Raio-X do Campeonato Masculino de Vôlei: Grupo C
Rússia festeja o título da Liga das Nações-2018 (Reprodução/ FIVB)

Raio-X do Campeonato Masculino de Vôlei: Grupo C

Conheça retrospecto, perspectivas e curiosidades das seleções do grupo de Estados Unidos e Rússia

jonvicosta
Jon Costa

GRUPO C

Rússia

O fardo de manter a tradição, a regularidade, os êxitos da União Soviética, potência do vôlei por quase cinco décadas, pesou bastante sobre sua maior herdeira, a Rússia. Os jogadores vindos das demais repúblicas fizeram falta, e os primeiros títulos demoraram a vir. Hoje, os russos vivem sua melhor época e provam um pouco do temor que sua ancestral gozava. São incansáveis na produção de novos atletas – e os títulos mundiais da base servem de prova. Repetir a hegemonia vermelha é impensável. Mas, por muito tempo, eles serão um dos times a serem batidos.

Perspectivas. Com um elenco de respeito e duas conquistas importantes nos últimos 12 meses, circunstâncias em que deu pouca esperança aos rivais, a Rússia é vista, por muitos, como favorita ao ouro. Mas não assuste caso ela se desvie desse caminho. Não seria a primeira vez. A fase de grupos traz testes de fogo (EUA e Sérvia) e será essencial para as pretensões russas. Ou o time engrena ou desmonta.

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Como se classificou. Para manter o status de único a participar de todas as edições do Mundial, a Rússia venceu o Grupo D das eliminatórias europeias, sediado na Estônia, com extrema facilidade. Em cinco jogos, somente contra os anfitriões desperdiçou set.

Últimas temporadas. A Rússia entrou sob enorme expectativa neste ciclo. Mas começou extremamente devagar. No Europeu-2015, caiu para a Itália nas quartas em sets diretos. Nas Olimpíadas-2016, foi facilmente batida pelo Brasil na semifinal e voltou para casa sem medalha. Também não passou do quarto lugar na Copa do Mundo-2015. Na Liga, entre 2015 e 2017, no máximo, chegou em quinto. Somente deu as caras no pódio no Europeu-2017. E o fez com louvor: vitória nos seis jogos, apenas dois sets perdidos – para a Alemanha, na decisão – e ouro no peito. Na Liga-2018, superou Polônia, EUA, Brasil e França, sagrando-se campeã.

O comandante. Depois de sair do Rio sem medalha, a federação russa decidiu trocar Vladimir Alekno por Sergey Shlyapnikov, 57, que construiu carreira como técnico nas seleções de base do país antes de migrar para o universo dos clubes. Foi campeão mundial sub-19 em 1999 e sub-21 em 2011.

O time. Nenhuma outra seleção dispõe de tantos jogadores vultosos como a Rússia, o que torna intensa a briga por um lugar no sexteto ideal. A estrela, nos últimos tempos tem sido o oposto Mikhaylov, 30: MVP da Liga-2018, do Europeu-2017 e das duas últimas Champions. Muserskiy, 29, o gigante de 2,19 m, e Volvich, 28, com 2,12 m, formam um meio de rede difícil de ser batido. De olho na vaga de levantador, estão Butko, 32, melhor da posição na Champions-2018, e Grankin, 33, o melhor do Europeu passado. Para equilibrar a média de idade, três expoentes da geração 1995 integram o elenco: o oposto Poletaev, os ponteiros Kliuka e Volkov. Relembrando os tempos de União Soviética, a Rússia conta com reforços nascidos nas redondezas, como o ucraniano Muserskiy e os bielorrussos Butko e Kliuka.

Hegemonia vermelha. A União Soviética disputou 12 Mundiais; venceu metade deles (49, 52, 60, 62, 78 e 82), todos de forma invicta, e levou ainda duas pratas e três bronzes. Só não foi ao pódio em 1970, quando não passou de um modesto sexto lugar.  Sempre temida, a primeira equipe a batê-la num Mundial, depois de 22 vitórias consecutivas, foi a Romênia, em 1956. Nesses esquadrões soviéticos que beiraram à perfeição, encontram-se nomes como o bielorusso Mondzolevski, o letão Bugajenkovs, o ucraniano Reva e os russos Nefedov, Alex Savin e Zaytsev.

