O preço da mudança
Jardim, Jesus e Fonseca procuram a perfeição nas suas equipas. (Foto: Maisfutebol, Ionline, Record)

O preço da mudança

De 4-2-4 para 4-3-3, de 4-3-3 para 4-2-3-1, Jorge Jesus e Paulo Fonseca multiplicam-se em alterações tácticas que constrastam com o sistema de jogo de Leonardo Jardim implementado durante a pré-época e estabilizado durante a competição.

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André Cunha Oliveira

Sporting, Benfica e Fc Porto, assim perfilados à 11.ª jornada, ultrapassaram a dezena de jogos na Liga Portuguesa protagonizando percursos diferentes na competição, fruto das escolhas dos seus treinadores. Se uns sofreram com as flutuações e indecisões nos seus sistemas tácticos, outros beneficiaram com a coerência e confiança demonstradas na variante posicional escolhida para escalonar os seus jogadores.

«Mudar para quê?»

A pergunta foi feita por Leonardo Jardim a propósito da insistência dos jornalistas para com a estratégia dos leões de não assumirem a candidatura ao título. O técnico madeirense optou por enfatizar a eficácia do planeamento e dos objectivos delineados pela estrutura leonina e o cumprimento de todas as metas traçadas a nível interno. Ao lançar esta questão, Jardim fazia alusão a decisões como  a aposta na Academia, a recusa em assumir a pressão de vencer o título nacional e até a preferência pela conservação do sistema táctico herdado da temporada anterior e implementado em todas as equipas e escalões de formação dos leões.

Aquando da chegada do treinador a Alvalade, muito se especulou sobre o sistema táctico que mereceria a aposta de Leonardo Jardim. Recuando aos “primórdios” no Beira-Mar, chegou a falar-se num 4-4-2 para o Sporting, uma ideia que rapidamente se perdeu no esquecimento depois das primeiras sessões de treino e particulares na pré-época.

Jardim manteve o 4-3-3 de Jesualdo Ferreira mas mudou-lhe radicalmente a face, preterindo jogadores como Eric Dier e Fabian Rinaudo e apostando em atletas de perfil diferente como Maurício e William Carvalho. Com os princípios de jogo perfeitamente identificados no seu íntimo, Leonardo Jardim sabia como queria ver jogar o seu Sporting, pelo que os primeiros sinais positivos dados pela equipa acabaram por afastar qualquer hesitação e consolidar o 4-3-3 como o sistema de jogo dos leões para toda a época.

  

                                                                                                     Jardim não abdica do seu 4-3-3. (Foto: Maisfutebol)

Abdicando do duplo pivot, o novo técnico verde e branco percebeu a importância de contar com um médio defensivo com tarimba suficiente para segurar com eficácia o meio-campo, proteger o quarteto defensivo e organizar a saída dos médios. A descoberta de William Carvalho acabou por evitar a ida ao mercado e potenciou finalmente o melhor de Adrien e André Martins, ao mesmo tempo que a mobilidade e técnica de Fredy Montero ofereceu a dinâmica que faltou na temporada anterior ao trio ofensivo do sistema.

Com os resultados a ajudar, Leonardo Jardim não mudou por nenhum momento a táctica delineada para os jogos realizados até ao momento, tendo procedido a alterações no sistema apenas em situação de desvantagem no marcador, durante as partidas.

A verdade é que o sucesso destas alterações não  fez o técnico madeirense mudar de ideias. Com Islam Slimani a marcar consecutivamente nos finais das últimas partidas, inserido num esquema de 4-4-2, ao lado de Montero, Jardim continuou, e continua, a apostar no “seu 4-3-3”, seguindo uma coerência táctica da qual, pelo menos até ao momento, não se poderá queixar.

Do suicídio à quinta vida

Foi por várias vezes apelidada de “táctica suicida”, aquela implementada por Jorge Jesus na  campanha traumática de 2012/13. Com a perda de Javi Garcia e Witsel, o técnico encarnado fez recuar Enzo Pérez para o miolo e colocou-o a jogar em articulação com Nemanja Matic, constituindo o meio-campo do Benfica por apenas dois jogadores que, sozinhos, deveriam suportar a avalanche ofensiva de Nico Gaitán, Salvio, Lima e Cardozo. Na prática, um 4-2-4 que começou por suscitar muitas dúvidas mas que acabou por encarrilhar e proporcionar futebol espectáculo, fazendo sonhar o universo benfiquista.

Mas do sonho se passou ao pesadelo, vários meses depois. Do carrossel de ataque do início à estrutura periclitante que acabaria por desabar no final. A fantasia e criatividade abundantes nos quatro homens da frente não era depois contrabalançada o suficiente com um sector intermédio reduzido a dois elementos, um deles adaptado.

A estaticidade de Óscar Cardozo, acompanhada da pouca disponibilidade dos extremos para as tarefas defensivas, acabaram por desequilibrar o Benfica nos momentos-chave da época, deixando o treinador Jorge Jesus e as decisões técnicas subjacentes ao naufrágio do Benfica na temporada passada, com três títulos perdidos no espaço de dias, altamente questionados.

  

                                                                                                        Jorge Jesus já mudou várias vezes o sistema táctico
                                                                                                           do Benfica esta temporada. (Foto: SL Benfica)

Com a continuidade do técnico lisboeta assegurada, pensou-se que da análise aos problemas da época passada resultasse a sua resolução e a identificação das alterações a promover. Tendo ou não sido equacionada uma alteração do sistema táctico, o certo é que do leque de contratações promovidas por Jorge Jesus não saiu a compra de nenhum jogador para o sector intermediário (tirando Fejsa), de nenhum jogador com as características que se dizia que os encarnados mais precisavam.

