Luz gelada na estreia: Vitória experimentou e Vitória fez o Benfica pagar

O Benfica foi sustido, em casa, pelo engenho de um Vitória de Setúbal astuto e sólido. Perante 60 mil adeptos, o tricampeão mudou de táctica e a transformação operada por Rui Vitória emperrou a equipa. O treinador encarnado parece viver um dilema entre dois sistemas tácticos.

Luz gelada na estreia: Vitória experimentou e Vitória fez o Benfica pagar
Luz gelada na estreia: Vitória experimentou e Vitória fez o Benfica pagar

Na estreia do tricampeão na Luz nesta temporada 2015/2016, a turma sadina comandada por José Couceiro cortou as asas à Águia e contrariou o total favoritismo do Benfica, impedindo a equipa de Rui Vitória de somar a segunda vitória seguida na Liga, a terceira na nova época. Alinhada num 4-2-3-1, a formação encarnada tardou em adaptar-se à estratégia do Vitória Futebol Clube e só na recta final foi capaz de empurrar os sadinos para dentro da sua própria área. O empate, através de uma grande penalidade, e o sufoco derradeiro, apenas esconderam a dificuldade das Águias em contornar o obsctáculo setubalense durante os 90 minutos.

Em reflexão à vitória em Tondela, redigi um artigo com foco na volatilidade do meio-campo benfiquista, analisando, de acordo com a minha visão, os problemas de Rui Vitória em consolidar o miolo da sua formação. Cronicamente erigido num 4-4-2 ofensivo (desde os tempos de Jorge Jesus), o Benfica seguiu o modelo em 2015/2016 com Vitória ao leme, mas, com as mutações forçadas (saídas de Gaitán e Renato), o técnico parece, neste arranque de época, encarar o 4-2-3-1 como uma potencial solução para dar corpo, força e cabeça ao meio-campo encarnado.

Com as debilidades naturais que saídas nucleares provocam (acrescendo-se a elas a lesão de Jonas), Rui Vitória terá cedo entendido que o 4-4-2 poderia tornar-se num sistema táctico periclitante e inseguro, dado ter, predominantemente, apenas dois centrocampistas declarados. Com Cervi ainda em fase de adaptação, resta Pizzi para auxiliar o miolo, quer na elaboração do ataque quer na solidificação do processo defensivo. Vitória havia dado sinais de apostar na variação do sistema quando, em Tondela, impôs o 4-2-3-1 para segurar o jogo e manietar o adversário, sempre inquieto e perigoso.

A surpresa chegou ontem, na hora da revelação do onze inicial: sem Gonçalo Guedes ou Raúl Jiménez no alinhamento titular, o Benfica partia para o embate caseiro num 4-2-3-1 com Horta no centro (acompanhando Fejsa) e Salvio encarregue de dar vida à faixa direita do ataque. Pizzi permanecia no onze, subindo no terreno e desempenhando o papel de médio ofensivo. A experimentação de Rui Vitória tarde ou nunca deu frutos: sem ligação entre o meio-campo e um isolado Mitroglou, o Benfica raramente foi capaz de construir jogadas e domar o Vitória de Setúbal.

Espraiado num desenho feito de desapoios, o esquema encarnado devotou Mitroglou ao esquecimento, anulou a capacidade de transição de Horta e obliterou as faixas laterais do ataque, ficando Cervi e Salvio sem qualquer conexão com o desorganizado jogo interior da equipa. Pizzi, outrora elemento importante, quedou-se pela mediocridade, parecendo cada vez mais claro que ganha preponderância sempre que actua na ala. Sem triangulações nem rupturas, o Benfica via-se manietado pela astuta povoação dos espaços por parte dos sadinos, que não se amendrontaram pela casa cheia.

O golo do Vitória Futebol Clube premiou a boa organização colectiva da equipa forasteira e puniu um Benfica lento, pastoso e sem ideias; claramente inadaptada ao esquema gizado por Rui Vitória, a Águia arrastou-se assim até ao minuto 60, altura em que o técnico decidiu voltar à habitual fórmula, lançando mais um avançado (Jiménez) no jogo e depois Carrillo. Não será estapafúrdio observar que o plano de jogo do treinador saiu furado: a experimentação foi um obstáculo à própria equipa, mas, a meu ver, a preocupação com a solidez do meio-campo não é menos que pertinente. E Vitória sabe-lo.

Daí ter disposto a equipa em 4-2-3-1, testando um meio-campo com maior densidade, como já havia feito quando, a precisar de controlar as operações no miolo, lançou Samaris na partida frente ao Tondela. A surpresa (minha e de uns quantos) não reside na tendência para utilizar tal táctica, mas sim na opção de iniciar o jogo (em casa, frente a um oponente de menor valia técnica) nesse mesmo modelo, quando, aparentemente, pouco ou nada o justificava. Gonçalo Guedes viu-se relegado (após ter realizado uma boa partida em Tondela a segundo avançado) e Salvio, apesar de esforçado, mostrou que foi aposta errada. 

Demasiado encostado à faixa, o argentino foi sempre um foco de instabilidade na posse de bola encarnada através das suas correrias (muitas delas inconsequentes) e raramente soube encaixar-se numa dinâmica colectiva que deve ter como prioridade a ligação exterior/interior, ou seja, a circulação, a basculação e a racional (e por vezes paciente) procura dos espaços mais cruciais. Com um interior desorganizado e as faixas isoladas, o Benfica foi presa de um Vitória bem montado, que rapidamente entendeu quais os pontos a anular. É caso para dizer que o Vitória experimentou, e o Vitória fez o Benfica pagar...

O 4-2-3-1 poderá até, no futuro, ser um sistema utilizado pelo Benfica de forma regular, mas terá de ser bem oleado, bem definido e muito treinado. A abrupta alteração de planos transformou o Benfica inseguro de Tondela num Benfica apático e molengão perante 60 mil adeptos vermelhos. O problema, esse, reside sempre a meio-campo, mas só o tempo poderá acelerar as adaptações a serem feitas, quer no 4-4-2 quer no 4-2-3-1. Esperemos pela deslocação à Choupana para perceber mais sobre os planos de Vitória para o Benfica 2016/2017.