Fichas no Pano, capítulo 1: a prática de Poker no BSOP 100

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o primeiro de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

Fichas no Pano, capítulo 1: a prática de Poker no BSOP 100
Fichas no Pano, capítulo 1: a prática de Poker no BSOP 100

Essa série faz parte do especial 'Fichas do Pano', produzido por Enrique Bayer, com divulgação especial para o portal VAVEL Brasil. Este é o primeiro de quatro textos que compõe o conteúdo completo sobre a modalidade. A leitura é feita de ordem cronológica, dividindo a história por capítulos. Confira!

“Acho que uma pergunta que resume isso muito bem é: de quem você quer ser o herói?”. “Pense numa pessoa e, como jornalista, escreva pensando: “de quem eu gostaria de modificar positivamente a vida através do conhecimento que eu estou passando?”. Ouvi essas palavras de Gabriel Goffi, um rapaz, que, aos vinte e oito anos é apenas três mais velho que eu.

Ele falava sobre seu trabalho — que lhe mantinha motivado depois de abandonar a carreira profissional no poker — e me motivava a escrever minha própria reportagem. Gabriel é, hoje, o CEO (Chief Executive Officer ou algo como Diretor Executivo) da High Stakes Academy (HSA), uma startup de educação online com mais de quarenta funcionários focada em promover a alta performance diária do ser humano e que ensina a importância de, por exemplo, um bom sono, boa alimentação, maneiras de lidar (ou acabar) com a procrastinação e aproveitar momentos de criatividade e motivação para criar e otimizar o próprio tempo de vida e trabalho.

Era uma noite festiva quando entrevistei Goffi. Encontramo-nos, eu e ele, no campo de golfe do Wish Resort Golf Convention: jogadores, ex-jogadores e a imprensa especializada da América do Sul estavam no ‘Coquetel dos Campeões’ — um evento promovido pelo PokerStars em comemoração a centésima edição do Brazilian Series of Poker (BSOP), que aconteceu entre os dias 31 de agosto e 5 de setembro em Foz do Iguaçu. O calor, que durante aquela semana não me daria um segundo de folga, também estava presente.

E lá também estava eu: parafraseando (com licença poética) David Foster Wallace em uma ‘Coisa Supostamente Divertida que Eu Faria Novamente’ observando caras que certamente gastariam mais de vinte mil reais em uma semana. Goffi era um deles. Imagino, no entanto, que, para ele, essa cifra signifique pouca coisa: aos 19 anos, o paulista natural de Pindamonhangaba já tinha seu primeiro milhão de reais.

Ele me contou durante o coquetel, que, nos seus melhores dias como jogador profissional do esporte, perder (ou ganhar) 50 mil dólares em um dia era normal. Você consegue imaginar isso? É como se você tivesse comprado quatro carros populares e eles fossem roubados no mesmo dia. Fiquei espantado. Apesar de eu ter uma noção sobre os níveis mais altos de poker online do mundo — aquela informação me desarmou.

“Ok, vamos respirar, 50 mil dólares é muito dinheiro, cacete!”. Saber que uma pessoa perde esse montante de dinheiro num dia e considera isso normal é uma coisa; ouvi-la conversando com você e falar isso com embasbacante naturalidade é outra coisa totalmente diferente. Goffi já foi campeão uma vez de um torneio que, em cem edições, jamais viu um bicampeonato.

“Você vai falar sobre poker?” Questionava Goffi na voz rápida e certeira dele. “Tenta passar pro seu leitor que não é só um estereótipo “poker player” — se você entender o poker como um formato de aprender sobre longo prazo, sobre resiliência, sobre altos e baixos, sobre ser autodidata… isso é mais do que uma técnica, atinge sua essência”.

Gabriel ainda é jovem, mas, ainda mais jovem do que é hoje, aos 19 anos, ele já tinha boas histórias para contar: ao masterizar as técnicas do jogo, o jovem interiorano soube que podia ganhar dinheiro. Vivendo em São Paulo (capital) na época, Goffi encontrou um clube de poker — onde suas vítimas, eram, em maioria, jogadores recreativos. Ao conhecer conceitos como os de blinds, posição na mesa, odds e outs, range de mãos e leitura dos adversários, Goffi dominava os adversários e acabava, pelo maior conhecimento técnico do jogo, levando o dinheiro dos torneios pra casa.

Foi então que os oponentes dele nas mesas fizeram como Don Vito Corleone: “uma proposta irrecusável” para o dono do clube de poker que Goffi frequentava: ‘ou ele sai ou nós saímos’, disseram — sem, no entanto, ao contrário do clássico filme, o uso de ameaças físicas.

Um dos meus adversários aqui, a propósito, era o receio de não fazer uma boa cobertura do evento. E isso veio à mente quando ‘bati o olho’ em Gabriel. Ao ver o jovem magro e esguio, eu sabia que tinha que entrevistar aquele cara. Na primeira tentativa ele estava acompanhado da namorada: Marina. São um casal bonito: Aladdin e Jasmine dos tempos modernos.