Novo nome, nova história. Uma vez pulverizada a União Soviética, nenhuma das repúblicas que a compunham despontou no cenário internacional, a não ser a Rússia, sua herdeira imediata, segundo a FIVB. Sem desfrutar de talentos lapidados nas vizinhanças, os russos não conseguiram manter o padrão soviético: em cinco Mundiais, só ganharam medalha em 2002, a de prata, após derrota para o Brasil num jogo épico de cinco sets. Nos outros, sequer alcançaram a semifinal. Em 2014, foram eliminados por Polônia e Brasil no final six e voltaram para Moscou com o quinto lugar.

A mais dourada galeria. No pós-dissolução, a Rússia esteve em duas finais olímpicas, ganhando uma. Perdeu para a Iugoslávia por 3 a 0 em 2000 e bateu o Brasil por 3 a 2 em Londres. Já a União Soviética angariou três ouros (64, 68 e 80) e duas pratas. Na Copa do Mundo, juntas, elas somam seis conquistas – a última em 2011. Na Liga, são três títulos russos: 2002, 2011 e 2013, todos em cima do Brasil – os soviéticos disputaram apenas duas edições e conseguiram um bronze em 1991. E, nessa vistosa lista de troféus, ainda se encontram os do Campeonato Europeu: são 12 triunfos soviéticos e dois russos (2003 e 2017).

Estados Unidos

Apoiados pelo governo do país, cuja ideia era abalar o domínio da União Soviética, os Estados Unidos se firmaram como potência na década de 1980, conquistando duas Olimpíadas. Por um bom tempo, o vôlei americano esteve em baixa, sem competitividade e longe dos pódios. O resgate se deu em Pequim. Apesar de vitorioso, o esporte não goza de interesse de público, TV ou patrocinadores. O torneio universitário é a salvação. Várias tentativas de estabelecer uma liga profissional fracassaram. A mais nova, a NVA, de caráter independente, deu partida no início do ano. A USAV, responsável pelo vôlei no país, segue prometendo um campeonato com sua chancela antes de 2020. Resta aguardar. E, se der certo, que os adversários se cuidem.

Perspectivas. Já são cinco Mundiais consecutivos que os Estados Unidos não se posicionam entre os quatro melhores. Com um time entrosado e experiente, as chances de quebrar essa sequência negativa são enormes. Para tanto, os duelos contra Sérvia e Rússia na fase de grupos serão determinantes. Um primeiro lugar com 100% de aproveitamento é garantia de êxito na etapa seguinte.

Como se classificou. O título do Campeonato da NORCECA em 2017 credenciou os americanos a seu 16º Mundial. Para não dar chance à zebra, usaram força máxima contra os frágeis adversários de seu continente. Na decisão, 3 a 0 sobre República Dominicana.

Últimas temporadas. Após o sétimo lugar no Mundial-2014, os Estados Unidos tiveram dois anos bons. Em 2015, sagraram-se bicampeões da Copa do Mundo, graças à derrota da Polônia no jogo derradeiro para a Itália, e pegaram o bronze na Liga. O time ianque chegou ao Rio, em 2016, cotado para o pódio e atingiu a meta. Sobreviveu ao grupo da morte, ajudando na eliminação francesa, bateu os poloneses nas quartas, caiu diante da Itália na semifinal, num 3 a 2 de tirar o fôlego, e se despediu contra os russos, ganhando o terceiro lugar. Em 2017, levou o Campeonato da NORCECA e se classificou para a Copa dos Campeões, em que seria quarto. Na Liga-2018, quase tirou a França da decisão e triunfou no duelo contra o Brasil pelo bronze. No Pan de Toronto, em 2015, e nas últimas Copas Pan-Americanas, usou equipe reserva, não obtendo medalha.

EUA em ação na Liga das Nações-2018 (Reprodução do site da FIVB)

O comandante. John Speraw, 46 anos, dirige a seleção norte-americana desde 2013, somando um título de Liga e um bronze olímpico. Antes, como assistente, esteve na campanha do ouro em Pequim-2008. Formado em microbiologia e genética molecular pela Universidade da Califórnia, foi jogador universitário, atuando como central, e depois técnico, conquistando ao todo cinco edições do NCAA.

