Fichas no Pano, capítulo 2: o único brasileiro a chegar na mesa final de World Series of Poker

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o segundo de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Fichas no Pano, capítulo 2: o único brasileiro a chegar na mesa final de World Series of Poker
Fichas no Pano, capítulo 2: o único brasileiro a chegar na mesa final de World Series of Poker

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o segundo de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Bruno Foster, único brasileiro a chegar numa mesa final de World Series of Poker também me concedeu entrevista. Ele foi muito gentil e até certo ponto irresponsável ao me passar o número do celular dele. Ao ser questionado sobre o que ele faria se eu saísse espalhando o número por aí ele disse com a maior franqueza: “eu simplesmente não ia te dar entrevista nenhuma.”

Nas instalações do campo de golfe — onde estávamos — cobram-se R$90 para que você dê as suas primeiras tacadas na bolinha de borracha. Isso tudo dura sessenta minutos (obviamente com um professor). Para uma pessoa como eu, cujo quadril é quase tão imóvel quanto o monte Everest, acho que uma semana de golfe não adiantaria pra fazer a pequena esfera cheia de alvéolos se mover mais do que alguns metros além do horizonte.

Naquele espaço, que tinha os famosos ‘locker rooms’ no piso inferior (ou vestiários, caso prefiram) a imprensa pôde, numa rara oportunidade — segundo me disse um colega da imprensa especializada, e segundo eu constaria depois, comer de graça — e ficou claro mais uma vez, pra mim, que essa é uma das melhores partes do nosso trabalho. Os jornalistas puderam também se estufar com boas entrevistas. Estavam no piso superior dessa instalação basicamente todas as pessoas que tinham feito a história do poker no Brasil e ajudado esse esporte a crescer. Não à toa era o ‘Coquetel dos Campeões’.

O poker agora distribui bolos de dinheiro (as analogias com comida são propositais) graças à pessoas como Gabriel Goffi, André Akkari, Igor Federal, Felipe Mojave, Marcos Sketch, Sérgio Prado e Bruno Foster — este último sendo o único brasileiro a fazer parte do November Nine (a mesa final, com nove jogadores, da World Series of Poker). Concluí, conversando com todos eles, que jogadores responsáveis e sérios sabem gerenciar suas próprias carreiras e jamais viverão só dos resultados no jogo. Eles sabem que a variância pode afetar um jogador de poker de maneiras desagradáveis, fazendo-os ficar sem dinheiro para jogar, por exemplo — eles sabem que é preciso pensar, investir e focar no ‘longo prazo’.

E por que eu falo sobre longo prazo? O que é ‘longo prazo’? Bom, evidentemente o que costumamos chamar de sorte está presente em todos os jogos (ou esportes), como queiram. Dois exemplos clássicos que costumo dar para pessoas que me perguntam sobre isso: “no futebol às vezes o atacante chuta torto e a bola claramente iria pra fora se ela não desviasse no zagueiro — às vezes acontece inclusive que este desvio seja convertido em gol”. No tênis, também não é proposital que, durante uma troca de bolas, algum dos jogadores acerte a fita da rede. Quando isso acontece, a bola ‘morre’ na quadra adversária devido ao impacto com o objeto que divide a quadra e por causa das leis da física. Obviamente, assim como no caso do futebol, o jogador não calculou aquele golpe, mas aconteceu… assim também é no poker: às vezes você toma a decisão certa e as cartas atrapalham, às vezes você toma a decisão errada e as cartas ajudam — ainda que “certo” e “errado” sejam conceitos relativos, em qualquer esfera da vida.

No poker, o ‘longo prazo’ — conforme afirmam boa parte dos que se arriscam a serem “coaches” do esporte é constituído de uma amostragem sólida de torneios, geralmente mais do que dois anos — aí você terá um parâmetro sobre ‘eu consigo me sustentar jogando poker?’ por exemplo (e se este for seu objetivo).

Como você “deve jogar”/com quais mãos deve jogar nesta situação segundo Phil Gordon em ‘O Livro Verde do Poker’. Este livro é de 2005 — de lá pra cá muitos conceitos do jogo mudaram, mas a tabela ainda é um bom ‘guia inicial’ / Marco Zero; Todos os direitos reservados

Como você “deve jogar”/com quais mãos deve jogar nesta situação segundo Phil Gordon em ‘O Livro Verde do Poker’. Este livro é de 2005 — de lá pra cá muitos conceitos do jogo mudaram, mas a tabela ainda é um bom ‘guia inicial’ / Marco Zero; Todos os direitos reservados

Os jogadores tight- agressives — que jogam poucas mãos mas com boas cartas — são os mais comuns nos grandes torneios de poker. Alan Schoonmaker explica: “É muito melhor ganhar constantemente em uma mesa com níveis de 20 a 40 doláres do que sofrer para sobreviver em uma de 50 a 100 doláres [de buy-in]” / Raise Editora; Todos os direitos reservados

Um estudo realizado por empresa especialista em teste de segurança e qualidade de softwares, a Cigital do Canadá — contratada à época pela Ohio Wesleyan University — aponta, baseada em uma análise de 103 milhões de mãos de poker, que em 63% das jogadas o vencedor não precisa mostrar as suas cartas. Ou seja: alguma decisão dele fez prevalecer sua habilidade sobre a dos adversários.

Eu mesmo jogo poker com alguma consciência das decisões que tomo pelo menos desde 2010. Há conceitos muito importantes nesse jogo que devem ser levados em consideração caso você queira ter sucesso e aqui está a graça — ou graciosidade — do poker. Resiliência, longo prazo. Tudo que Goffi disse é aplicável. Mas o que mais me chama atenção no jogo é que cada mão (cada par de cartas que você recebe) te traz uma situação completamente nova.

