4-3-3 foi a conta que...Jesus fez
Jesus instrói o seu pupilo Matic (Foto: Miguel Barreira)

4-3-3 foi a conta que...Jesus fez

Mais de quatro épocas utilizando um modelo híbrido do 4-4-2, Jorge Jesus alterou estruturalmente a sua forma de abordar o jogo, mudando a táctica para um 4-3-3 que reforça o meio-campo. As exibições melhoraram, contrastando com as do 4-2-4 periclitante deste início de época, onde a disponibilidade (física e emocional) nunca foi a mesma que a da temporada transacta. E agora, será que a alteração táctica veio para reinar na Luz?

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Foram vários anos, aqueles em que o Benfica foi arquitectado nas sustentações de um endoesqueleto «4-4-2». Em 2009-2010, jogando num 4-4-2 diamante, com Ramires a fazer a média-ala direita e a fechar perto da zona de acção de Javi Garcia, e com Aimar ou Martins atrás dos avançados. Depois, esse equlíbrio perdeu-se e Javi Garcia ficou solitário no meio-campo defensivo, enquanto os laterais e os extremos nunca deixaram de ser extremamente ofensivos. Chegados ao ano passado, vislumbrámos o desabrochar completo e inequívoco do 4-2-4, com extremos pontiagudos e quase sempre ausentes no centro do terreno, laterais a percorrer o flanco inteiro e dois jogadores centrais tomando conta de toda a zona do meio-campo, quer ofensiva quer defensivamente. Com a nova temporada a decorrer, tal continuidade não serviu os interesses do Benfica e Jorge Jesus alterou o sistema: com o 4-3-3 em Atenas, o Benfica voou alto e só pecou na finalização. 

Do 4-2-4 para o 4-4-3: uma guinada suave

Jesus alterou e viu dois jogos consistentes por parte do Benfica, pelo menos na circulação de bola e na segurança com que a equipa se explanava no terreno. Com três jogadores no centro, a capacidade de posse de bola e de pressão sobre o adversário é maior e, comparando um jogo com o outro, verificamos que o miolo encarnado ganhou uma batalha no último «derby» que tinha claramente perdido no primeiro duelo da época, que terminou com um empate. Com Matic a desempenhar o papel de médio defensivo demarcado, os médios centros adquirem maior segurança para enveredar por caminhos ofensivos: Enzo tem genes atacantes e desempenha bem (mérito total de Jesus) a função de médio ofensivo centro, enquanto o versátil e trabalhador Rúben Amorim pode subir e descer no relvado consoante as necessidades da equipa, ao estilo de um «box-to-box» que tão crucial pode ser no futebol moderno, pelos espaços que pode explorar (atacando) ou pelas zonas que pode cobrir (defendendo). Nas duas situações, será sempre uma peça a mais para desequilibrar a favor da equipa.

É no meio-campo que reside a grande transformação, pois, aritmeticamente falando, o Benfica passa a ter três activos no meio-campo: dois médios de perfil secundados por um médio recuado, que também apoia a linha defensiva, quer em posse de bola (recuando para buscar jogo ou circular a bola face à pressão do oponente) quer na defesa da sua área, juntando-se à cobertura desta e dobrando colegas em eventuais descompensações. Em termos de organização, o 4-3-3 compõe um desenho bem suportado, um endoesqueleto cuidadoso com as entrelinhas e preocupado com a batalha no centro do terreno. O ponta-de-lança passa a ter de se transformar num avançado versátil, que se movimente pela área e que saia fora dela para combinar passes com os colegas, enquanto que o segundo avançado do 4-2-4 desaparece. Nas extremidades, as movimentações também têm de ser afoitas, nunca se quedando paradas; os clássicos cruzamentos longos dão lugar a diagnonais compridas e triangulações constantes, onde os médios centrais surgem para oferecer linhas interiores de passe. Apesar da mudança, o Benfica adaptou-se rapidamente, e bem: Jesus deu uma guinada no volante táctico mas, aparentemente, tinha a curva bem estudada, já que os mecanismos encarnados pareceram fluídos.

  

Será Amorim a chave da mudança?

Amorim foi a peça adicionada à dupla Matic-Enzo, e assentou como uma luva. Forte a ajudar os companheiros na defesa, generoso a atacar, o médio português faz a ligação ideal entre Matic e Enzo e ainda explora espaços exteriores - Jesus ganhou um mouro de trabalho, apesar de o ter perdido, por lesão, frente ao Sporting. Será que esse impedimento poderá ser suficiente para o técnico encarnado dispensar o seu refrescante 4-3-3? Será Amorim a chave da mudança táctica deste Benfica, que, orfão do médio luso, terá de voltar ao esquema antigo? O jogo frente ao SC Braga esclarecerá tudo: ou este 4-3-3 veio para ficar, ou a sua nasceça foi somente uma adaptação contextual, longe de vir a ser encarado como uma mudança de orientação táctica estrutural.

Apesar de ter caracterizado o 4-3-3 como um sistema fácil de travar, Jesus rendeu-se às «nuances tácticas» do modelo de jogo, que, na teoria, se aproxima um pouco mais dos rivais FC Porto e Sporting, apesar das diferenças particulares que tornam cada sistema táctico único. No Sábado, frente ao Braga, Jesus estará fora de jogo mas a sua ordem será lei: o Benfica jogará como nos acostumou, a mudança veio para reinar na Luz?

 

 

  

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