Super clássico Benfica x FC Porto visto à lupa
Lucho e Matic, bastiões das suas equipas

Super clássico Benfica x FC Porto visto à lupa

Benfica e Porto medem forças num embate que promete não deixar nenhum adepto do futebol indiferente; no próximo Domingo, os dois rivais jogam na Luz a liderança do campeonato e aqui em VAVEL.com analisamos à lupa cada uma das equipas, desde a sua disposição táctica às suas forças e fraquezas (Foto: AFP)

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O grande jogo aproxima-se rapidamente e todas as atenções começam, gradualmente, a centrar-se no embate histórico entre Benfica e FC Porto, clássico apaixonante do futebol português, duelo entre rivais eternos que se debatem, na linha da frente, pela hegemonia nacional. Suplantado pelos rivais portistas desde o fim da década de 80, o Benfica tem tentado regressar aos seus tempos aúreos, mas a série imbatível de consagrações do Porto tem sido, salvo raras excepções, um ininterrupto domínio avassalador. Quando olhamos para as duas últimas décadas do futebol português, é de óbvia constatação a incomensurável aptidão do FC Porto para acumular títulos nacionais: em 1993/1994, o Benfica de Toni sagrava-se campeão, apenas para repetir o feito onze anos depois, em 2004/2005, com Trapattoni ao leme da direcção técnica. Depois dessa conquista, somente mais uma ocorreria, em 2009/2010, no ano de estreia de Jorge Jesus. Na presente temporada, precisamente vinte anos depois do triunfo nacional obtido com jogadores como João Vieira Pinto, Rui Costa ou Mozer, o Benfica debate-se contra o seu rival mais opulento numa nova tentativa de quebrar o ciclo portista de vitória, que ganhou, na década de 90, um impulso gigantesco: sete ligas nacionais vencidas (91/92, 92/93, 94/95, 95/96, 96/97, 97/98, 98/99) contra duas arrebatadas pelas «águias» (em 90/91 e 93/94) e uma pelo Sporting (em 99/00). Empatados no topo, ao dobrar a metade do campeonato, Benfica, Porto e Sporting discutem o título nacional taco a taco, tendência que acentua a importância do clássico disputado no próximo Domingo, já que qualquer perda de pontos implicará profundas alterações na liderança classificação. 

Depois de nova década repleta de triunfos azuis e brancos, a batalha entre benfiquistas e portistas extremou-se, extravazando para fora do campo, inflamando o ambiente do futebol nacional e aumentando a pressão de vencer, com esse factor a ter efeitos mais perniciosos no Benfica, perseguidor constante do líder Dragão, e cuja ânsia e necessidade de triunfar tem vindo a tornar-se um obstáculo na própria persecução dos objectivos encarnados. O domínio portista no âmbito nacional estendeu-se à época de entrada no novo milénio: 6 campeonatos ganhos (02/03, 03/04, 05/06, 06/07, 07/08, 08/09) e duas cerejas europeias no topo do bolo - a inesquecível conquista da Liga dos Campeões, em 2003/2004, com Mourinho aos comandos, antecedida pela vitória na Taça Uefa, edição 2002/2003. Nas fileiras do Dragão alinhavam, à data, jogadores marcantes como Deco, Ricardo Carvalho, Maniche, Vitor Baía ou Derlei. André Villas Boas retomou o sucesso internacional ao arrecadar a Liga Europa 2010/2011 e o campeonato português, respondendo de forma peremptória ao excelente ano de estreia de Jesus, que prometeu quebrar a senda imparável do Porto. Apesar da promessa, tal não se sucedeu, e Vitor Pereira, o sucessor do jovem treinador, conquistou mais duas ligas, colocando o técnico das «águias» sob fogo cruzado, Chegados, depois desta viagem pela memória, aos dias de hoje, temos um empate no cimo da tabela, 33 pontos para cada um dos três grandes, num dos campeonatos mais disputados dos últimos tempos. O Benfica segue no seu quinto ano da «era Jorge Jesus» com apenas um título de campeão nacional, sentindo a pressão a ebulir, das ruas para a bancada, e da bancada para a mente, tanto do treinador como dos jogadores. No FC Porto, a tranquilidade é bem maior dada a bagagem de sucesso, mas Paulo Fonseca, actual treinador portista, não tem sido figura consensual no clube, alvo até, de forte contestação por parte da massa adepta. A eliminação precoce da Liga dos Campeões (desaire ao qual não é alheio o Benfica) e as fracas exibições na Liga Zon Sagres conduziram Paulo Fonseca a um beco, do qual só poderá sair ganhando e sagrando-se campeão nacional. Com Jorge Jesus, a história repete-se, igualmente.

