Especial VAVEL: A magia tática do Clássico de águias e dragões

No rescaldo do Benfica 1- 2 Porto, acompanhe os desenhos táticos de Rui Vitória e José Peseiro no clássico da passada sexta-feira.

Especial VAVEL: A magia tática do Clássico de águias e dragões
Foto: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Do 4-4-2 de Rui Vitória ao 4-2-3-1 de José Peseiro, conheça as alterações constantes no xadrez de ambos os técnicos que, ao longo do mega clássico, foram mudando as peças de jogo, aumentando a espetacularidade do empolgante duelo entre águias e dragões. Mais que uma finta ou um golo, por vezes o futebol impressiona pelo empenho estratégico dos treinadores. Observe em VAVEL Portugal todas as etapas do Benfica 1-2 Porto.

20 minutos iniciais: "Vitória" tática encarnada

Nos instantes iniciais do intenso Benfica x Porto, Rui Vitória apostou finalmente na estratégia habitual de alinhar com 2 setas apontadas às redes de um rival directo na luta pelo título. No Porto, as águias jogaram com um miolo reforçado e apenas 1 artilheiro, fugindo ao ADN que mais alegrias tem dado aos associados da Luz. Já no jogo desta 22ª jornada, também contra o rival do Norte, os encarnados assumiram o desenho tático que tantas goleadas tem somado: o quarteto defensivo, a dupla de médios, extremos bem abertos nas alas e ainda dois avançados na frente.

Os dragões de Peseiro apostaram num sistema surpreendente, com Danilo e Herrera mais recuados no centro do terreno deixando André André, Brahimi e Corona vagabundos no ataque a apoiar Aboubakar na luta contra os defensores das águias. Estes desenhos táticos dizem respeito aos primeiros 20 minutos, com o Benfica a ganhar no duelo estratégico neste período. Os pupilos de Vitória foram surpreendidos pelo modelo portista, mas conseguiram rapidamente contornar o posicionamento azul e branco.

No bloco portista, Brahimi juntou-se a Aboubakar, com André André e Corona a encostarem-se às alas e a tentar formar um modelo que pudesse alternar um 4-2-3-1 com um 4-4-2. A posição de Brahimi foi a nota de destaque dos cinco primeiros minutos, mas a maior  inteligência do desenho consolidado do Benfica  anulou a postura audaz dos azuis-e-brancos. A qualidade de Samaris e Renato tomaram conta do encontro neste período inicial, com o miolo encarnado a abafar os apagados Danilo e Herrera. O mexicano portista deixou o médio luso muito sozinho na batalha a meio-campo, impulsionando o futebol bonito de  Renato. A jovem pérola do Seixal destronou o sistema de Peseiro e foram inúmeras as investidas em que conduziu o esférico depois de ganhar bolas ao Porto em zona subida, juntamente com o apoio de Samaris.

Os Dragões tentaram controlar a posse de bola mas essa tentativa não permitiu aos azuis criar qualquer lance de perigo. A pressão de Samaris e Renato levou a bola para a extrema direita, onde André Almeida e Pizzi provocaram estragos na descompensada equipa da invicta. Antes do golo benfiquista, destaque para o lance de contra ataque encarnado conduzido por Pizzi, que aproveitou o desposicionamento da formação do Porto para fintar o último reduto adversário, rematando para defesa apertada de Casillas. Este lance iniciou-se num ataque falhado do Porto, que perdeu uma bola em zona subida, permitindo ao batalhador meio-campo vermelho partir para uma jogada conduzida por Pizzi. Nem Danilo, nem Herrera e nem André André conseguiram apoiar a desamparada defesa dos dragões.

O aviso estava feito e, ao minuto 18, Renato Sanches esmagou o meio-campo portista e, com uma perícia entusiasmante, serviu o grego Mitroglou para o primeiro golo da partida. O processo de jogo Benfiquista ficou bem patente neste golo, com um lance dinâmico que foi, à imagem de outros jogos, a asfixiar as defesas contrárias. O Benfica, com o seu sistema consolidado, contou com 5  unidades no processo ofensivo, dando sequência a investidas que se têm repetido e resultado muitas vezes em goleadas noutras partidas. Os dragões facilitaram taticamente, deixando Renato solto para fazer o passe letal para o tiro de Mitroglou.

Posto isto, fica o apontamento para 20 minutos dominados pelo sistema de Rui Vitória, que não permitiu ao Porto imprimir uma posse de bola perigosa, tendo os azuis registado zero remates nesta fase. Algo estava a falhar para Peseiro, que foi obrigado a alterar o tabuleiro de jogo, para que a qualidade dos seus jogadores prevalecesse no desenho tático mais adequado para responder ao domínio estratégico das águias.

Do minuto 28 ao minuto 70: Peseiro contra-ataca

No xadrez tático portista, o golo sofrido foi o ponto de viragem no duelo estratégico dos treinadores. José Peseiro percebeu que ganharia muito mais em encostar Brahimi a uma ala, formando um núcleo forte de 3 médios composto por Danilo, André André e Herrera. Com esta mudança, o dragão passou a alinhar no sistema com que iniciou temporada, com mérito para Peseiro que soube solidificar a equipa com o processo de jogo em que o colectivo azul e branco tinha mais automatismos.

De regresso ao 4-3-3, o técnico variou, no entanto, num factor: Herrera passou a surgir como médio ofensivo na posição 10, apoiando de perto o matador Aboubakar. Ao tornar o meio-campo mais compacto os invictos equilibraram o confronto com Samaris e Renato. Ao minuto 28, o colectivo portista saiu para o ataque com velocidade e Herrera, na sua nova posição, puxou do gatilho e restabeleceu a igualdade num lance em que a defensiva encarnada deixou o mexicano sem oposição, ficando solto para bater Júlio César. Neste período não se pode dizer que o Benfica estivesse inferior ao Porto, mas o equilíbrio era muito mais evidente.

