Mais um caso de irregularidade no futebol português
Taça da Liga de novo envolta em polémica, de novo com o FC Porto no cerne da questão

No passado dia 25 de Janeiro jogou-se a 3ª e última jornada do grupo B da Taça da Liga e, em causa, estava o apuramento para as meias-finais da prova. As duas partidas tinham apito inicial marcado para as 20h e 45m. Na partida do Penafiel x Sporting, a hora de início foi cumprida. No entanto, na partida que opunha Futebol Clube do Porto e Marítimo verificou-se um atraso de cerca de 3 minutos. Com o consequente atraso no início deste encontro, a segunda parte recomeçou também com uma diferença de alguns minutos. No final do Penafiel x Sporting, em que os leões venceram por 3-1, o apuramento sorria aos de Alvalade. Todavia, na partida do Dragão, a bola ainda correu por mais alguns minutos, havendo tempo para mais dois golos do Futebol Clube do Porto que, assim, deu à volta ao marcador e passou a vencer os madeirenses por 3-2. Com este resultado, o apuramento passou para o lado dos azuis e brancos e a polémica instalou-se em torno de qual dos dois rivais, Porto e Sporting, jogaria com o Benfica nas meias-finais da competição, uma vez que, em caso de disputa de apuramento, na última jornada da fase de grupos, os jogos deveriam começar rigorosamente à mesma hora. São casos como estes que não dignificam em nada o futebol português e que põem em causa a sua evolução a nível internacional.

«Um atraso» do futebol português

Com os regulamentos estipulados a nível internacional, em que é por demais evidente existir preocupação em controlar a hora de início das partidas, nas quais esteja em causa o apuramento, tanto em fase de grupos da Liga Europa, como da Liga dos Campeões ou em Campeonatos do Mundo, seria facilmente evitada esta situação. O exemplo da fase de grupos da Liga dos Campeões pode ajudar a elucidar este caso, já que é possível verificar a preocupação das equipas de arbitragem em entrarem em contacto, através de auricular, para que os jogos, efectivamente, comecem todos à mesma hora (ex: Benfica x PSG e Olympiakos x Anderlecht, onde estava em causa o apuramento para os oitavos-de-final da liga milionária). Perante isto, e existindo já o atraso no início do jogo no Dragão, teria sido fácil, através da comunicação entre delegados e equipas de arbitragem, adiar o início do encontro entre Sporting e Penafiel, cumprindo assim à risca, o artigo 9º, sobre horário de local de realização dos jogos, alínea 3, do Anexo III do Regulamento da Taça da Liga que afirma: “Quando estiverem em disputa os lugares de acesso às meias-finais, os jogos da última jornada da 3ª fase da competição serão realizados à mesma hora”.

Com a evidente violação deste artigo, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, ao analisar os relatórios do jogo não encontrou razões suficientes nem para «passar por cima» nem para punir, tendo por isso decidido enviar o processo para a Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga. Cabe, portanto, à Liga inquirir os intervenientes da partida e, assim, deliberar as razões pelas quais o FC Porto não compareceu no relvado à hora marcada. Segundo a lei, caso se verifique que este foi um atraso com dolo, ou seja, com intenção de provocar prejuízos a terceiros, será o Sporting Clube de Portugal a qualificar-se para as meias-finais da Taça da Liga. Caso exista uma justificação plausível para esse atraso, os dragões apenas terão como punição o pagamento de uma multa. Atendendo à habitual demora na conclusão destes processos e, tendo em conta que a meia-final está marcada para o dia 12 de Fevereiro, dificilmente a decisão será conhecida, antes da realização deste mesmo jogo.

Até ao momento, o Futebol Clube do Porto não emitiu qualquer declaração ou comunicado sobre o assunto e estará estrategicamente a aguardar os desenvolvimentos do processo. No caso do Sporting, foi emitido um comunicado oficial por parte da direcção do clube, onde os mesmos referem, entre outras coisas, que: «O Sporting Clube de Portugal pugnará pela reposição da verdade, recorrendo a todos os mecanismos legais que tem ao seu dispor para ser assacada a responsabilidade disciplinar aos infractores, com todas as consequências daí decorrentes».

Presença de Delegado é coincidência...brutal

Factor inquietante é, certamente, a presença do mesmo Delegado da Liga em duas partidas igualmente polémicas, onde o Porto esteve directamente envolvido: na época passada, durante o controverso FC Porto x Vitória Futebol Clube, a contar para a mesma Taça da Liga, decorrido a 9 de Janeiro de 2013, jogo que despoletou num caso de possível eliminação dos portistas devido a utilização irregular de jogadores. Fernando Araújo voltou a ser o Delegado de uma partida envolta em polémica, facto que desperta as críticas da repetida má organização da prova.

  

Casos idênticos: «Calabote» e Recreio de Águeda  

Decorria o ano de 1959 quando, à partida para a última jornada do Campeonato Nacional, Porto e Benfica se encontravam em igualdade pontual no topo da classificação. Para o derradeiro encontro, o FC Porto tinha uma vantagem de 5 golos em relação ao Benfica e para os encarnados serem campeões, necessitavam de marcar mais 5 tentos que os rivais azuis-e-brancos. Uma vez que era a última jornada do campeonato, todos os jogos tinham início marcado para as 15h. Todos as partidas começaram à hora prevista menos uma: o árbitro Inocêncio João Teixeira Calabote dá início ao jogo Benfica x CUF com 8 minutos de atraso. No final da partida, o Porto venceu o Torreense por 3-0, no entanto, ainda não podia festejar o título, uma vez que o jogo do Benfica frente à CUF ainda decorria e os encarnados venciam por 7-1. Apesar de ter direito a mais 12 minutos de jogo (8+ 4 de descontos), o Benfica não conseguiu, mesmo assim, alcançar o título de campeão nacional, ficando a faltar dois golos para concretizar esse objectivo. Este caso não deixa de ser idêntico ao do Porto x Marítimo mas, atendendo à época em questão, ainda se torna mais incompreensível que, nos dias de hoje, e com tantas tecnologias de ponta à disposição, ocorram situações deste género que, em tudo, descredibilizam o futebol português.