Os conceitos de blinds, posição, odds e outs, range de mãos, tamanho da aposta são importantes e explicarei eles agora. Comecemos pelo começo: você joga poker sentado. Normalmente com mais oito adversários na mesa — totalizando nove jogadores. Chamamos isso de mesa “full ring” (anel completo — mesa cheia).

 

Como você “deve jogar”/com quais mãos deve jogar nesta situação segundo Phil Gordon em ‘O Livro Verde do Poker’. Este livro é de 2005 — de lá pra cá muitos conceitos do jogo mudaram, mas a tabela ainda é um bom ‘guia inicial’ / Marco Zero; Todos os direitos reservados

Veja mais tabelas e gráficos relacionados à posição na mesa aqui

E por que a posição importa? As ações numa mesa de poker se dão da seguinte forma: os jogadores tomam decisões um por um em sentido horário partindo do jogador à esquerda do dealer e a cada mão a mesa vai “progredindo em sentido horário” — a pessoa responsável por distribuir cartas. Se você estiver em posição final na mesa (o que consiste nos três últimos jogadores a agir), considerando as ações de seus adversários, você terá pelo menos uma noção das cartas que eles tem. E aqui entram outros conceitos importantes: o tamanho das apostas e os blinds. Um ‘raise padrão’ — ou, um aumento de aposta considerado normal — consiste em aumentar o valor do blind em duas vezes e meia.

Mantenha em mente: “blinds” são, assim como o nome sugere, apostas às cegas. Apostas compulsórias. Elas são obrigatoriamente feitas pelos dois primeiros jogadores à esquerda do dealer e aumentam de tempos em tempos — dependendo da estrutura do torneio. Isso obriga os jogadores a não esperarem cartas e a usarem suas habilidades para aumentar seu número de fichas (compare, portanto, o aumento de blinds com um tanque que enche de água e vai te ameaçando, gradativamente, de afogamento).

Usei essa analogia no ‘Torneio da Imprensa’: eu estava sentado ao lado de Sérgio Prado, assessor do BSOP e ele tentava explicar o funcionamento dos blinds para jornalistas que nunca tinham jogado poker. Falei e ele comprou a ideia: ‘tá aí uma boa comparação’. Achei então que fosse justo usar-lá neste texto. 

O troféu para o ‘Torneio da Imprensa’. Esse infelizmente não ficou comigo

 

Sergio Prado, assessor do PokerStars no Brasil fala sobre seu começo no jornalismo especializado, lembra que o poker ainda é — apesar dos prêmios milionários — um esporte de sociabilidade, critica a imprensa do ‘click bait’ e comemora crescimento do esporte no país.

Eu e Sergio Prado jogamos o torneio da imprensa na mesma mesa, ele ficou à minha esquerda, o que, tecnicamente, lhe dava vantagem sobre minhas ações

 

Aqui outro conceito importante: nunca jogue poker buscando igualar o número de fichas do líder do torneio ou a média dos “stacks” (stacks são o total de fichas que cada jogador possui). Jogue poker orientado pelo número de blinds. Por exemplo: se eu tenho 1.000 fichas e os blinds estão em 100 e 50 eu tenho dez big blinds, o que significa que estou numa situação crítica.

Neste caso, teoricamente, eu devo ir “all in” (apostar todas as minhas fichas) com praticamente qualquer mão que eu considere boa, ou desistir de todo o resto, que eu considero ruim. Observe: usei “praticamente” porque como eu já disse, assim como nas ciências sociais aplicadas (caso do jornalismo), no poker não existe verdade absoluta. Outro conceito: o range de mãos que nada mais é que o grupo de cartas que eu seleciono para disputar uma mão.

Então, é importante que você conheça o ranking de mãos do poker. É fácil encontrar uma classificação da ‘força das cartas’ em sites na internet. Saiba também que, jogando poker, você pode fazer várias combinações com ‘forças’ diferentes. A força de cinco cartas (sejam elas as suas duas mais três da mesa ou as cinco da mesa) determina o vencedor de uma mão no Poker Texas Hold’Em.

Sabendo disso lembre-se: você pode fazer jogo com carta mais alta — a mais valiosa do baralho é o Ás. Além disso você pode combinar, do mais forte pro mais fraco: um par, dois pares, uma trinca (três cartas iguais — por exemplo 7, 7 e 7 com mais duas cartas quaisquer. Depois da trinca vem a sequência, que também chamamos de straight — cinco cartas de ordem numérica crescente, por exemplo: 4, 5, 6, 7 e 8 (embora esse não seja um straight muito forte — alguém que tenha uma sequência de 5 a 9 por exemplo, irá ganhar de você nesse caso.

A jogada seguinte na força das mãos é o flush: cinco cartas do mesmo naipe. A lógica aqui é a mesma da sequência, mas o que deve ser considerado, de novo, é o naipe das cartas. Depois do flush temos o full house, que consiste em uma trinca e um par no mesmo grupo de cinco cartas. Isso independe de naipe ou valor numérico do baralho. Quase chegando ao fim do ranking de mãos, existe a quadra: o nome deixa bastante evidente, mas, caso reste dúvida: são quatro cartas iguais (por exemplo, os quatro ases do baralho). Essa é uma mão bastante forte, e também rara — devido à circunstâncias de embaralhamento e distribuição de cartas, que serão explicadas mais adiante.

Depois da quadra há ainda mais duas combinações de cartas possíveis: o straight flush (uma sequência de cartas do mesmo naipe) e o royal flush (a sequência de cartas de 10 à Ás do mesmo naipe — em todo meu tempo jogando poker eu fiz essa mão umas três vezes). Ela é bem rara.