Fichas no Pano, capítulo 4: o money e o começo de tudo

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o quarto de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Fichas no Pano, capítulo 4: o money e o começo de tudo
Fichas no Pano, capítulo 4: o money e o começo de tudo

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o quarto de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Em Ponta Grossa, por exemplo, mais de cem pessoas participaram da última etapa do ‘1º Campeonato Pontagrossense de Poker’, organizado pela Araxá Poker Esportes, realizado no dia 8 de abril de 2017. Esse evento bateu recorde e agora é o torneio que mais distribuiu dinheiro na cidade sendo disputado num único dia (mais de R$15 mil) segundo os organizadores.

O poker é um jogo em constante evolução na aplicabilidade de suas estratégias, e isso faz com que o debate na internet — uma ferramente importantíssima para o desenvolvimento do esporte — muitas vezes feito entre os jogadores, que discutem suas próprias ações em determinado momento do jogo, ganhe força.

Entre os livros destaco o do brasileiro Carlos Mavca, ‘A Essência do Texas Hold’Em’, usado inclusive em curso sobre poker na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), pelo professor Paulo Longo, que gentilmente cedeu o material que serviu de base para ministrar suas aulas — acervo que conta com mais de 300 páginas de conteúdo.

Concretizando a imagem que eu já tinha, conheci, no último dia de torneio, mãe e filho que estavam em Foz jogando juntos. Estávamos acompanhando a mesa final do Main Event quando ambos sentaram-se atrás de mim. Eu, que havia fotografado aquela senhora há dois dias, reconheci o semblante e mostrei a fotografia pra ela.

Jogadora vencedora de torneio classificatório (e clicada por mim) enfrenta o “esteriótipo” do poker player — capuz e boné — à esquerda

 

Conversamos sem desgrudar os olhos da ação que consagraria Rodolfo Tanaka, natural de Foz do Iguaçu, campeão do evento principal… tudo isso enquanto a imprensa local (além da especializada) já havia percebido que estava bem ali na sua frente o seu próprio conto de fadas. Um morador de Foz do Iguaçu, dealer de um clube da cidade, jogador não profissional e que derrota um estrangeiro (o paraguaio José Pedro Arzamendia) no heads-up. Existiam ali muitas semelhanças com a história de Chris Moneymaker para serem ignoradas pela imprensa, assim como a ESPN norte-americana não ignorou a história do contador do Tennessee.

Toda a grandeza do poker a nível nacional foi demonstrada em Foz do Iguaçu. Ela fica clara e evidente quando você está dentro de um evento como o BSOP, quando respira o mesmo ar que 1.256 jogadores inscritos “apenas” no Main Event. Quando divide espaço com 83 dealers — entre eles brasileiros, brasileiras, paraguaios e um argentino.

Quando você percebe que seis pessoas estão designadas — a cada turno de oito horas — para fazer a limpeza dos salões de jogos. Quando são contratados doze seguranças extras apenas para a segurança dos jogadores. Quando sete pessoas — duas com as quais tive a honra de conviver — estão responsáveis pela produção e edição de vídeos especificamente para aquela etapa do BSOP. Quando, além de dealers, mais doze pessoas circulam pelo salão a fim de manter a organização do torneio. Quando, além de tudo isso há nove pessoas responsáveis apenas pela inscrição dos jogadores — e mesmo assim, em alguns horários, era possível ver filas nesse setor.

Quando um olhar atento percebe onze garçons e caixas trabalhando nos bares para atender e servir os jogadores (e apenas os jogadores). Quando, além disso, uma equipe de seis massagistas circula pelo salão (e cobram R$60 por quinze minutos do seu serviço — ou R$190 por uma hora). Quando você vê tudo isso é impossível negar: esse esporte é grandioso, e pouco tem a ver com a sorte.

MONEYMAKER E O COMEÇO DE TUDO — ATÉ PRA MIM

O meu destino inicial na tríplice fronteira era o Hostel Nature — e descobri logo de cara que uma semana lá seria bastante aconchegante e inspiradora, além de ser uma ótima oportunidade para treinar meu inglês — o que era ótimo. No primeiro dia em Foz eu ainda tinha esperança de entrevistar Chris Moneymaker e pra isso precisaria da língua estrangeira afiada.

Apesar de eu mesmo ter escolhido esse lugar cujas razões da escolha foram o preço e a distância até o local do evento (são 4,9 quilômetros e eu conseguiria pegar ônibus até o Wish se precisasse) o Nature me encantou e foi um dos fatores que fizeram com que o meu nervosismo passasse. Até as primeiras horas do primeiro dia — enquanto coloquei essas palavras no papel — minha experiência foi nada menos que ótima.

Fiquei refugiado no bairro Remanso Grande, um dos primeiros bairros da cidade, e dividimos espaço com fazendas, ranchos, pousadas e coisas desse tipo. Nem o taxista sabia ao certo onde ficava. Eu, pela primeira vez em Foz, muito menos. Achei que um GPS ajudaria, mas embarquei no carro com dez por cento de bateria. Como vocês sabem, o Google Maps é a Ferrari dos aplicativos de celular: gasta muita bateria (a Ferrari, obviamente, gasta combustível).

A extravagância continuaria: fui atendido por uma versão simplória do Gustavo Kuerten — que mais tarde fui descobrir que era sul-africano, Lawrence, da Cidade do Cabo. Obrigado pelo bom café que você faz, e por ter guardado meus cartões quando perdi eles, cara!

Ele falava um português que me fez desconfiar que eu estava sendo atendido por um argentino — o que seria comum aqui — mas conseguimos nos entender. Depois de checar meus documentos ele pediu pra que eu guardasse minhas malas sem fazer muito barulho porque ainda havia gente dormindo no quarto que eu dividiria — eram 8h20 da manhã quando cheguei naquele lugar tranquilo, um pedaço de mundo que me fez sentir estrangeiro por uma noite, mas sim, estávamos no Brasil.

Infelizmente as partes de baixo dos beliches estavam ocupadas e eu, que não tenho muita facilidade com locomoção — por causa de espasticidade nos membros inferiores causada por paralisia cerebral — tive que ficar com a parte de cima de um deles. Entrei no quarto pronunciando um tímido “hi” sabendo previamente que o hostel recebia muitos estrangeiros já que Foz é uma cidade turística e guarda uma das maravilhas naturais do mundo — as Cataratas do Iguaçu. Minha estratégia de comunicação deu certo e obtive resposta. Uma moça com, 23 anos respondeu em um inglês quase tão tímido quanto o meu — eu entendia as palavras, me faltava conversação.

Meu quarto no primeiro dia. Neste pequeno espaço me senti um estrangeiro, mesmo no Brasil.

 

Deixei minhas malas encostadas na parede, esvaziei a mochila a fim de trazer apenas o necessário para o Golf e saí do quarto cheio de esperança. A principal delas era fazer um bom trabalho.

Quem também tinha esperança era Chris Moneymaker. Agora contratado pelo PokerStars Christopher Bryan é nascido em Atlanta, capital do estado americano da Georgia. Não obstante Moneymaker — como é mais conhecido — foi criado no T