O dilema “número 10” de Paulo Fonseca
O mais recente dono da posição 10, Carlos Eduardo.

A equipa do FC Porto ocupa, neste momento, a 3ª posição da Liga com 36 pontos, encontrando-se a 3 pontos do actual líder, o Benfica. Desde a época 2007/2008 que os azuis e brancos não ocupavam o 3º posto da classificação nesta fase da prova. Para além do mau desempenho no campeonato, os comandados de Paulo Fonseca não foram além do 3º lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões onde, num grupo acessível, alcançaram apenas cinco pontos, tenda esta sido a primeira vez na história da sua presença na liga milionária em que os dragões não obtiveram qualquer triunfo no seu reduto.

A vaga de Moutinho tornou-se lacuna

Com a chegada ao FC Porto, Paulo Fonseca deparou-se com a saída de João Moutinho do clube e, apesar de Pinto da Costa ter recorrido ao mercado para compensar esta perda, o técnico ainda não encontrou um substituto que cumpra as mesmas funções de Moutinho, para assim devolver a estabilidade táctica que um jogador como o internacional português conferia aos azuis e brancos.

Apesar de ser apenas um jogador, João Moutinho cumpria no miolo portista funções ofensivas e defensivas que permitiam ao FC Porto ter processos de jogo mais automatizados. Na época passada eram visíveis as trocas constantes de posições entre João Moutinho e Lucho González, alternando estes jogadores no papel de médio ofensivo de referência nas diferentes fases do jogo da equipa. Não sendo médios ofensivos de raiz, com as trocas posicionais de João Moutinho e Lucho González, entre as posições 8 e 10, afigurava-se sempre difícil para os adversários efectuar uma marcação apertada aos dois jogadores, uma vez que a liberdade táctica que o ex-técnico dos dragões lhes garantia permitia a existência de uma compensação na ocupação do terreno. No actual plantel azul e branco, Paulo Fonseca já utilizou Josué, Defour, Quintero, Herrera e, por fim, Carlos Eduardo, para cumprir a vaga deixada em aberto por Moutinho. No entanto, nenhum destes jogadores tem permitido ao Porto alcançar, na totalidade, a segurança e o desenho táctico que tantas alegrias deu aos seus adeptos nas últimas épocas. E se é verdade que a má temporada dos dragões até ao momento não se pode reduzir a este factor, não seria honesto ignorar que a estabilidade a meio-campo é importante para uma equipa que já vinha demonstrando rotinas de jogo definidas há várias épocas e que, com tantas alterações no miolo do terreno, inevitvelmente perde consistência no seu sistema de jogo.

Carlos Eduardo conversa com o técnico Paulo Fonseca. (Foto: REUTERS)

Fernando, Lucho e mais um

Para compor o meio campo portista, Paulo Fonseca não abdica dos habituais médios Fernando e Lucho González, mas para fechar o tridente do miolo portista, o técnico demonstra claramente uma indefinição que acaba por condicionar todo o desenho táctico dos dragões. No início da época, o treinador começou por utilizar o internacional português Josué para compor o trio de meio-campo. O ex-Paços de Ferreira, que custou aos cofres dos dragões cerca de um milhão de euros, participou já em 21 jogos oficiais pelo FC Porto, tendo marcado quatro golos, mas vendo a sua posição trocada por diversas vezes, actuando quer como médio ofensivo quer como extremo. Este dilema surgiu também com a utilização do médio criativo Quintero, chegado ao clube também esta época, a troco de cinco milhões de euros por metade do passe. Rapidamente encantou os adeptos do Porto com a sua técnica e magia apuradas mas, aos poucos, foi perdendo fulgor, o que retirava dinâmica ao meio campo dos campeões nacionais, não sucedendo em fazer esquecer João Moutinho. No entanto, as debilidades defensivas dos médios Josué e Quintero fizeram com que o técnico dos dragões recorresse ao belga Defour, que, teoricamente, se assemelhava mais às características do internacional português.