O time. Nos últimos quatro anos, Speraw pouco mexeu no núcleo de sua equipe, privilegiando a química entre seus homens de confiança. No comando das ações ofensivas, está Anderson, 31, uma das estrelas do campeonato russo, do qual já foi MVP. O levantador Christenson, 25, que era promessa em 2014, se consolidou como titular. O ponta Sander, 26, futuro jogador do Cruzeiro, foi um dos melhores de sua posição na última Liga. Também ponta, Russell, 25, sobressaiu na campanha dos Jogos-2016. No meio de rede, Holt, 31, segue como referência. E Erik Shoji, 29, se manteve como líbero número um. Lesionado no joelho desde junho, Jaeschke é a grande ausência.

Ouro Mundial. Invenção do professor William Morgan, o vôlei nasceu nos Estados Unidos no final do século XIX. Quando o primeiro Mundial aconteceu, em 1949, os criadores não marcaram presença. Da estreia, em 1956, até hoje, os americanos só faltaram ao de 1962. Seriam coadjuvantes, com desempenhos beirando o pífio, até 1986, quando a geração de Kiraly, Dvorak, Partie e Salmons trinfou. Na decisão, um encontro memorável com a URSS, encerrado no quarto set. A Guerra Fria saíra dos campos diplomáticos para as quadras de vôlei. Outro pódio seria alcançado em 1994: terceiro lugar, com vitória sobre Cuba. Desde então, os EUA não apareceram mais entre os semifinalistas. Em 2014, um revés para a Argentina na última rodada da segunda fase custou a classificação para o final six.

Guerra fria e olímpica. Em 1984, em Los Angeles, os Estados Unidos levaram o ouro olímpico com uma vitória tranquila sobre o Brasil na decisão. O técnico Doug Beal apresentou uma novidade: a especialização dos jogadores em determinadas funções. Mas a ausência da URSS, que boicotara o evento, tirou um pouco do brilho da medalha. Daí a expectativa que envolveu o torneio em Seul, quatro anos depois. E, no melhor dos scripts, os dois países fizeram outra final épica, em que os soviéticos começaram melhor, vencendo o primeiro set. A partir do segundo, os americanos tomaram as rédeas do jogo até encerrá-lo em 3 a 1, com um massacrante 15 a 4 entre as parciais. Enfim, o criador tomava posse de sua criatura. Em 2008, após anos de discrição, chegaram ao tricampeonato olímpico, igualando a marca da URSS, com 3 a 1 sobre o favorito Brasil. Em 1992 e 2016, os Estados Unidos colocaram o bronze no pescoço.

Galeria dourada. A seleção americana não viu ouro apenas na Copa dos Campeões. Na Liga (2008 e 2014) e na Copa do Mundo (1985 e 2015), tem dois. Na Copa Pan-Americana, antiga Copa América, soma sete. No Campeonato da NORCECA, são nove – mas a distância para Cuba, que tem 15, ainda é grande. No Pan-Americano, são quatro, o último há 31 anos.

Sérvia

Se a Rússia, após a dissolução do mundo soviético, não conseguiu se manter no pedestal do vôlei, o oposto aconteceu com a Iugoslávia, hoje Sérvia, que emergiu como uma das potências do esporte logo após a sangrenta ruína de seu antigo Estado, em meados dos anos 90. No currículo, ouro em Olímpiadas, Liga e Europeu, além de outras medalhas. O sonho de consumo agora é o inédito título mundial.

Perspectivas. Se, em 2014, a Sérvia encarou o Mundial como mais uma etapa de seu processo de renovação, o desafio agora é maior: chegou o momento de se firmar novamente entre as potências. Mas falta regularidade ao time treinado por Grbić, que falhou em sua tentativa de ir às Olímpiadas do Rio, algo que não acontecia desde 1992. Os sérvios testarão sua força já na fase de grupos, em que enfrentarão Rússia e EUA, dois candidatos ao pódio. Uma boa performance contra eles pode ser o gás para voos mais altos.

Como se classificou. A Sérvia caiu numa das chaves mais fáceis das eliminatórias europeias, concorrendo contra Dinamarca, Belarus, Suíça, Croácia, que era a sede, e Noruega. Fez 3 a 0 em todos, carimbando passaporte para seu décimo Mundial.