Um caso mais recente verificou-se na época 2004/2005 quando, no 3º escalão do nosso futebol, a equipa do Recreio de Águeda foi severamente punida pela Federação Portuguesa de Futebol com a despromoção, pelo facto de ter comparecido com 6 minutos de atraso, ao jogo frente ao União de Lamas. Perante os antecedentes do futebol português é simples concluir que, dificilmente poderá ocorrer uma punição semelhante, sem esquecer que o clube em questão, o Futebol Clube do Porto, já se viu envolvido em questões duvidosas fora das 4 linhas, saindo sempre impune destes processos.

A impunidade do costume

A burocracia e a falta de coragem parecem ser apanágio do futebol português. É importante referir que, com a proximidade da meia-final, o constante ping-pong entre os órgãos da FPF ou da Liga sobre quem tomará a decisão final sobre o caso, só retiram a possibilidade de uma deliberação em tempo útil acerca de quem será, na verdade, o adversário do Benfica, no dia 12 de Fevereiro, a contar para as meias-finais da Taça da Liga. Outra questão pertinente tem que ver com a deliberação em si, isto é, mesmo que se prove o atraso premeditado do Porto em entrar no relvado do Dragão, dificilmente será em tempo útil e será ainda menos provável que um clube como o Futebol Clube do Porto seja punido com a derrota e consequente desqualificação da prova.

Recuando até ao ano de 2004, recordamos o célebre caso do “Apito Dourado” em que, alegadamente, existiram casos de corrupção relacionados com os escalões inferiores do futebol português, envolvendo o Gondomar Sport Clube. Também o FC Porto e o Boavista foram incluídos neste processo, a partir de escutas telefónicas comprometedoras que, não tendo sido consideradas nos julgamentos civis, foram-nas nos tribunais de justiça desportiva e levaram à condenação do FC Porto e seu presidente e também do Boavista e do seu ex-presidente João Loureiro. Contudo, as punições não foram as devidas, uma vez que, nestes casos, a punição a aplicar seria a consequente despromoção de divisão, como se veio a verificar pela parte do Boavista. No caso do Futebol Clube do Porto, foi apenas a perda de 6 pontos, que em nada prejudicaram o clube na obtenção do título de campeão nacional. Também o Benfica, na pessoa do seu presidente, Luís Filipe Vieira, esteve envolvido neste caso, por supostamente ter concordado com a escolha do árbitro para o jogo das meias-finais da Taça de Portugal. Este caso, que em tudo envergonha o futebol português e incluiu escutas, testemunhos e contradições, veio uma vez mais provar, as demoras neste tipo de decisões e a falta de competência das instâncias desportivas e civis, que parecem ter receio em castigar os poderosos do futebol nacional.

Mais recentemente, relembramos o “caso Cardinal” no qual, o antigo vice-presidente do Sporting Clube de Portugal, Paulo Pereira Cristóvão, acabaria por ser indiciado por 7 crimes, entre os quais crime de burla qualificada, outro de branqueamento de capitais, dois de peculato, um de devassa por meio informático, um de acesso ilegítimo e, por fim, um de denúncia caluniosa agravada. O caso foi desencadeado com o envio de uma carta anónima a denunciar um alegado suborno ao árbitro assistente José Cardinal, nomeado para um jogo entre o Sporting e o Marítimo, em abril de 2012, carta que Fernando Gomes, faria chegar à Polícia Judiciária (PJ), depois da mesma lhe ter sido entregue pelo presidente dos leões, Godinho Lopes. Ao que tudo indica, Paulo Pereira Cristóvão mandatou um funcionário de uma das suas empresas para fazer o suposto depósito que iria incriminar o árbitro assistente José Cardinal. Nesta partida, o Sporting acabou por vencer o Marítimo por 3-0, com legitimidade e eram de todo desnecessárias, todas estas manobras que, de novo, envergonham o nosso futebol. Mais uma vez, são notórias neste caso, as demoras burocráticas que sempre envolvem os grandes clubes do futebol português. Para credibilizar o futebol português seria relevante mudar o sistema, clarificar as leis e ter a audácia de punir devidamente estas irregularidades, por forma a evitar casos idênticos e, assim, promover a transparência de um desporto que é considerado “rei”.

Sacudir a «água do capote»

Voltando ao caso “Porto- Marítimo”, os últimos desenvolvimentos dizem respeito às declarações do presidente da Liga, Mário Figueiredo, que em tudo resumem a essência deste artigo, ficando ao critério de cada um, reflectir sobre as seguintes declarações, proferidas à CMTV, na passada terça feira, dia 28 de Janeiro: «A Liga tudo fez para que os jogos começassem à mesma hora. Antes dos encontros há uma reunião entre os delegados da Liga e os clubes, onde são acertados os relógios para a mesma hora. As equipas foram avisadas que tinham de estar no corredor a uma determinada hora para o começo das partidas. A Liga não tem maneira de forçar as equipas a comparecerem no túnel à hora combinada”. Quanto ao facto de os delegados, presentes nos jogos FC Porto x Marítimo e Penafiel x Sporting, poderem ter sincronizado o começo dos encontros e retardado o início da segunda parte, Figueiredo disse que se tratava de uma «ideia peregrina». «Não podemos tapar um comportamento ilícito com outro» afirmou.

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