Premier League: O sonho comanda o Leicester

De uma equipa aparentemente banal, o Leicester tornou-se num exemplo de superação, de esforço e glória. Mérito a Ranieri que soube tornar um conjunto de onze guerreiros numa grande equipa, e que transportam consigo os sonhos de todos os seus adeptos.

Premier League: O sonho comanda o Leicester
O líder, Leicester é um exemplo para o futebol mundial.

O futebol é nos dias que correm muito mais que um desporto. Para lá do lado emocional que está associado, surgiu toda uma indústria desportiva que resulta dos enormes dividendos económicos que este desporto transporta. O século XXI trouxe-nos uma nova realidade onde as distâncias entre clubes grandes e pequenos têm se acentuado progressivamente. Do futebol de Eusébio, Pelé, ou Beckenbauer pouco resta, e o futebol dos dias de hoje permite cada vez menos surpresas. A Premier League, considerada por muitos como o melhor campeonato do mundo não foge a esta tendência, onde a cada novo início de época é possível apontar um conjunto pequeno de equipas capazes de vencer a prova. Mas e se de repente, qual David contra Golias, surgisse uma pequena equipa das East Midlands capaz de afrontar gigantes como Manchester City, Manchester United, Chelsea ou Arsenal, e conquistar o direito a figurar na história do desporto inglês. É o Leicester a provar-nos uma vez mais, que o sonho comanda a vida.

O sonho inglês

No início da época 2015/2016 poucos apostariam num Leicester líder do campeonato inglês, quando estão decorridas 25 jornadas da prova. Os números não enganam. Em 25 jogos para o campeonato, o Leicester amealhou até ao momento 53 pontos (15 vitórias, 8 empates e apenas 2 derrotas!), tendo ainda o melhor ataque do campeonato com 47 golos marcados. Números verdadeiramente extraordinários, para uma equipa que no início de época era apontada como um dos principais candidatos à descida de divisão, e que há exactamente um ano atrás ocupava a última posição da Premier League, tendo assegurado a manutenção nos últimos jogos do campeonato. Quando Claudio Ranieri assumiu o comando da equipa, prometeu um Leicester a praticar bom futebol, e a lutar por uma vaga na Liga Europa. A promessa pareceu aos olhos dos críticos demasiado ambiciosa para um conjunto modesto, aparentemente sem grandes estrelas e que vinha de uma época atribulada onde a manutenção fora assegurada em cima da meta. Mas a verdade é que mais uma vez o futebol encarregou-nos de mostrar o porquê de ser o desporto rei,e pouco a pouco o Leicester deixou de ser a surpresa do campeonato inglês, para se tornar num dos principais candidatos ao título de campeão. Mérito a Ranieri, que soube montar uma conjunto coeso tacticamente, e que tem em Vardy e Mahrez as suas grandes figuras.

 

Magia nos pés de Mahrez e Vardy

Após uma desastrosa campanha como seleccionador grego, Ranieri assumiu os destinos do Leicester, tendo como principal objectivo garantir a manutenção o quanto antes. Num campeonato extremamemente competitivo, Ranieri conseguiu montar uma equipa que tem sido capaz de manter uma regularidade exibicional excepcional. O Leicester é hoje uma equipa adulta, com jogadores que sabem interpretar os vários períodos do jogo, e que executam na perfeição as ideias de jogo do seu treinador. O maior predicado deste Leicester é a entrega ao jogo e espírito de equipa dos seus jogadores, onde todos trabalham na busca de um mesmo objectivo. Defensivamente a equipa apresenta uma enorme segurança, onde a meio-campo Kante e Drinkwater, mas também Albrighton quais operários, garantem a coesão táctica da equipa, ao mesmo tempo que libertam as suas maiores estrelas. Este mesmo papel tem Okazaki, que jogando lado a lado com Vardy tem a missão de ser o primeiro elemento a pressionar o adversário, e a garantir a Vardy e Mahrez os espaços necessários para aparecerem. Lá atrás Kasper Schmeichel é o guardião da baliza dos Fox, o derradeiro bastião do futebol do Leicester.

Jogando num 4-4-2 clássico, o Leicester tem em Vardy e Mahrez as suas principais estrelas, tendo os dois jogadores apontado 32 dos 47 golos da equipa na liga. Números verdadeiramente estratoféricos e que lhes garantem o estatuto de principais revelações do futebol mundial nesta época. De Mahrez espera-se a cada novo instante, um novo truque, uma nova obra-de-arte que transforme futebol em magia. É o maestro da orquestra de Ranieri, um predestinado capaz de transformar o futebol numa arte, um génio que alimenta plateias com os seus truques, um fazedor de sonhos.

Vardy, o mortífero goleador do Leicester.
Vardy, o mortífero goleador do Leicester.

Se Mahrez é magia no seu estado mais puro, Vardy é eficácia, o matador de serviço da equipa do King Power Stadium. Vindo da quarta divisão do futebol inglês, Vardy é hoje um dos melhores avançados do mundo, um exemplo de entrega e superação, um matador que não perdoa e que garante aos seus adeptos o direito a sonhar a cada novo lance, a cada novo jogo. Vardy não só lidera a tabela dos melhores marcadores da Premier League, como entrou na história da mesma ao bater o recorde de jogos consecutivos a marcar na prova. Para se ter uma noção da sua importância, basta analisar os números, onde no seu período de maior seca, o Leiscester passou também pelo seu pior período esta época. De Vardy esperam-se golos, e ele jornada após jornada lá vai cumprindo o seu fardo. Vardy é o comandante supremo do sonho do Leicester. Se há jogador que simboliza na perfeição a caminhada triunfal dos “Fox”, esse é Vardy que aos 24 anos trabalhava numa fábrica, para hoje ser uma das principais estrelas do futebol mundial.

Por fim, mas não menos importante deve-se evidenciar Ranieri. Se até então o italiano pouco currículo tinha para apresentar, o trajecto formidável do Leicester merece figurar na história da Premier League aconteça o que acontecer até final da época. Ranieri é a mente por trás do projecto de grande equipa em que se transformou o Leicester. As bases das suas ideias estão todas lá: coesão táctica, segurança defensiva, e acima de tudo eficácia. Neste ponto, o Leicester é a segunda melhor equipa do campeonato inglês no que diz respeito à concretização das oportunidades criadas. Jogando num 4-4-2 mais conservador, Ranieri dotou o seu conjunto da frieza típica das equipas italianas, onde as transições rápidas constituem a principal imagem de marca deste Leicester, que ainda no passado Sábado foi ao Etihad bater o Manchester City por esclarecedores 1-3.

Quando faltam jogar treze jornadas da Premier League, o Leicester ganhou o direito a sonhar com um título de campeão, que teria tanto de inédito como memorável. O Leicester é a representação do sonho no futebol moderno, a prova de que com trabalho, superação e talento tudo é possível. A verdade é que mesmo que no fim o sonho não se cumpra, a turma de Ranieri já ganhou o respeito de milhões de adeptos por todo o mundo, que jornada após jornada vão aplaudindo os feitos de um conjunto de onze grandes guerreiros, que provaram uma vez mais que o sonho comanda a vida.

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