Incongruências tácticas: o lado encarnado

Benfica e FC Porto partilham um vector comum nesta época, que é facilmente identificado mal olhamos para a estrutura táctica de cada uma das equipas: a incongruência funcional, que parte da incerteza estrutural da equipa. Essa incerteza é pautada por uma clara indecisão, relutância, que tem vindo a ser demonstrada por ambos os técnicos durante o desenrolar da temporada. Apesar desse comportamento, os dois treinadores partiram para a nova época com ideias fixas, filosofias de jogo bem sedimentadas e mecanismos de defesa e ataque bem definidos - o que depois se sucedeu? Já lá iremos. Jorge Jesus iniciou a temporada da mesma forma que encarou todas as outras: com um esquema táctico ultra-ofensivo, dois laterais com propensões atacantes, dois extremos virtuosos colados à linha para alargar o jogo encarnado, dois médios centrais versáteis e multi-facetados, e dois avançados na frente de ataque, um desempenhando o papel de «ponta-de-lança fixo», tal como um homem alvo, e o outro com apetências de segundo avançado, capaz de arrastar marcações, descair para as alas e buscar jogo a terrenos recuados. Este tem sido o esquelecto táctico de Jesus, apesar das nuances apresentadas todos os anos, fruto da adaptação da táctica aos jogadores disponíveis. Sem Ramires para se disfarçar de médio-ala, sem Witsel para pegar nas rédeas da função «box-to-box», ou sem Aimar para encabeçar o pensamento ofensivo com a 10 nas costas, Jesus foi moldando o seu esquema à medida das necessidades, sem nunca abandonar a fidelidade à filosofia ofensiva da transição vertiginosa, apoiada em extremos acutilantes e com a baliza na mente. Balançando entre o 4-4-2 diamante e o desginado 4-2-4, o treinador experiente construiu uma equipa apta a torpedear o oponente com as suas velozes cavalgadas para o ataque, criando situações de jogo em que manobra com 6 a 7 jogadores na imediação da área contrária: os dois avançados, os dois extremos, os centro-campistas e um lateral, que normalmente sobe para gerar sobreposições no flanco. 

Criada para dominar na transição e não na posse de bola, a formação do Benfica foi, ao longo dos tempos, desvendando as suas insuficiências tácticas, causadas pelo fulgor atacnate, muitas vezes desmedido e tacticamente insuportável. Se o 4-4-2 diamante de outrora deixava, sem médios alas, um buraco central complicado de tapar, o 4-2-4 actual revela desertos no relvado difíceis de cobrir, já que o corredor central da equipa apenas é ocupado por dois jogadores que se revezam um ao outro em tarefas, tanto defensivas como ofensivas.

Nas extremidades, os dois jogadores actuam em constantes deslocações de grande profundidade, (Salvio, Gaitán ou Markovic são jogadores aptos a esses movimentos de ruptura) sempre acompanhados pelas subidas dos laterais, facto que descompensa ainda mais a estrutura da equipa quando perde a bola. A sumida dinâmica de conquistas (apenas um campeonato nacional vencido) pode ser a tradução de uma estrutura táctica incapaz de gerar a estabilidade de processos de jogo própria de uma formação apta a dominar a longo prazo, em competições de resistência e constância: o 4-3-3 portista tem, pelo seu turno, sido a base do sucesso azul e branco. O Benfica, ao invés, pouco tem ganho, apesar do belo futebol apresentado noutras épocas (facto incontornável) e da clara veia goleadora idealizada por Jesus. Talvez por tal facto ter pesado na análise do técnico, o Benfica sentiu mudanças tácticas periódicas, oscilando entre o seu 4-2-4 habitual e o 4-3-3 (utilizado frente ao Olympiakos e Sporting, por exemplo), com três médios no miolo e dois extremos no apoio a um único avançado. Pelo meio, ameaças de um 4-2-3-1 foram surgindo, mas a colocação de Djuricic ao lado do ponta-de-lança foram, sempre, gorando tal expectativa. Entre indefinições tácticas, quem tem sofrido é o futebol do Benfica: longe da categoria da época passada, falha até naquilo que lhe era fácil, a qualidade ofensiva.