Últimas temporadas. Quando Nikola Grbić assumiu a seleção de seu país, em fevereiro de 2015, tinha como missão fazê-la forte novamente no cenário internacional. Os resultados anteriores mostravam um distanciamento das grandes potências: nona nos Jogos de Londres e no Mundial da Polônia; e sétima na Liga-2014. Sob o comando do antigo levantador, a primeira impressão foi boa: prata na Liga-2015, após derrota para a França. As exibições seguintes, porém, ficaram longe do esperado. No Europeu-2015, caiu nas quartas. No Pré-Olímpico continental, foi quinta entre oito concorrentes, sequer ficando na zona de repescagem. Em 2016, a Sérvia, enquanto os grandes times se arrumavam para o Rio, aproveitou para conquistar um inédito ouro na Liga Mundial, indo à desforra contra o Brasil, algoz de sempre, na decisão em Cracóvia. No Europeu-2017, os sérvios levaram o bronze e, na Liga das Nações-2018, chegaram às finais, terminando em quinto.

Sérvia festeja o título da Liga em 2016 (Reprodução do site da FIVB)

O comandante. Não faz muito tempo que Grbić, hoje com 44 anos, ainda podia ser visto em quadra. Ele a abandonou em 2014, ingressando na carreira de técnico. Como levantador, fez parte das mais exitosas campanhas da Iugoslávia ou Sérvia: ouro e bronze olímpicos; prata e bronze mundiais. Levou ainda, no certame de 2010, o prêmio de melhor em sua posição. E está no Hall da Fama do esporte. Como treinador, guiou seu país ao primeiro triunfo na Liga. Também dirige o Verona, da Itália.

O time. Grbić levará ao Mundial um elenco experimentado, com jogadores do naipe do oposto Atanasijević, 27, MVP da última liga italiana, e de Podrascanin, 31, o melhor central das duas últimas Champions, ambos atleta do Perugia. Outros destaques são o meio de rede Lisinac, 26, meio de rede, e os pontas Kovacević, 25, e Ivović, 27, MVP da Liga-2016 e que defendeu o Taubaté. O entrosamento entre eles é o ponto forte da equipe. A grande dor de cabeça do técnico é logo na posição em que era mestre, a de levantador. Jovović, 26, e Kostić, 30, estão longe de serem unanimidades.

Surge uma nova força. Quando fazia parte da Iugoslávia, época em que os países da Cortina de Ferro polarizavam o vôlei, os sérvios passavam despercebidos. Em quatro Mundiais, alcançaram, no máximo, o oitavo lugar. Após a dissolução que sofreu no início dos anos 1990, a Sérvia despontou como uma das potências do esporte, conquistando, ainda como Iugoslávia, o bronze olímpico em 1996 e o vice mundial em 1998. Neste certame, o time de Miljković, Vujević e Gerić eliminou potências, como Rússia, Holanda e Cuba, até chegar à final contra a dona da casa, a Itália, para quem perdeu por 3 a 0. Nas três edições seguintes, a Sérvia foi uma das semifinalistas, mas esbarrou no Brasil, duas vezes, e em Cuba. Ao menos, em 2010, voltou para Belgrado com a medalha de bronze na mala.

O ouro olímpico. A maior façanha da Sérvia, quando ainda não se chamava assim, foi a conquista do ouro nas Olimpíadas de Sidney-2000. As boas performances anteriores credenciaram os sérvios ao pódio. Mas um início cambaleante, com derrotas para Itália e Rússia e uma vitória sofrida, no tiebreak, sobre a Coreia do Sul, fez muitos duvidarem do potencial daquele time. No mata-mata, num crescente de produção, a Iugoslávia bateu a Holanda, a Itália e a Rússia, entrando para o rol das campeãs.

