Fichas no Pano, capítulo 3: os triunfos do Poker

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o terceiro de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Fichas no Pano, capítulo 3: os triunfos do Poker
Fichas no Pano, capítulo 3: os triunfos do Poker

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o terceiro de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Nós estávamos em algum lugar perto de Guarapuava quando as drogas começaram a fazer efeito. Eu, ao contrário de Raoul Duke — alter ego das peripécias de Hunter Thompson no clássico gonzo ‘Medo e Delírio em Las Vegas’ — não tinha ninguém com quem gritar a bordo de um conversível “maybe you should drive” — na verdade eu já estava sendo conduzido e, mesmo que gritasse, o senhor atrás do volante não me ouviria. O motorista do ônibus que me faria chegar até Foz não tinha mínima condição de saber que eu — pra cobrir o evento mais importante de poker do Paraná no ano — havia me drogado.

A droga, no entanto, era legalizada, e ao contrário do doutor em jornalismo sr. Duke, eu não estava sendo atacado por morcegos criados a partir de uma alucinação causada pelo abuso de substâncias ilícitas — nem nada do tipo. Eu ingeri o Exodus 15mg — oxalato de escitalopram.

Eu realmente me sentia como David Foster Wallace em ‘Uma Coisa Supostamente Divertida que eu Nunca Mais Vou Fazer de Novo’. Nas primeiras horas ficou nítido que eu não fazia parte daquele nicho de pessoas, mas era engraçado e curioso observá-las — elas se moviam com naturalidade espantosa.

Os jogadores estavam reunidos no resort para disputar uma premiação que certamente ultrapassaria os quatro milhões de reais. O evento principal concedeu ao grande campeão 379 mil reais depois de três dias de disputa. Os eventos paralelos complementariam o montante. A imprensa, por sua vez, reunida para conseguir a melhor cobertura possível desse evento comemorativo e especial. O staff reunido e treinado para que nada saísse absurdamente do controle… Tudo para que um dos maiores eventos de poker da América Latina transcorresse em paz e tranquilidade. Ninguém queria que algum jogador bêbado e frustrado arrastasse outro para as profundezas da piscina, afinal. Discussões sobre mãos de poker podem ficar calorosas.

Cada passo que eu dava aqui — no Wish e em Foz — era extremamente cuidadoso para não tropeçar e dar de cara em alguma peça de decoração — pela qual eu provavelmente trabalharia uns três meses para pagar caso derrubasse. Depois constataria que não havia motivos para nervosismo. A comunidade do poker é, em geral, bastante acessível e amigável… apesar de tudo, o poker ainda é um jogo de sociabilidade. É impossível jogar poker sozinho — até na internet você precisa de um adversário.

Enquanto você não está escrevendo uma reportagem, esse é um dos espaços dos quais você pode desfrutar no Wish Resort Golf Convention, em Foz do Iguaçu

 

Pouco tempo após me instalar no lobby do hotel — que para mim já era bom o suficiente — paguei R$6 num café com leite acompanhado de uma bolacha de manteiga e 50ml de água gaseificada. Se eu bebesse o café com vontade ele não me daria um gole completo, por isso economizei e transformei a dose a conta gotas em quatro sessões de sucção. Esse foi um dos primeiros gestos que fiz pensando em ‘bom, vamos manter algum nível de dignidade e fingir que eu tenho dinheiro pelo menos pra tomar um café aqui’. Não posso negar que deu certo.

Nada para se exaltar nisso, mas eu fui o primeiro jornalista a chegar no Wish Resort Golf Convention. Ao chegar antes do que era esperado para a imprensa (ao meio-dia) eu vi coisas que outros não viram, por exemplo: palmeiras sendo implantadas (ou reimplantadas?) e banners sendo colocados em seus devidos lugares; vi jogadores argentinos chegando numa van que parecia aquelas que os filmes hollywoodianos usam para cenas de raptos de pessoas.