Incongruências tácticas: o lado azul

No FC Porto predomina uma cultura táctica de raízes bem profundas: o 4-3-3 faz parte do código genético da equipa há décadas, com resultados extremamente positivos. Se recuarmos a Jesualdo Ferreira, percebemos que o modelo de jogo portista tem beneficiado de ajustes pormenorizados que têm contribuído para a afinação do processo de jogo, e a experiência do técnico (actualmente no Braga) aprofundou ainda mais a apetência da equipa para dominar sendo letal, graças às diagonais de Hulk e aos movimentos interiores de Falcao. Com Vitor Pereira, privilegiou-se a posse de bola e a paciência enquanto virtude. Chegado Paulo Fonseca, algo mudou na disposição táctica dos «dragões»: o ex-treinador do Paços de Ferreira transportou o modelo pacense e transplantou-o para o Porto. Mantendo o 4-3-3, Fonseca adicionou companhia ao trinco Fernando, compondo um «duplo pivot» defensivo encabeçado por um médio mais avançado, encarregue de orientar o jogo ofensivo da equipa. Invertendo o triângulo, Paulo Fonseca colocou Fernando na companhia, ou de Defour ou de Herrera, deixando Lucho com o ónus de carregar o piano das notas ofensivas, facto que fez abrandar a produção do argentino. Com esta tracção atrás, o Porto perdeu chama, perdeu domínio e confundiu-se no processo de mudança, onde Herrera tem despontado e onde a ausência de extremos de qualidade tem sido pecha flagrante no habitual onze azul - Licá, Ricardo, Josué e Varela têm igualmente desapontado, não dando aos flancos a profundidade exigida a um 4-3-3 dinâmico. 

As flutuações de forma do Porto têm reflectido uma formação confusa no centro do terreno, onde os posicionamentos derivam constantemente para zonas não programadas, e onde por vezes, parecem ser os jogadores a definir a disposição táctica do meio-campo.

Ainda assim, a entrada de Carlos Eduardo no onze veio refrescar o sector, oferecendo-lhe criatividade e velocidade, deixando Lucho mais disponível para organizar o jogo a partir de zonas mais recuadas, ao estilo de um «playmaker» recuado. O homem lança, Jackson Martínez, apesar da sua extrema eficácia e talento, tem carecido de uma envolvência maior, fruto da pouca disponibilidade dos extremos em armadilhar as defesas contrárias com rasgos técnicos, corridas velozes ou diagonais fatais; tal insuficiência é disfarçada  pelas subidas recorrentes dos laterais, capazes de desequilibrar a espaços.

As armas do Benfica

A imponência benfiquista reside, habitualmente, na capacidade técnica dos seus executantes, à qual se juntam a velocidade e as constantes acelerações, provocadoras de rombos no ritmo do jogo. Jorge Jesus tem utilizado essas capacidades (abundantes no plantel, repleto de extremos tecnicistas) de modo perspicaz, construindo, na frente de ataque, uma espécie de carrossel feito de movimentações contínuas, sobreposições nas alas, trocas de posição e transições ofensivas que inundam o meio-campo oponente com vários elementos de ataque. Com jogadores como Gaitán, Markovic, Lima, Rodrigo e Enzo, o Benfica emprega uma manobra de alteração posicional repetida, de modo a explorar as fraquezas do adversário, baralhando as marcações e obrigando as defensivas contrárias a desconjuntarem-se na procura dos alvos em movimento. Gaitán, que joga por definição na esquerda, flecte para o meio inúmeras vezes, tentando desposicionar a linha recuada, chegando a trocar de flanco imensas vezes; Markovic, que inicia os jogos na direita, torna-se um vagabundo que transporta a bola no pé em velocidade, na maioria das vezes através de movimentos diagonais; Rodrigo actua como segundo avançado mas descai para as alas ou desce no terreno para se integrar na construção de jogadas ofensivas, tal como Lima. Enzo, o motor do meio-campo, joga num infinito sobe e desce, podendo, a espaços, encostar-se à direita ou à esquerda (como o vimos fazer no jogo frente ao Vitória de Setúbal), acompanhando a permanente mudança posicional dos colegas da frente. 