O ouro da Liga. Até subir no lugar mais alto do pódio na Liga, a Sérvia teve de suportar cinco vices. Três deles vieram em finais épicas contra o Brasil. A primeira delas, Madri-2003, dita por muitos como um dos melhores jogos de vôlei da história, só foi resolvida no tie-break, com um placar largo: 31 a 29. Os encontros seguintes, 2005 e 2009, tiveram Belgrado como palco. No último, a atmosfera era de guerra: jogo de cinco sets, ginásio lotado, 22 mil sérvios inflamados, erros de arbitragem pró-anfitrião, técnicos tensos à beira da quadra. Em 2008 e 2015, ambos no Rio, o revés na decisão foi para os EUA e para a França, respectivamente. O título foi alcançado, enfim, em 2016, logo contra os brasileiros.

Austrália

O crescimento do vôlei na Austrália veio no bojo dos investimentos para as Olimpíadas de Sidney-2000. A seleção passou a participar assiduamente das principais competições, entrando, em definitivo, no mapa do esporte. Nos últimos anos, passou pela elite da Liga Mundial. Mas não pense que isso refletiu em suas campanhas dentro da Ásia, onde tem sofrido com a síndrome das quartas de final.

Perspectivas. No Grupo C, Austrália fará um campeonato à parte contra Camarões e Tunísia, enquanto Estados Unidos, Rússia e Sérvia brigarão pelos primeiros postos. Vencer os times africanos é a senha para avançar de grupo, repetindo a campanha de 2014. Ir além disso é sonho distante. Australianos e camaroneses se encontraram nas duas últimas edições, com uma vitória para cada.

Como se classificou. Não foi trabalhoso para a Austrália obter um lugar no Mundial, o sétimo de sua história. Eram duas vagas por grupo. E Camberra recebeu um deles. Com quatro vitórias e uma derrota (para o Japão), classificou-se em segundo.

Últimas temporadas. Em 2014, a Austrália festejou campanhas ímpares em sua história na Liga e no Mundial, se classificando em quinto e 15º, respectivamente. Mas o ritmo não se manteve nos anos seguintes. Quando se esperava que a Austrália continuasse evoluindo, veio a estagnação. No fortíssimo grupo de elite da Liga-2015, foi a lanterna entre oito seleções, com duas vitórias em 12 jogos – sobre Itália e Sérvia. Em 2016, perdeu todos os nove duelos, fechando em último entre 12 times. Em 2017, contra times mais próximos de seu nível, disputou a segunda divisão e se classificou em terceiro. Em 2018, foi uma das 16 equipes que competiram na primeira Liga das Nações, escapando do rebaixamento com o 13º lugar e cinco vitórias. Na Copa do Mundo-2015, foi nona entre 12. Dentro da Ásia, o panorama não muda: os Volleyroos não conseguem peitar as potências da região. Além de ficar fora dos Jogos do Rio, caíram nas quartas nos últimos torneios, perdendo para Irã em 2015 e Japão em 2017.

Austrália na Liga-2017 (Reprodução do site da FIVB)

O comandante. Ex-jogador, o australiano Mark Lebedew, 51 anos, assumiu o selecionado de seu país em dezembro de 2016, no lugar de Roberto Santilli. Na primeira aparição olímpica da Austrália, em 2000, ele era assistente. Depois, fez carreira solo na Europa, conquistou, por três vezes, a Bundesliga e levou o Berlin ao inédito bronze na Champions League em 2015. Em maio de 2018, assinou com o polonês Zawiercie.

O time. A Austrália embarcará na Itália sem o craque do time: Thomas Edgar, oposto de 2,12 m, autor de 50 pontos num único só jogo na Copa do Mundo-2015. Com lesão no tornozelo desde março, não se recuperou a tempo. Assim, as atenções se voltam novamente para o ponta Nathan Roberts e o oposto Paul Carrol, ambos com 32 anos e longa estrada no vôlei europeu. Juntos, eles participaram do título asiático em 2007, o único no currículo do país. Quase todo elenco chamado para o Mundial atua no Velho Continente, mas em ligas secundárias.

Saco de pancadas. A Austrália começou sua trajetória em Mundiais em 1982. O retrospecto até 2010 era infame: 23 partidas e apenas duas vitórias. Em 2014, fez sua melhor campanha, com vitórias sobre Camarões e Venezuela, classificação para a segunda fase e o 15º lugar no geral.