Vi outros irmãos latino-americanos com camisetas do Olímpia e do Racing por exemplo ficarem super satisfeitos com a realização de chegar até aqui. É quase tão maluco presenciar essas coisas quanto o realismo mágico de Gabriel Garcia Márquez. A história parece absurda tanto quanto o Jornalismo Gonzo permite que seja: cheguei em Foz do Iguaçu poucas horas antes da quinta etapa do BSOP no ano começar.

Em retrospectiva sei que, entre decepções e coincidências, tive mais sorte do que azar nesse curto prazo de uma semana (e se você leu até aqui vai entender bem o que eu quero dizer quando falo em sorte no ‘curto prazo’) — fiquei hospedado em Foz entre os dias 31 de agosto e 6 de setembro, um a mais que a duração do torneio. O prazo foi curto, mas não posso dizer que não foi bem aproveitado, pelo contrário.

Em tempos modernos, onde não podemos “perder tempo” com nada é o dinamismo do jogo que apaixona. Apaixona porque esse dinamismo está — bem ou mal — enraizado na nossa cultura. E é por isso que eu escolhi esse tema para o meu Trabalho de Conclusão de Curso. Sou um apaixonado por poker e não tenho vergonha alguma em admitir isso.

Em Foz eu estive num ‘Grande Congresso de Apaixonados por Poker’ (que também aproveitam para ganhar dinheiro) e me senti muito confortável afora a pressão de fazer um bom trabalho jornalístico. Ao serem perguntadas sobre o que fariam caso parassem de jogar poker depois do BSOP muitas pessoas me respondiam ‘você me veria no cemitério’. Foi o caso, por exemplo, de Felipe Mojave também parte do time PokerStars.

Com 34 anos o paulista de São Bernardo me respondeu isso com sinceridade. Estávamos sentados numa das mesas do salão principal do evento. E Mojave, (que em 2017 foi considerado um dos 25 melhores jogadores de poker do mundo pelo Global Poker Index — site que indica resultados de jogadores online e em torneios “ao vivo”) não hesitou… Dá pra perceber que esses caras não estão brincando: o poker é realmente a vida deles. Eu, como jogador de poker e constante analista de adversários nesses últimos meses, conseguia ver isso nos olhos dos entrevistados.

Mojave me falou também sobre a sua paixão pela música — quando não está nos feltros ele produz os mais diversos gêneros musicais — e apostou que, se parasse com o poker e mesmo assim tivesse que continuar vivo, se embrenharia em algum projeto que envolvesse música eletrônica. Imagino o paulista do ABC produzindo algo como “One Day as a Lion” — projeto que envolveu Zack de la Rocha, ex-Rage Against the Machine.

Além do poker e da música, Mojave também é apaixonado por futebol. Na adolescência ele tentou trilhar caminhos nos gramados, mas logo percebeu que aquele não era seu terreno. Ele se daria muito melhor nas mesas de poker. Nos feltros, Mojave já acumula mais de 3,5 milhões de reais em prêmios desde que se profissionalizou, em 2008.

E Foz do Iguaçu provavelmente seria um bom lugar se ele quisesse fixar residência: o Wish Resort tem tudo (ou, pode oferecer tudo) de que Mojave mais gosta: torneios de poker, um campo de futebol de tamanho oficial — onde inclusive treina o time da cidade, o Foz do Iguaçu e um campo de golfe com 18 buracos.

Confira abaixo a entrevista de Felipe Mojave

“Se eu parasse de jogar poker hoje, você me veria no cemitério”. Mojave comenta a paixão pelo esporte, o desenvolvimento da carreira, aconselha jogadores que querem se tornar profissionais e fala sobre uma de suas grandes paixões: a música

Projetado pelo americano Erik T. Larsen, o campo de golfe do Wish Resort é considerado um dos melhores da América Latina, e, num rápido tour que fiz por ele a bordo de um carrinho de golfe, pude perceber que estes simulacros de buggyes são indispensáveis. O sol e a quase inexistência de árvores no campo designado às tacadas tornam praticamente impossível a tarefa de cobrir a distância dos dezoito buracos a pé.