A minha comparação com as personagens da Disney é basicamente motivada pelo fato de que vi ambos conversando sob um dossel protegendo o conjunto de sofás onde estavam sentados. Lugar bastante apropriado para aquele começo de tarde. O dossel imediatamente me trouxe à memória os cenários de Agrabah, do tradicional conto árabe ‘Aladim e a Lâmpada Maravilhosa’.

Ali Goffi e Marina conversavam, enquanto eu, a alguns metros de distância e tentando não me fazer perceber sondava os dois — que não davam uma brecha para a minha aproximação. Era como se eu fosse um tubarão à espreita de um cardume, mas um cardume de um peixe só. Eu esperava um momento em que minha presa (ou entrevistado) abaixasse a guarda para dar o bote.

Isso não aconteceu. Marina me notou. Meu crachá de imprensa, a camisa cinza com o logo do BSOP que eu vestia, e os olhares de canto de olho que dirigia à eles fizeram a astúcia feminina se manifestar e, em algum momento ela e eu sabíamos que um encontro aconteceria em breve.

Goffi não era a primeira grande personalidade do poker que eu entrevistaria, mas possivelmente a mais conhecida fora dos feltros (justamente por causa da High Stakes Academy lá do começo do texto). Depois de Marina me notar eu soube que era inútil, ou, que seria uma bobagem sair dali sem tentar uma abordagem, fosse na circunstância que fosse. Me aproximei lenta, mas não receosamente e, quando a distância era curta demais pra eles me ignorarem, chamei:

– “Gabriel Goffi?” Estendendo a mão. Ele me olhou, virando o pescoço em quarenta e cinco graus e me cumprimentou gentil mas firmemente. Eu então disse que o conhecia e expliquei a ele o propósito da abordagem — o que o “IMPRENSA” no crachá deixava óbvio — e disparei: “cara, podemos conversar, cinco, dez minutos?”, ele hesitou. Voltou o olhar pra Marina. Pensou um pouco. Depois disso, como jogador de poker que também sou, eu sabia que aquela primeira tentativa havia falhado.

“Cara, estamos no meio de uma conversa importante aqui. Você pode me procurar no coquetel que vai ter amanhã às 18 horas?”. “Claro, sem problema”, respondi. Mas na verdade havia um problema sim. E se o “depois” fosse tarde demais? Conturbado demais, concorrido demais?

Felizmente não foi tarde demais, e Goffi me contou tudo que acabei de relatar enquanto vestia um blazer de veludo azul escuro riscado e eu, com meus 1,75 de altura, conseguia encará-lo cara a cara. Apesar da alta temperatura ele mantinha uma classe invejável. Eu, ao contrário, vestia uma camiseta do BSOP toda suada e que havia comprado pouco antes do coquetel, no fim do segundo dia de torneios. Sem saber, Gabriel me dava ideias sobre como começar essa reportagem enquanto falava.

Atualmente — talvez — Gabriel Goffi seja mais conhecido pela High Stakes Academy do que pela carreira como jogador de poker. Ele comenta os novos desafios nessa empreitada e fala sobre as fontes de sua motivação para continuar inspirando pessoas

A comilança comemorativa estava cheia de grandes jogadores e “embaixadores” do poker — incluindo o presidente da Federação Paranaense de Texas Hold’Em e o ex-presidente da Confederação Brasileira, Geraldo Campêlo e Igor Federal respectivamente — entrevistei os dois; ressalte-se: Campêlo é também vice-presidente de Confederação Brasileira de Texas Hold’Em (CBTH). Numa dessas incursões jornalísticas dividi perguntas com um repórter argentino. Tudo isso aconteceu num dos blocos do resort (que é quase comparável a um campus universitário — com 2.000.000m²). No geral os campus tem bastante espaço físico. O da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, tem 7.400.000m².

Foi ali também que encontrei André Akkari — que na semana anterior havia faturado 320 mil euros no PokerStars Championship (PSC) de Barcelona, um ótimo resultado pra qualquer jogador. Enquanto eu entrevistava Goffi, Akkari chegou. Os dois se conhecem de longa data. São parte da ‘velha guarda’ do poker no Brasil. (Além disso, são também pessoas bem relacionadas: Akkari passou a semana anterior ao torneio em Barcelona na casa de Neymar, à época, recém contratado pelo Paris Saint Germain na transação mais cara da história do futebol. Neymar inclusive, é um dos “garoto-propaganda” do PokerStars no Brasil.)

Inevitavelmente, então, num gesto de amizade, Akkari abraçou Goffi. Isso aconteceu enquanto eu entrevistava o segundo deles e, por acidente, ao abrir os braços, Akkari acabou derrubando meu celular. O esbarrão me assustou. Achei que ia perder meu equipamento gravador mas depois de ver quem tinha esbarrado em mim (e que o meu celular havia sobrevivido) eu fiquei feliz.