Matic, um «regista» dos sete ofícios

Matic tem sido o pilar do Benfica por ser, inegavelmente, um jogador de fino recorte técnico, em que a perícia da posse e do controlo da bola se alia à inteligência espacial e ao sentido posicional. Bom na recuperação da bola, o sérvio é peça essencial da manobra de Jesus, pois é ele quem arranca com o processo de jogo da equipa, encontrando o espaço ideal para remeter a bola, auxiliando os parceiros na elaboração das jogadas e até integrando sem reservas o ataque da equipa. Construtor recuado de jogo, Matic gere o ritmo do Benfica (sem ele a equipa transforma-se num cérebro desligado) à imagem de um «deep-lying playmaker» que também usa da sua tenacidade para desarmar adversários. O lance do seu golo frente ao Braga demonstra a sua maior qualidade: Matic é um jogador dos sete ofícios, completo, desde o corte ao remate para golo.

Enzo, o coração da equipa

Se Matic tem sido o cérebro da equipa, Enzo tem sido o coração: o médio é o jogador que dá ao Benfica a alma e a raça, deixadas dentro de campo a cada partida. Tal papel, sem dúvida fundamental, é-lhe reconhecido, não só pela forma tenaz e abnegada com que carrega o jogo benfiquista avante, mas também pela incumbência táctica à qual está ligado - o argentino funciona como médio versátil de rotação imparável, partindo do centro do terreno para abraçar todo o perímetro do último terço o campo. Actuando como médio «box-to-box», Enzo Pérez entra em constantes movimentações pendulares de defesa e ataque. Por apenas ter como companheiro de linha o sérvio Matic, é obrigado a desdobrar-se nas mesmas funções que o colega, embora gozando de maior liberdade ofensiva (chama a si o papel de organizador de jogo avançado), o que lhe provoca um desgaste ainda maior.

As armas do FC Porto

A estratégia portista assenta, há vários anos, num esquema 4-3-3 edificado para dominar a partida, o ritmo de jogo e o ímpeto adversário, mandando na posse de bola de modo a impedir perdas de controlo das operações, desequilíbrios tácticos e descompensações. Equipa construída com o intuito de pressionar com um bloco alto, o Porto coloca três jogadores no centro do terreno, a fim de povoar de modo eficiente o meio-campo, quebrando, com uma pressão ágil, o jogo do oponente: o trinco segura a zona defensiva e limpa a sua área, um médio desempenha funções de «box-to-box», e o terceiro elemento ocupa-se da orientação ofensiva. Quando sem a bola, os três entreajudam-se na tentativa de a recuperar, causando sufocos na zona média e restringindo o jogo adversário. Os laterais desempenham uma função fulcral neste Porto: Alex Sandro e Danilo impulsionam a equipa para a frente, subindo no terreno e cruzando a bola para alimentar o futebol do «dragão». Na área inimiga, Jackson é a ameaça maior: 12 golos na Liga Zon Sagres, atrás apenas de Montero, que tem 13.

Lucho, o comandante do Dragão

A grande força deste Porto de Paulo Fonseca reside, principalmente, na excelente liderança desenhada em campo pelo experiente Lucho, que tem, nos momentos de maior dificuldade, guiado a equipa a bom porto, apesar dos contratempos. O médio argentino é o pulsar da equipa portista, que beneficia da sua inteligência em campo, da eficácia dos seus movimentos atacantes, da visão de jogo apurada e da forma competente como defende. Com Lucho em campo, o futebol azul e branco ganha consistência, ligação e golos, pois o médio, apesar dos 32 anos, sabe exactamente como procurar o melhor caminho para marcar. Dotado de uma habilidade técnica invejável, de uma assinalável perspicácia na leitura da disposição dos colegas e adversários, Lucho tem sido remetido para funções que baixam a sua produtividade. Com a inversão do triângulo, há quem diga que fica desapoiado e que se desgasta a pagar as despesas do ataque portista - talvez o aparecimento de Carlos Eduardo liberte o argentino num futuro próximo.

Fernando, o polvo que a tudo chega

Fernando é o bastião defensivo do FC Porto, presença constante na dianteira da linha recuada azul e branca. O brasileiro, pilar que sustenta as investidas do Porto para o ataque e norteia a função defensiva da equipa sempre que esta está pressionada, tem veiculado a sua importância a cada época que passa, sendo actualmente visto como um elemento fulcral no onze dos campeões. Astuto, agressivo e tacticamente soberbo, Fernando limpa toda a zona intermédia do campo, fixando-se como trinco, mas povoando de modo eficaz as zonas laterais sempre que os colegas necessitam das suas «dobras». Rápido na antecipação e forte no jogo aéreo, o brasileiro que está em vias de se naturalizar luso é, como habitualmente, peça chave na manobra do FC Porto.

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