O Benfica iniciou as primeiras jornadas de 2013/14 novamente em 4-2-4, sem nenhum 10, sem nenhum 8, outra vez com Matic e Enzo lançados às feras no miolo. A equipa desequilibrou-se uma vez mais e pareceu dar sinais de desgaste face ao final de época da campanha anterior. Jorge Jesus, cada vez mais pressionado, foi aguentando o barco procedendo a alterações pontuais, de certa forma parecendo responder e atender às críticas ao seu sistema exageradamente ofensivo, demasiadamente desprotegido. Ora adiantando ligeiramente Matic e colocando o compatriota Fejsa, com Enzo de volta à ala, ora passando para o tão falado 4-3-3 com Rúben Amorim jogando num triângulo com o argentino e o sérvio.

Foi aliás com esta última mudança – estrutural, diga-se – que os encarnados iniciaram um ciclo de recuperação apoiado num futebol estável e equilibrado, com a equipa a dar sinais muito positivos ao 4-3-3 com Matic, no vértice mais recuado, e Rúben Amorim e Enzo Pérez no triângulo que jogou na Grécia frente ao Olympiacos. Apesar da derrota (1-0), o Benfica pareceu estabilizar o seu jogo com a entrada de Amorim, o 8 lançado por Jesus que voltou a ser importante na vitória sobre o Sporting mas que acabaria por sair lesionado desse mesmo encontro.

Refém do único jogador com características de box-to-box no plantel, Jesus voltou a promover novas alterações tácticas na equipa, quebrando o ciclo de consolidação do sistema que parecia estar a evoluir.
A verdade é que no meio deste turbilhão o Benfica arrecadou mais três vitórias consecutivas e ascendeu ao topo do campeonato juntamente com o Sporting. Sem a mesma linha de continuidade e coerência de Jardim, mas com os resultados ao mesmo nível.

Ceder e perder

Dos vários treinadores que nos últimos anos foram chegando ao Estádio do Dragão, poder-se-á dizer que Paulo Fonseca é um dos mais audazes a sentar-se no banco de suplentes do recinto portista. Esquecendo Del Neri, que durou pouco mais de um mês à frente dos dragões, Co Adriaanse foi outro dos poucos treinadores do Fc Porto que ousou mudar à chegada à invicta. A sua defesa a 3, assente num pouco visto, em Portugal, 3-4-3, acabou por resultar e fazer do Fc Porto campeão nacional em 2005/06.

As mudanças promovidas por Paulo Fonseca não foram tão drásticas mas os resultados delas decorrentes têm sido dos piores vistos no Dragão nos tempos mais recentes. O ex-técnico do Paços de Ferreira também quis pôr fim ao clássico 4-3-3 dos azuis e brancos e inverter o triângulo utilizado nos últimos três títulos dos dragões, introduzindo um 4-2-3-1 a que os jogadores do Fc Porto não se têm conseguido adaptar.

Com Fonseca, Lucho avançou no terreno e aproximou-se de Jackson Martínez, ganhando uma aproximação à área que não se via nos tempos de Vítor Pereira. Ao mesmo tempo, a saída de João Moutinho promoveu a entrada do belga Steven Defour para o miolo, desempenhando o papel antes ocupado pelo internacional português mas numa posição mais recuada, ao lado de Fernando.

Habituado a assumir sozinho a responsabilidade das tarefas defensivas no meio-campo, o polvo teve aliás muitas dificuldades em adaptar-se à partilha do mesmo raio de acção com Defour, o que resultou numa forte desarticulação na zona intermediária e em todo o jogo dos portistas. Com Lucho muitas vezes demasiado longe do duplo pivot, e muito perto de Martínez, a conexão entre o meio-campo e o ataque do Porto foi praticamente inexistente nas primeiras partidas da equipa.

Ao mesmo tempo, a deslocação de Josué para a ala, ao lado do enérgico mas pouco fantasista Silvestre Varela, cria dificuldades na produção de jogo ofensivo e na perfuração das defesas contrárias, dando claramente a ideia de que faltam criativos ao futebol dos azuis e brancos, acostumado a estrelas como Hulk e James Rodríguez.

Cada vez mais contestado, Paulo Fonseca tem resistido a mudar o sistema que teima em querer implementar no Fc Porto, apesar de na última jornada, na derrota frente à Académica de Sérgio Conceição (1-0), ter alterado substancialmente no que até então tinha vindo a insistir.

                                                                                                      Paulo Fonseca apostou no 4-2-3-1 mas os resultados
                                                                                                                       não têm aparecido. (Foto: Record)

Em Coimbra, Fonseca fez recuar Josué às origens, no centro do terreno, mas no duplo-pivot juntamente com Fernando, mantendo-se Lucho González mais adiantado com Varela e Quintero nas alas. Perante as críticas da imprensa e dos adeptos à falta de profundidade oferecida pelo médio português no flanco, o treinador natural de Moçambique acabou por devolver o jogador ao sector onde está mais habituado a jogar. Os resultados, porém, não foram os melhores e traduziram-se na primeira derrota para o campeonato, e logo na primeira vez em que Fonseca cedeu às críticas.

A aposta em Quintero na ala também não resultou, com o colombiano a deslocar-se constantemente para o centro do terreno e a não conseguir criar desequilíbrios no corredor esquerdo.  Mais uma “invenção” de Paulo Fonseca, dizem os críticos, num treinador que conseguiu manter uma coerência táctica nas primeiras jornadas ao serviço dos dragões, mas para já ainda sem grandes reflexos no rendimento apresentado pelo Fc Porto . 

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