Isso me daria mais uma história pra contar. E eu pude “cobrar” de Akkari uma entrevista — afinal, ele tinha derrubado meu celular, era “justo”: “porra Akkari, agora você me deve uma entrevista cara!”, falei, aos risos. O jogador mais celebrado de poker do Brasil retorquiu também com um palavrão: “puta merda cara, comecei bem, derrubando o celular do moleque! Desculpa, não sabia que você estava entrevistando ele (referindo-se à Goffi)”.

Acenei, apaziguando o episódio. Por ‘sorte’ (?) o smartphone resistiu e me acompanhou até o final da jornada — na verdade ele ainda está comigo e frequentemente lembro da cena quando vejo as escoriações do seu lado direito.

Eu acabei de fato “cobrando” a entrevista de Akkari no dia seguinte. Enquanto passeava pelo salão vi ele numa mesa perto da saída e acenei, ele lembrou do episódio e acenou positivamente com a cabeça.

-Cara, primeiro é um prazer conversar contigo” — comecei.

-O prazer é meu”- ele retorquiu como se eu fosse alguém importante ali.

-Bicho, são dez anos representando o PokerStars no Brasil, nesse período você reconheceu uma evolução grande no esporte?

-Cara, bastante… bastante em todos os sentidos. No Brasil o poker era mal visto, tinha um certo preconceito. E no mundo inteiro o poker evoluiu em todos os sentidos… sentido técnico… premiação… foram dez anos intensos mas muito legais.

- Akkari, quanto você credita do teu sucesso na carreira ao “Efeito Moneymaker”?

- Efeito Moneymaker? Ah cara, eu acho que se não fosse o Moneymaker muito provavelmente nem carreira eu teria, eu acho. Eu comecei a jogar vendo a ESPN, vendo o sucesso que ele fez e aquilo ali brilha os olhos de todo mundo né cara? Eu fui um dos caras que fiquei extasiado também com o que tava acontecendo… o cara saindo de onde ele tava e chegando onde ele chegou. Isso motiva. Força motivacional eu não sei como seria se não fosse com ele. Talvez eu até conseguiria, mas talvez seria uma outra história…

- Cara, você não acha que a profissão “parça do Neymar” deveria ser regularizada?” Pergunto, tentando descontrair o papo rápido e lembrando que, quando assinou o contrato com o Paris Saint Germain, Neymar estava acompanhado de um batalhão.

Eu sabia também que todo mundo já fez todas as perguntas que poderiam ser feitas ao Akkari. Ele responde aos risos:

- Cara, eu acho que sim hahahahaha… seria uma satisfação enorme. Ele é muito dez. O cara é muito humilde, muito gente boa… consegue dividir o sucesso que ele tem com todos os amigos e todos os benefícios que ele colhe com várias pessoas… eu sou fanzaço dele; da pessoa dele. Sou mais fã da pessoa dele do que do jogador dele e sou um mega fã do jogador, então você imagina isso.

Eu como gremista não pude deixar de dar uma cutucada: Akkari é corintiano e comenta sobre futebol regularmente nas redes sociais à época do BSOP em Foz o campeonato brasileiro de 2017 ainda estava “aberto” e eu disparei:

“Então vamos ver do negócio mesmo”; “Tá”, ele responde, com uma cara de “ih, lá vem bomba!”… “Qual teu palpite pro campeonato brasileiro de 2017?”. Sem hesitação ele responde:

“Ah, eu acho que o Corinthians vai ser campeão… tá muito na frente… assim: os defeitos que o time do Grêmio tem o time do Corinthians também tem, mas o Corinthians tem 7 pontos na frente [a essa altura Grêmio e Corinthians ainda se enfrentariam no campeonato]. “Os últimos dois jogos não foram muito bons mas o time tava desfalcado pra caralho… eu não consigo ver o Corinthians perdendo não… mas tem chance, o único que tem chance é o Grêmio”

- Se o André Akkari parasse de jogar poker hoje, o que você faria da vida?

- Cara… hoje eu investi meu dinheiro em empresas, em negócios… então eu ajudaria a cuidar desses meus negócios. Cuidar de todas as coisas que fiz no poker… a gente tem vários empreendimentos dentro do setor então eu tenho muito prazer e provavelmente eu trabalharia com isso. Mas eu não vou parar de jogar poker, vou jogar poker até morrer então vão me ver na mesa durante muito tempo ainda.

- Vai roubar ficha de muita gente ainda…

- Tomara! hahahahaha

André Akkari (à direita) e Bruno Foster discutindo uma mão. Foster é o único brasileiro a chegar numa mesa final de Main Event de World Series of Poker. Akkari estava de volta ao Brasil depois de conquistar 350 mil euros no PokerStars Championship em Barcelona