Uma das técnicas que usei para conseguir entrevistas com os jogadores mais requisitados do torneio, entre eles Mojave, foi a seguinte: eu ficava literalmente marcando-os, como um bom zagueiro no futebol. Mais ou menos à lá Gay Talese tentando entrevistar Frank Sinatra no famoso texto “Frank Sinatra has a Cold”; a diferença: Talese não conseguiu falar com o astro da música e fez um texto genial, talvez o perfil mais famoso da história do jornalismo. Eu consegui falar com as minhas fontes primordiais, mas duvido que em algum momento meu texto possa ser comparado ao do mestre do jornalismo norte-americano. Vi Mojave já no segundo dia de torneios.

E, bom, quando esses caras começam a jogar poker eles só param nos intervalos programados pela grade de torneio. Então, se você quer entrevistar alguém, é importante que você saiba em que mesa essa pessoa está quando os jogadores estiverem perto de um intervalo — foi assim que eu falei com Mojave, depois André Akkari e ainda com Marcos Sketch.

A única exceção talvez tenha sido Igor Trafane, o “Federal”. Por oito anos Trafane foi o presidente da Confederação Brasileira de Texas Hold’Em (CBTH) e um dos grandes responsáveis pela diminuição do preconceito em relação ao esporte no Brasil.

Foi sob a gestão de Trafane, que em 2014, o então Ministro do Esporte, Aldo Rebelo inaugurou uma edição do BSOP em São Paulo. Aquela edição específica contou com a presença de Ronaldo (o ex-jogador de futebol que também já foi garoto-propaganda do PokerStars, a exemplo de Neymar). Foi também com Trafane presidente que a CBTH esteve representada em audiência na Câmara dos Deputados que discutiu o Marco Regulatório dos Jogos no Brasil. Foi Trafane quem “advogou” a favor dos esportes da mente e E-Sports naquela oportunidade.

 

Já em 2016 Trafane dizia aos deputados com a firmeza que os seus quase dois metros de altura lhe permitem ter que era necessário criar uma legislação específica para o poker e os outros esportes da mente, apartando-os dos jogos de azar. Assim, ninguém mais ficaria na dúvida sobre poder ou não manejar as cartas a fim de ganhar dinheiro.

Sob a tutela de Trafane — ajudado pelos resultados de Goffi, Akkari, Mojave e Bruno Foster especialmente — o poker no Brasil dá passos tão largos quanto o seu próprio ex-presidente consegue, com todo seu tamanho. Os passos são em direção à um melhor entendimento sobre como funciona o jogo, em direção a uma aceitação da sociedade e por fim, uma regulamentação que não prejudique a indústria já formada em torno deste esporte.

O poker ainda vai crescer no Brasil, não tenho dúvidas disso. Talvez torne-se um jogo tão comum quanto era o xadrez na minha infância — sobre o qual nunca ninguém questionou a legitimidade do uso de estratégia, e vejam só: poker e xadrez fazem parte do mesmo grupo de esportes.

Falando sobre isso Trafane passa a confiança e credibilidade que só alguém que ficou oito anos à frente da organização máxima do esporte no país pode passar. Encontrei Federal no lobby do hotel. Num momento em que ele estava com a família, em confraternização, eu achei que seria pouco conveniente me aproximar. Ao mesmo tempo também sabia que aquela podia ser a única oportunidade. E, se alguém está autorizado a falar sobre a situação legal do poker no Brasil, esse alguém é Trafane. Aqui eu dei meu primeiro passo pra vencer os bloqueios que o receio impõe a um jornalista principiante e sem muita autoconfiança. Os escritores são famosos por cultivarem grandes egos, mas, com humildade, posso afirmar que não é meu caso. Na verdade eu estava lisonjeado pelo fato de dividir o espaço do Wish Resort com caras que admirava.

Esperei então que as coisas se arrefecessem e as crianças que cercavam Trafane diminuíssem um pouco o ritmo das brincadeiras. Mais uma vez, assim como fiz com Goffi, me apresentei. Trafane foi receptivo, mas também firme. O cumprimento de mãos deixou evidente que ele tinha autoridade. Mas era uma autoridade gentil. Ele pediu pra que eu puxasse uma cadeira, e eu fui logo pedindo licença pra me sentar ao seu lado.