Em casa, uma campanha digna. As Olimpíadas de Sidney, em 2000, impulsionaram o vôlei no país. Os primeiros resultados apareceram na fase de preparação. Em 1998, após 16 anos, a Austrália retornou ao Mundial. Em 1999, fez sua estreia na Liga - ainda sem malícia e tarimba para enfrentar os grandes times, o saldo não poderia ser outro: 12 jogos, 12 derrotas e apenas cinco sets vencidos. No Torneio Olímpico, a campanha superou as expectativas: vitórias sobre Egito e Espanha nos grupos e vaga nas quartas, em que perderia para a Itália. Voltaria às Olimpíadas mais duas vezes, em 2004 e 2012, mas sem avançar da primeira fase. Na Liga-2014, o vôlei australiano viveu seu melhor momento ao se colocar entre as seis finalistas. Para chegar lá, foi preciso desbancar a França na decisão do Grupo B, espécie de zona intermediária. Mesmo sem vitória, a federação comemorou a campanha.

Tunísia

Depois de anos na sombra do Egito, a Tunísia, enfim, lhe quebrou a hegemonia. Pode bradar, outra vez, que é a maior campeã de seu continente, como fez na maior parte de sua história. Fora de seus limites, nas grandes competições, onde os triunfos são raros, cada set vencido é motivo de festa. Falta intercâmbio para o vôlei do país evoluir. Não é comum jogadores de lá ganharam chance em boas ligas europeias.

Perspectivas. O sorteio limou as pretensões da Tunísia de avançar de fase, apesar da presença de Camarões, um adversário constantemente batido nos torneios africanos – mas com fama de traiçoeiro em Mundiais. Para vencer a Austrália, seus jogadores terão de dar o máximo em quadra. Contra Rússia, EUA e Sérvia, o objetivo é não ser massacrada.

Como se classificou. No Campeonato Africano-2017, a Tunísia matou dois coelhos com uma cajadada só: quebrou um longo jejum sem títulos e se classificou para seu décimo Mundial. Seu maior desafio foi bater a Argélia na semifinal: precisou de cinco sets, com 17 a 15 no tie-break. Na decisão, 3 a 0 sobre o Egito, no Cairo.

Últimas temporadas. A Tunísia não conseguiu se classificar para os Jogos do Rio. No Pré-Olímpico, levou a disputa contra o Egito pela única vaga até o tie-break, mas perdeu por 16 a 14. Antes da desforra contra os Faraós em 2017, as Águias também haviam perdido para eles o Africano-2015. No terceiro nível da Liga, fez boa campanha ano passado, com quatro vitórias em seis jogos, incluindo duas sobre europeus, Montenegro e Estônia. A África não participou da Challenge Cup, divisão de acesso da Liga das Nações.

Tunísia festeja o Africano em 2017 (Reprodução do site da CAVB)

O comandante. O italiano Antonio Giacobbe, 71 anos, é o mais experiente treinador do Mundial-2018 e uma sumidade dentro do vôlei africano. Depois de comandar o time feminino da Itália, chegou à região em 1999, para treinar a Tunísia. Passou por Marrocos e Egito, onde é responsável pelo resgate da seleção, colecionando um punhado de títulos continentais. Em 2017, anunciou seu retorno a Tunis.

O time. MVP do último Africano, Moalla não figura na lista deifinitiva de Giacobbe. Assim, os ataques devem ser concentrados no oposto Nagga, 27. Outros pilares do time são o levantador, Slimene, 23, e o líbero Taouerghi, 35, ambos os melhores em suas posições no último torneio continental. O único que atuou na Europa na temporada recente é o meio de rede Ben Tara, 22,

Na base da raça em Mundiais.  Em 1962, a Tunísia foi o primeiro representante da África no Mundial, mas abandonou o Torneio de Consolação depois de alguns jogos. Entre 1986 e 1998, mesmo mandando nos certames locais, não se classificou, perdendo espaço para Argélia, Egito ou Camarões. Em 2006, teve outra primazia: a de ser o primeiro africano a avançar de fase, amenizando um histórico de participações opacas. Venceu Coreia do Sul e Cazaquistão na primeira etapa, e, na seguinte, bateu Porto Rico e fez jogo duro contra Japão, para quem perdeu no tie-break, e Argentina, finalizando em 15º. Em 2014, embora num grupo acessível, deixou a competição sem vitória, mas arrancou sets de Alemanha, Coreia do Sul e Cuba.

