembrada não por seu desempenho ou conquista, mas pela sua beleza e sexualidade frente ao que a mídia retrata, "o jogo bonito de se ver" não está relacionado o jogo em si, nem ao aspecto estético das belas jogadas, mas às pernas das jogadoras, às "sainhas e bermudas", enfim, associado a imagem veiculada e vendida pela indústria cultural, determinando padrão de beleza feminina, que confunde a estética do jogo com a estética do corpo (BRUHNS, 2000).

A profissionalização no Brasil é acentuadamente difícil, visto que não há uma entidade forte que organize o futebol feminino e também não há investimento público nem privado (SUGIMOTO, 2003). Nos EUA, o futebol é visto como esporte feminino, enquanto que em 1994 foi o vice-presidente quem entregou a Taça ao capitão da seleção brasileira, Dunga, e em 1996 foi o próprio Bill Clinton quem entregou a Taça pelo mesmo evento, porém feminino. O que não significa que a mulher é bem mais reconhecida lá do que é aqui nos esportes, frente que a mesma não tem vez no futebol americano e no beisebol, dois dos esportes mais difundidos nos EUA (SUGIMOTO, 2003).

Enquanto não há um reconhecimento por parte da sociedade, algumas mulheres vão se envolvendo com o futebol por caminhos diferentes, sem necessariamente precisar ser atleta: Campeonato Brasileiro de Futebol. A disputa era entre São Paulo e Guarani. Estádio lotado, jogadores a postos e torcida animada. Eis que entra em campo a equipe de arbitragem. Nesse momento, muitos não acreditavam no que viam. Outros estavam indignados. Alguns ficaram sem reação. O motivo dos diversos sentimento era a trio de arbitragem, 100% feminino, composto por Sílvia Regina de Oliveira e as assistentes Ana Paula da Silva e Aline Lambert (...) (Revista Mulher e Carreira, agosto de 2004, p. 24).

Isso comprova que a mulher vem ganhando cada vez mais espaço no futebol, e que apesar de tanto preconceito, a luta pelo seu próprio reconhecimento no esporte continua.

FUTEBOL FEMININO BRASILEIRO

Oficialmente, a primeira convocação da CBF para a Seleção Feminina foi em 1998. A modalidade se resumia a poucos times do Rio de Janeiro, lideradas pelo Radar, que de 18 jogadoras convocadas, cedeu 16 para os primeiros jogos da seleção.

Em 1991 a Seleção Brasileira disputou o Sul Americano em Maringá e se classificou para o Mundial na China. O presidente Radar e chefe da delegação Eurico Lira tirou do próprio bolso os gastos da competição, já que a CBF não liberou a verba para cobrir 3,5 milhões de cruzados de gastos previstos para competição. Eurico chegou a dizer que fez isso porque ou “decretava a morte dessa modalidade ou impulsionava”.

Com a 9º classificação no Mundial da China em junho de 1991, a Seleção Brasileira em 1995 conseguiu o patrocínio da Maizena. No Sul Americano que aconteceu em janeiro do mesmo ano em Uberlândia, 72 mil pessoas apoiaram o Brasil na vitória sobre a Argentina. O Mundial na Suécia aconteceu no mesmo ano e o Brasil repetiu a classificação no Mundial da China.

A vaga para disputar até então as Olimpíadas de Atlanta havia sido perdida, pois a Seleção Brasileira saiu na primeira fase do Mundial da Suécia. A ida da Seleção para Atlanta só aconteceu porque a Inglaterra, sexta colocada no Mundial de 1995, não pode ir.

Mas aquele grupo soube aproveitar muito bem a oportunidade que receberam e voltaram com um quarto lugar e alavancaram o futebol feminino no Brasil. E em 1996, o futebol feminino foi incluído na lista dos esportes olímpicos.

Nesse mesmo ano, a empresa Sport Promotion juntamente com a TV Bandeirantes, foram as primeiras a acreditar e investir no futebol feminino no Brasil. Foi criado o primeiro Campeonato Paulista, conhecido como Paulistana, com transmissões pela TV Bandeirantes e narração do grande e eterno Luciano do Vale. Os jornais Gazeta Esportiva, Lance, Folha de São Paulo, davam semanalmente um resumão com resultados dos jogos, entrevistas e notícias sobre os Campeonatos nacionais e da Seleção Brasileira.

Com todo esse apoio, a Seleção Brasileira conquistou o Tri Campeonato Sul Americano realizado em 1998 em Buenos Aires e conquistou o 3º lugar do Campeonato Mundial realizado em 1999 nos EUA. Com isso veio a classificação para as Olimpíadas de Sidney em 2000, onde a Seleção repetiu o quarto lugar conquistado na Olimpíada passada.

Nas Olimpíadas 2016, o sonho do ouro olímpico acabou nas semifinais e a equipe ficou com o quarto lugar na competição. Após a eliminação as jogadoras fizeram o pedido que todos nós queremos: dia ver o futebol feminino mais valorizado e respeitado.

Aproveito a oportunidade para parabenizar as atletas pioneiras do futebol feminino, que quebraram diversas barreiras para ele estar onde está hoje, são elas: Sr.Iara, Liça, Simone, Russa, Suzana, Mariza, Elane, Fia, Sissi, Roseli, Pretinha, Pelezinha, Fanta, Marcinha, Cebola, Solange, Michael Jackson, Flordelis, Suzy, Sandra, Lúcia, Nalvinha, Leda Maria, Formiga, Meg, Nenê, Tânia, Márcia Taffarel, Formiga, Kátia, Marta entre tantas outras.

Obrigada por vocês terem lutado durante tanto tempo diante das dificuldades, vocês mais do que nunca, fazem parte das conquistas atuais do futebol feminino.

"Não é a identidade feminina que requer reconhecimento, mas sim a condição das mulheres como parceiras plenas na interação social" (FRASER, 2000).