Com o 1-1 os espectadores passaram a assistir a um duelo lindíssimo e de pura estratégia dos treinadores. As batalhas a meio-campo sucederam-se e em processo ofensivo o Benfica demonstrou estar de novo à altura do xadrez azul, com Renato e Pizzi a serem os "Ás" para ultrapassar o musculado e dinâmico miolo dos dragões, com as águias a continuarem a somar e somar oportunidades para marcar.

A explicação para nova resposta à cartada de Peseiro reside no desenho tático firme e consolidado, que impediu o dragão de manter o ímpeto ofensivo depois do golo de Herrera. O estratega Rui Vitória confiou nas suas ideias e os lances bem construídos pelo colectivo vermelho e branco resultaram em oportunidades para Mitroglou, Gaitán e Jonas, valendo o trunfo Casillas a estragar os planos bem idealizados por Rui Vitória. O Porto registou também outro lance semelhante ao golo, com Herrera novamente em zona subida a fugir aos benfiquistas e a rematar com perigo.

Foto: Instagram do FC Porto
Foto: Instagram do FC Porto

Ao minuto 65, o jogo calculista de Peseiro voltou a dar frutos e o Porto aproveitou as facilidades defensivas dos homens da Luz para dar a volta ao marcador. Aboubakar contornou os adversários e bateu Júlio Cesár pela segunda vez, ficando Jardel mal na fotografia. Este golo viria a revelar-se letal para o desfecho do duelo tático, uma vez que depois deste tento Rui Vitória se precipitou nas substituições e estragou o sistema que até então tinha permitido aos seus pupilos criarem ocasiões para balançar a rede. Até ao minuto 70 o Benfica registava imensas oportunidades, mas o guardião Casillas, aliado a uma ineficácia tremenda, impediram os encarnados de voltar a festejar. Os portistas não tiveram muitos lances de golo, mas foi na eficácia que o tabuleiro de jogo de Peseiro superou o de Rui Vitória. Os dragões souberam sofrer, equilibrar, lutar e aproveitar duas desconcentrações do oponente para lançar os dados da vitória.

Concluindo, fica na retina que, no período dos 28 aos 70 minutos, o jogo foi mais  equilibrado, no sentido em que os sistemas estratégicos estiveram encaixados, valendo no entanto o jogo cínico de Peseiro que colocou a equipa a jogar de forma mais pragmática. Esse pragmatismo reflectiu-se no golo eficaz de Aboubakar, a contrastar com as jogadas vistosas do Benfica que culminavam em falhanços diante Casillas. A partir daqui, Rui Vitória evidenciou um desespero mortal que não voltaria a colocar as águias perto do 2-2.

Últimos 20 minutos: Peseiro fez o xeque-mate em Vitória

O golo de Aboubakar alterou o rigor tático de Rui Vitória, levando o treinador a proceder a substituições absurdas que deixaram o Porto confortável a defender a vantagem até ao fim. O treinador Benfiquista retirou do recinto de jogo Eliseu, Samaris e Pizzi, e muito mudou na águia. A saída de Samaris para a entrada de Talisca deixou Renato a alinhar como médio mais recuado, com o brasileiro a compôr o duo de meio campo. Esta modificação deixou o tabuleiro de Vitória completamente desorganizado, com Renato a subir também no terreno e a deixar o centro do terreno descompensado. Com isto, o Benfica perdeu o critério e equilíbrio que Samaris oferecia juntamente com Renato a jogar no posto onde rende mais. Com Talisca, o Benfica perdeu poder defensivo no miolo e, com a entrada incompreensível de Salvio para o lugar de Pizzi, os vermelhos ficaram sem velocidade e dinamismo para colocar o esférico na área azul e branca. A entrada de Carcela até fez sentido, mas não era necessário retirar um lateral colocando Gaitán mais recuado.

No geral, o Benfica deu um tiro no próprio pé ao alterar um 4-4-2 firme e equilibrado para um sistema aleatório e desorganizado, que apenas resultava em ter peças ofensivas sem que existisse critério e transporte de bola que levasse a bola redondinha para os avançados. Os encarnados deixaram de criar perigo e o Porto foi inteligente na forma como soube tirar partido do desnorte dos lisboetas. Peseiro respondeu e fez entrar Marega e Rúben Neves, que foram trunfos interessantes para controlar os 6 elementos de ataque dos homens da Luz. O Porto, pelo cunho de Peseiro, formou um bloco coeso no miolo, e Rúben Neves entrou que nem uma luva na missão de evitar o empate do oponente.

Para terminar, fica o apontamento para o round final de Peseiro, que faz do técnico o vencedor improvável do duelo estratégico dos treinadores. O Porto ainda não tem bem assimilados os processos de jogo do novo treinador, mas soube receber as indicações do estratega de forma clara, com Peseiro a fazer a leitura perfeita ao desnorte tático de Vitória nos derradeiros minutos do Clássico. O resultado, portanto, é muito simples: o Porto foi alterando o desenho tático para contrariar o tabuleiro de jogo organizado do Benfica, e quando os encarnados alteraram o processo habitual acabaram por entrar no jogo de Peseiro. Neste duelo de estratégia e espionagem pesou mais o estratega Peseiro, que lançou melhor os dados e ofereceu uma derrota "ao Vitória". 

Futebol Português