Conversamos sobre o propósito da minha reportagem, e ambos chegamos no tópico “como é difícil convencer as pessoas de que o poker não é um jogo de azar”: “Tá vendo esse pessoal aqui?”. Indagou Trafane, mostrando a própria família. “Pois é cara, o movimento que você tá fazendo agora, com a sua reportagem, eu tive que fazer há muito tempo, é difícil.” Concluiu, orgulhoso ao dizer que, agora, toda a família o acompanha no circuito do poker — pelo menos quando pode.

O poker brasileiro, através de sua Confederação Brasileira de Texas Hold’em busca a regulamentação do esporte por meio de um texto de lei que separe esta prática (o poker, um esporte de habilidade), dos jogos de azar. Frize-se que este esporte é responsável pela segunda maior premiação monetária do Brasil no que diz respeito à eventos esportivos e suas federações, ficando atrás apenas do campeonato brasileiro de futebol — o que confere ao poker destaque no cenário nacional.

É bem possível, como foi demonstrado até aqui, perceber a formação de uma comunidade de jogadores na cidade nos últimos dez anos — especialmente no cenário nacional. Segundo a Confederação Brasileira de Texas Hold’Em (CBTH) esta é a modalidade de poker mais praticada em todo mundo, e estima-se que, apenas no Brasil, existem aproximadamente sete milhões de jogadores das mais diversas modalidades do poker.

Trafane afirma desde sempre: “a regulamentação é fundamental, vai possibilitar mais empregos, permitirá que quem trabalha com o esporte se organize coletivamente, eventualmente até em sindicatos, vai gerar mais impostos. Nossa luta é para regulamentar, porque legal já é”.

Esta prática vem crescendo no Brasil — que realiza o maior evento ligado ao esporte fora de Las Vegas, o BSOP Millions — e no mundo todo, especialmente após o “fenômeno Moneymaker” quando, em 2003, Chris Moneymaker, um jogador amador de poker, ganhou o ‘Main Event’ da World Series of Poker(WSOP), campeonato mais importante da modalidade, realizado em Las Vegas, nos Estados Unidos.

Percebe-se desde então uma crescente organização dos jogadores em torno do esporte. Essa “crescente organização” desencadeia outros processos, como o aumento do número de jogadores em várias cidades paranaenses, a melhora na qualidade técnica do jogo — já que os jogadores se veem obrigados a estudar os pormenores do poker para competir em alto nível a fim de continuarem ou se tornarem cada vez mais lucrativos — e a organização e estruturação de torneios. A isto estão ligados interesses econômicos e legais, como já indicamos anteriormente. Não à toa Foz do Iguaçu está na rota do Brazilian Series of Poker.

Do ponto de vista legal, no entanto, ainda há divergência. Apesar de o ex-presidente ‘Federal’ afirmar que o poker é legal, muitas casas que oferecem a prática do jogo ainda sofrem interferência judicial e chegam a ser fechadas, mesmo que por pequenos períodos — como a casa ‘Amigos do Carteado’ de Lages, em Santa Catarina, cuja decisão judicial decorrente deste fato orienta outras decisões no mesmo sentido em todo território nacional.

Uma decisão judicial que tem orientado a maioria de todas as outras decisões posteriores relacionadas a esse tópico foi assinada pelo juiz Silvio Dagoberto Orsatto em 17 de dezembro de 2010, dando parecer favorável à casa “Associação dos Amigos do Carteado de Lages”.

Decisão judicial em favor dos ‘Amigos do Carteado de Lages’ (SC), que tem orientado outras decisões no mesmo sentido

 

No entanto, as decisões não são unânimes, como já apontado: em notícia divulgada no Portal Super Poker em 20 de março de 2015 lê-se o seguinte:

“Na tarde da última quarta-feira, 18 de março, fomos surpreendidos por uma ação policial coordenada pela Delegacia Especializada em Atendimento ao Turista em nossas dependências. As atividades do clube foram imediatamente paralisadas e todos os presentes foram conduzidos para prestar esclarecimento na DEATUR. Logo em seguida todos foram liberados.”