Tunísia x Egito, a rivalidade. Até o início da década passada, a Tunísia era o grande bicho papão do Campeonato Africano, vencendo oito das 12 primeiras edições de que participou. Mas a fonte secou por um bom tempo, período em que o Egito sentou no trono. Foram 14 anos, ou seis torneios, até nova conquista em 2017. Hoje, o placar de troféus aponta 9 a 8 para as Águias de Cartago. Em Olimpíadas, são seis aparições - a última em 2012 -, 33 jogos e apenas uma vitória. Em Ligas, disputou a terceira divisão entre 2014 e 2017, sendo quinta no último ano.

Camarões

Fora de seu continente, Camarões só tem vida a cada quatro anos, quando se apresenta para o Mundial, uma vez que Olimpíadas e Ligas são terrenos desconhecidos. Apesar da parca experiência em torneios de alto nível e de viverem na sombra de Egito e Tunísia na África, os Leões Indomáveis não se deixam humilhar em suas aventuras quadrienais – e até aprontam de vez em quando.

Perspectivas. Camarões é franco-atiradora no Grupo C do Mundial. Entrará em quadra, em todos os jogos, sabendo que é o lado mais frágil. Uma vaga na segunda fase é exercício de difícil imaginação. Mas o time se dará por satisfeito caso consiga aprontar para cima de Austrália ou Tunísia, a quem venceu no Africano-2015, e arrancar sets de Rússia, Sérvia ou Estados Unidos, como tradicionalmente faz.

Como se classificou. Com três vagas em disputa no Campeonato Africano-2017, Camarões, após perder para o Egito na semifinal, fez jogo de vida ou morte contra a Argélia, vencendo por 3 a 1 de virada. Marcará presença num Mundial pela quarta vez.

Últimas temporadas. Camarões se manteve alijada das grandes competições neste ciclo: não disputou as últimas Olimpíadas, não alinhou em nenhuma Liga Mundial. No Campeonato Africano-2015, ficou fora das semifinais após derrota para Marrocos. Em 2017, foi bronze.

Camarões contra Argélia no Africano em 2017 (Reprodução do site da CAVB)

O comandante. Depois do insucesso no Africano-2015 e no Pré-Olímpico-2016, a federação camaronesa dispensou o germânico Peter Nonenbroch e promoveu Blaise Mayan ao cargo, uma aposta caseira. Ele, durante anos, trabalhou como instrutor da FIVB em cursos de formação de treinadores na África.

O time. Na ausência de Mboulet, que, por anos, foi o pilar dos Leões, outro nome da velha guarda desponta como protagonista: o ponta Wounembaina, 33, que recentemente sagrou-se campeão francês com o Tours. Ele dividirá os ataques com David Feughouo, 29, que também joga na França. No último Africano, Yvan Kody, 27, jogador do Piacenza, da Série A italiana, foi eleito o melhor atacante.

Em Mundiais... Camarões tem apenas três aparições em Mundiais. A première, no Brasil-1990, não foi das melhores, mas superou as expectativas para um time tão inexperiente: seis jogos, cinco derrotas, quatro sets vencidos. A única vitória, 3 a 0 contra a Venezuela, no Torneio Consolação, rendeu o 15º, e penúltimo, lugar. O feito, porém, foi ter arrancado um set dos Estados Unidos, uma das potências da época. Em 2010, Camarões surpreendeu ao avançar de fase, superando a Austrália, adversário bem mais calejado, por 3 a 1. Na etapa seguinte, voltou a desafiar os EUA, levando o jogo para o quinto set. Despediu-se com uma derrota para a República Checa por 3 a 0, finalizando em 13º, entre 24 seleções. Em 2014, voltou para casa com cinco derrotas, mas arrancou um set de Polônia e Sérvia.

Jejum na África. A primeira participação camaronesa em torneios internacionais importantes se deu em 1989, na Copa do Mundo. Foram sete derrotas por 3 a 0. Até hoje Camarões não disputou Olimpíadas ou Liga Mundial. E, dentro do continente, são apenas duas conquistas: em 1989, batendo a Argélia na final, e em 2001, sobre a Nigéria – neste, as potências locais, Egito e Tunísia, não participaram.

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