Golos contra o ténue meio-campo: Benfica escondeu fragilidades com goleada

Contra o SC Braga, o Benfica fez-se valer da sua veia goleadora para dissipar os problemas criados no arranque da partida pela formação minhota. A entrada dominadora dos arsenalistas expôs as fragilidades do miolo encarnado, os golos esconderam tais debilidades. Fique com a crónica VAVEL.

Golos contra o ténue meio-campo: Benfica escondeu fragilidades com goleada
Foto: SL Benfica/Facebook Benfica

A goleada transpareceu a qualidade ofensiva de um Benfica habituado a multiplicar-se criativamente no desenvolvimento atacante, mas, ainda assim, não chegou para obnubilar as dificuldades denotadas no jogo defensivo do seu meio-campo. A partida contra o SC Braga, que redundou numa gorda vitória caseira, começou, precisamente, por demonstrar as fragilidades defensivas dos encarnados ao nível do miolo - com o duplo pivot entregue ao meio-campo bracarense, o Benfica demorou para se encontrar na partida.

Na verdade, o SC Braga gozou até de espaço a mais para poder desenvolver as suas jogadas iniciais, que resultaram em dois lances de golo iminente: uma bola no poste e uma desmarcação na cara do guarda-redes, com as Águias a verem jogar. Foi, sim, a pressão ofensiva efectuada à construção bracarense que permitiu sacudir o domínio dos Guerreiros do Minho e abrir caminho ao golo que tranquilizou a equipa da casa. Sem coberturas duras mas disciplinadas a meio-campo, o Benfica sofreu para dominar o ímpeto bracarense. E fê-lo da maneira que sabe: marcando.

A partir daí, a equipa encarnada pegou no ritmo do jogo e, passo a passo, ganhou ascendente sobre o adversário, que esmoreceu. Mas na retina de Rui Vitória, para posterior lição e correcção, terá certamente ficado a pecha habitual do Benfica desde Jorge Jesus: o meio-campo pouco povoado, enquadrado num sistema táctico que apenas por boa vontade poderá ser apelidado de 4-4-2. É certo que a presença de Pizzi numa das faixas torna o sistema mais equilibrado, mas, ainda assim, são visíveis as lacunas posicionais da equipa quando é apanhada em desequilbrios.

Fejsa é, além do mais, o espelho exemplar disso mesmo: o sérvio é o único médio defensivo utilizado por Rui Vitória, e nem mesmo André Almeida, de pendor defensivo, está totalmente familiarizado com as obrigações técnicas e tácticas de um trinco declarado. Felizmente para o técnico, o sérvio pôde actuar, pois com Samaris e Renato Sanches o meio-campo torna-se ainda mais ténue - o grego está longe de ser um centrocampista especializado nas tarefas defensivas, ainda que vá emprestando alguma qualidade ao sector. 

Se o 4-2-4 da era Jesus era, sem tirar nem pôr, um autêntico modelo de ataque desenfreado (mitigado, ao longo dos últimos dois anos, com maiores equilíbrios dados até pelos dois avançados versáteis e trabalhadores), o de Vitória, com o regresso da aposta num ponta-de-lança (Mitroglou), volta a ser um sistema claramente desequilibrado - Gaitán raramente defende por hábito, Mitroglou não se presta a essa tarefa em zonas mais recuadas (como era característica de Lima) e quando Pizzi falha as coberturas, o Benfica fica subitamente entregue aos ataques de rapina dos adversários.

E fica entregue aos tais ataques (ora restando-se descoberto tacticamente ora permitindo desenvolvimento de jogadas pela zona interior) porque o duplo pivot central, que está encarregue de ser o tampão e o motor primário da construção das jogadas, não pode, naturalmente, chegar para todas as encomendas. Renato Sanches exemplifica bem essa pecha: móvel, impetuoso e criativo, é ele a inaugurar o pensamento distributivo do jogo encarnado, e, porque quem constrói tem sempre de arriscar algo, é fácil que o jovem se encontre, por vezes, desposicionado. Num ápice, o tal duplo pivot pode resumir-se apenas a um jogador.

Na Luz, frente ao Braga, o Benfica respondeu às dificuldades com golos, como tantas vezes tem feito nesta Liga: marca que se farta e nem sempre produz caudal coerente para construir as suas goleadas (relembre-se o 0-5 imposto no Restelo). Mas parece-me que aí reside o elogio encarnado de temporada 2015/2016: sem rodear a presa sobremaneira, sem rendilhar o seu ataque feroz, a Águia tem sabido ser poderosa. Leva 76 golos celebrados na Liga, mais 15 que o seu mais directo perseguidor, e ainda não ficou em branco na «Champions».

Jonas tem encabeçado esta veia goleadora que pulsa no Benfica de Vitória; Mitroglou, agora perfeitamente adaptado, tem sido um parceiro pertinente, apto a acrescentar letalidade na área. Pizzi tem sido um importante auxílio ofensivo (com uma quantidade de golos assinalável) e Renato Sanches veio, simplesmente, modificar a orgânica do jogo encarnado, dando combatividade e projecção. Quando Gaitán se encontra em forma (raramente, nos tempos que correm), este Benfica pode, sem a eloquência doutros tempos, fazer danos bastante grandes nos adversários da Liga.