Tal ação e o desconhecimento policial causou grande estranheza a todos os presentes e também a toda comunidade do poker nacional, uma vez que é de conhecimento público todos os avanços e vitórias alcançadas pela Confederação Brasileira de Texas Hold’em na luta pelo reconhecimento do poker como esporte de habilidade.

São dezenas de vitórias jurídicas favoráveis a nossa causa, sempre amparadas por pareceres favoráveis dos mais respeitados juristas do país, como o do ex-ministro da justiça Miguel Reale Jr., e também por laudos e perícias técnicas dos principais institutos nacionais e internacionais. Destaque nesse caso para o laudo do próprio Instituto de Criminalística (IC) da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP/SP), órgão máximo da polícia paulista.

Apesar disso, a legitimidade do jogo ainda gera dúvidas. Questiona-se, em fóruns de internet destinados ao tema, por exemplo, como um esporte que envolva cartas pode não estar diretamente relacionado à sorte.

Em 30 de março de 2016 ocorreu uma reunião deliberativa na Câmara dos Deputados sobre o Projeto de Lei 0442 de 1991, sessão requerida pelo deputado Nelson Marquezelli e presidida pelo deputado Guilherme Mussi. O texto do PL — ligado diretamente a este tema — dispõe sobre o ‘Marco Regulatório dos Jogos no Brasil’, e para falar sobre poker foram convidados André Akkari, um dos principais jogadores de poker do Brasil, e Igor ‘Federal’ Trafane, então presidente da Confederação Brasileira de Texas Hold’Em (CBTH).

Os “jogos de azar” — categoria à qual, no imaginário coletivo, o poker esteve e ainda está, vide o caso da novela citada acima, associado erroneamente por muito tempo — são proibidos no Brasil desde a instituição do Decreto de Lei nº 3688 de três de outubro de 1941.

Cabe ressaltar que a Lei de Contravenções Penais em seu Artigo 50, inciso terceiro dispõe o seguinte:

§ 3º Consideram-se, jogos de azar:

a) o jogo em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte

Desde então, muitos representantes e “militantes” destes jogos comprovaram, inclusive juridicamente, que algumas destas práticas não mereciam ser chamadas de ‘jogos de azar’, entre eles os representantes das organizações de poker.

Gerou-se então, uma indústria em torno deste jogo. Essa “indústria” é constituída, gera empregos e divisas, e tem uma cadeia produtiva estabelecida. Aqui, temos um problema no texto da lei: ao usar a palavra “jogo” indiscriminadamente — tanto para “jogos de habilidade”, quanto para “jogos de azar” — os legisladores podem acabar com aproximadamente 400.000 empregos indiretos e faturamentos bilionários (segundo dado apresentado por Igor Trafane na audiência supracitada).

Por isso, o texto da lei deve ser claro a fim de construir a imagem do poker como um jogo de habilidade e reforçar a necessidade de um texto de lei bem redigido. Os jogadores regulares e profissionais de poker com quem conversei sustentam a convicção de que o poker Texas Hold’Em — modalidade que pretende-se abordar neste trabalho — é um esporte de habilidade.

Essa afirmação também está embasada em um estudo feito pela empresa Cigital, do Departamento de Matemática e Ciências da Computação da Universidade de Ohio Wesleyn. Neste estudo foram examinadas mais de 103 milhões de mãos no site PokerStars. Os resultados do levantamento feito pela Cigital apontaram que em 75,7% das vezes as mãos não terminavam em showdown, ou seja: as cartas dos jogadores não chegavam a ser mostradas. Ninguém ficava de fato sabendo quem tinha a melhor mão. É possível portanto, afirmar que ganhava quem tinha mais habilidade de apostas.

É possível então propor uma reflexão sobre os benefícios que a regulamentação pode trazer para os jogadores e organizadores de torneios em todo o Brasil, além de beneficiar o Estado através da geração de impostos, como aponta Trafane.