Lucho e Fernando em acção frente ao Benfica, na pressão a Sálvio. (Foto: Le Figaro)

Tratando-se, contudo, de um jogador muito fixo na sua posição, obrigou Lucho González a actuar como número 10, posição esta que retira eficácia ao conjunto, ocupando o homem que mais vantagens poderia oferecer como médio ofensivo. Com Defour em campo, a tendência de Paulo Fonseca era a de compôr o duplo pivot constituído por Fernando e Defour, o que tornava o futebol portista mais defensivo e com pouca ambição no ataque. Nesta linha de ideias, Paulo Fonseca alterou mais uma vez o meio campo portista introduzindo no onze Herrera, que chegou ao clube pela quantia de oito milhões de euros, mas que tarda em justificar a aposta, uma vez que em campo o mexicano vai demonstrando várias dificuldades na adaptação ao futebol português. Revelava-se difícil, portanto, a aposta de Paulo Fonseca no duplo pivot. Não era então a qualidade de Fernando e Lucho González que estava em causa, mas sim a zona que os mesmos ocupavam no terreno. Isto porque Fernando apresenta maior rendimento quando sozinho na posição 6, por forma a equilibrar a equipa defensivamente e impulsionar as suas manobras ofensivas. Para tal, Lucho González é essencial na posição 8, onde consegue conciliar algumas características defensivas com uma visão de jogo apurada e uma técnica acima da média.

Perante isto, o técnico dos azuis e brancos foi, pouco a pouco, devolvendo as verdadeiras funções aos médios e, mais recentemente, recorreu ao brasileiro Carlos Eduardo para a posição 10. As debilidades no meio campo portista foram claramente visíveis nos jogos em que o grau de exigência foi mais elevado. Na Liga dos Campeões, frente a Zenit São Petersburgo e a Atlético de Madrid, recordam-se as facilidades com que estes emblemas anulavam o meio campo portista. Entre a expulsão de Herrera e o apagamento de Defour e Quintero nas fases mais cruciais da partida, o Porto acabou eliminado da liga milionária logo na fase de grupos, por manifesta falta de organização no meio campo. Mais recentemente, frente ao Benfica, para a liga portuguesa, apesar de algumas melhorias, a equipa encarnada anulou por completo o meio campo dos dragões, o que acabou por acentuar a falta de alternativas credíveis para substituir João Moutinho.

Carlos Eduardo, o novo Deco?

O médio ofensivo Carlos Eduardo chegou esta época ao Futebol Clube do Porto com a curiosidade de ser o reforço mais barato, ao chegar ao Dragão pela quantia de 900 mil euros. Chegado do Estoril, Carlos Eduardo foi o último dos reforços do sector intermédio a ter uma oportunidade na equipa principal dos azuis e brancos. Para chegar aos eleitos de Paulo Fonseca, o brasileiro disputou 10 partidas na equipa B e foi um elemento de destaque nas segundas linhas dos dragões. Perante a inoperância de Josué, Quintero, Defour e Herrera, Carlos Eduardo evidenciou-se como sendo a melhor alternativa para a equipa principal. Nas últimas 5 partidas disputadas pelos dragões, o técnico conseguiu, pela primeira vez, manter uma estabilidade no meio campo, e assim definir o sistema táctico por forma a incluir o número 6 Fernando, o número 8 Lucho e, finalmente, a grande surpresa, Carlos Eduardo a número 10. Desde que chegou ao onze, Carlos Eduardo já fez o gosto ao pé por duas vezes e tem sido peça fundamental para definir o sistema de 4x3x3 onde é ele quem apoia, de forma mais criteriosa, os alas Varela e Quaresma e o ponta-de-lança Jackson Martínez.

A equipa do FC Porto mantém o principal objectivo da época, ser campeão nacional, e mantém também aspirações na Liga Europa, Taça de Portugal e Taça da Liga. Para disputar estas competições, Paulo Fonseca espera ter encontrado a estabilidade necessária com a inclusão de Carlos Eduardo, sem esquecer o mais recente reforço, nome sonante no futebol português, Ricardo Quaresma.

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