Hierarquia do castigo máximo
Cardozo, regressado de 3 meses de ausência, falhou penalidade decisiva em Barcelos (Foto: AP)

Hierarquia do castigo máximo

Desde 9 de Novembro que Cardozo estivera ausente, lutando contra uma lombalgia. Em Barcelos regressou, 13 jogos depois, actuando durante 15 minutos e tomando para si a responsabilidade de marcar a penalidade decisiva, ao minuto 90+5. Lima, que marcara anteriormente, viu o falhanço do colega, o primeiro na hierarquia dos castigos máximos, como assegurou Jesus.

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Minuto 90+5, castigo máximo fatídico a beneficiar o Benfica: Lima aproximou-se da marca da grande penalidade mas Cardozo assenhorou-se da bola e tomou para si a responsabilidade de acertar no fundo das redes guardadas pelo brasileiro Adriano. Depois do apito do juiz, Cardozo desferiu o remate, mal colocado, e o guardião gilista deteve a bola com mérito, salvando o ponto do empate, enquanto o esgar de frustração tomava conta da cara do paraguaio do Benfica. O Gil Vicente anulou a série vitoriosa do Benfica, acabando também com a inviolabilidade das redes de Oblak, mal batido no tiro de Vitor Gonçalves. A questão colocou-se, à queima do sucedido, falhanço crucial de Cardozo que, se concretizado, teria deixado as «águias» a 6 pontos de distância do FC Porto: deveria ter sido Cardozo a marcar a penalidade máxima?

Marcaste tu, agora falho eu

Jorge Jesus não conseguiu, de facto, dar um contributo claro para a argumentação sobre o assunto, contradizendo-se em termos óbvios: «Os jogadores conversaram, pois são autónomos para o fazer, e decidiram que seria o Cardozo a bater», afirmou o técnico logo depois do apito final. Pese embora estas palavras, Jesus contrariou-se logo no dia seguinte, assegurando a existência de uma hierarquia fixa no que toca à marcação de castigos máximos: «Cardozo é o primeiro marcador de penalties (...) foi uma decisão tomada pelo jogador e treinador», esclareceu, reforçando a decisão com registos da temporada passada: «O Cardozo no ano passado marcou 12 penalties e falhou um. Vai continuar a marcar se estiver em campo». Os números são abonatórios à argumentação do treinador encarnado, mas o tema tem o reverso da medalha: Cardozo é quem mais falha penalidades na história da Liga, 8  no total, mais uma que Fernando Gomes.

A pertinente questão mantém-se: deveria ter sido Cardozo a marcar a grande penalidade ao cair do pano, em Barcelos? Os apologéticos do «sim» centram a sua argumentação no respeito pela hierarquia pré-estabelecida pelo treinador, onde Cardozo é, sem dúvida, o marcador «oficial». Os defensores do «não» encontram falhas na primeira retórica, arrolando as seguintes interrogações: deveria o paraguaio, depois de 3 meses de paragem, 13 jogos de ausência e apenas 15 minutos em campo em Barcelos, ser o eleito para definir o rumo do jogo? Seria Cardozo o elemento mais indicado, quer em termos físicos quer psicológicos, para executar a penalidade fatal? Porque razão Lima, que anteriormente marcara, não se encontraria em melhor momento (tanto físico como psicológico) para bater Adriano? As questões esbarram na inflexibilidade argumentativa da hierarquia dos batedores, mas o debate adensa somente uma questão: deve a hierarquia estipulada sobrepor-se, absolutamente, às vicissitudes particulares de cada momento?

Hierarquia do castigo máximo castigou o Benfica

Se a resposta for sim, far-se-á completa tábua rasa do factor psicológico, impondo a ditadura dos nomes sobre o momento actual da cada um dos batedores, esquecendo as normais oscilações de forma e de confiança dos jogadores. No caso de Cardozo, outro indicador acentua a perigosidade da sua responsabilidade em marcar: o paraguaio não competia desde 9 de Novembro. Lima, por sua vez, vinha de 5 castigos máximos marcados, tenho falhado o último contra o Estoril, e tinha, inclusivamente, marcado a penalidade máxima minutos antes, batendo Adriano na perfeição. Se Jorge Jesus procurou incutir confiança em Cardozo, com um golo de bandeja no instante final, arriscou numa decisão, no mínimo, ilógica, contrariando a ordem natural dos eventos: Lima, marcador assíduo dos últimos 3 meses, deveria ter assumido a responsabilidade (como o fez, depois parado por Cardozo) de marcar, com o respaldo assertivo do técnico encarado. Tal não aconteceu. Cardozo pegou na bola e serviu-se de uma ilegitimidade que acabou por penalizar, tanto ele mesmo, como o Benfica. A hierarquia do castigo máximo castigou sim, mas o próprio Benfica.

Num desporto onde todas as vertentes da modalidade são exaustivamente analisadas, rumo à maximização de resultados e ao aperfeiçoamento psíquico, físico e exibicional, o argumento estático e conservador da hierarquia de marcadores de penalidades é método ultrapassado. É-lo por não ter em conta a variação do momento, quer físico quer emocional, do jogador. Será útil e normal ter uma linhagem pré-estabelecida de marcadores, obviamente, mas o treinador deverá intervir sempre que a particularidade do momento exija uma leitura diferente, uma outra sensibilidade analítica que permita destrinçar quem deve ou não - não por norma mas por indício - carregar a responsabilidade de marcar, a bem da equipa e não do indivíduo.

As explicações de Jesus

Dúbio e contraditório nas explicações dadas, Jorge Jesus primeiro atestou da autonomia de cada jogador para marcar grandes penalidades, para depois reafirmar o fundamento hierárquico dos batedores, onde Cardozo é principal executante, certificando que assim continuará. Nos esclarecimentos dados no dia seguinte, o treinador benfiquista fala numa «decisão» de Cardozo, à qual Lima «anuiu». Em termos práticos, somos levados a concluir que Lima se preparava para bater, tendo sido ordenado do contrário por Cardozo, com a anuência do técnico, que resolveu não intervir para dentro do campo, como já fizera com Nolito. A falta de percepção do real momento fez com que a hierarquia passasse por cima do actual período vivido pelos atacantes do Benfica: um deles em forma, com o motor «quente» e bem rodado, outro totalmente «frio», sem rodagem e semi-recuperado de uma lombalgia persistente. A «decisão» de Cardozo deixa desvelar, notoriamente, a autoridade do paraguaio dentro do campo, facto que não significa, directamente, que esta seja legitimada pela conduta do ponta-de-lança, que ainda em Maio protagonizou um incidente caricato e embaroçoso com o seu treinador. 

Como se terá sentido Lima no final da partida, desautorizado primeiro e frustrado depois, por ver quem lhe tirou a bola do pé falhar o golo no último suspiro do jogo? Terá sido esta uma boa gestão pessoal por parte de Jorge Jesus, que aparentemente se negou a gritar para dentro do relvado o nome do marcador, chamando a si a responsabilidade, pesada é certo, de definir o hipotético autor do 1-2 em Barcelos? Aparentemente não. O resumo da história é simples: Jesus permaneceu calado e Cardozo fez-se valor do nome (hierarquia) para lhe roubar a oportunidade e falhar o golo. Mas, como o futebol a espaços ensina, dentro de campo não existem «oficiais» e os nomes, por si só, não marcam golos. Faltou sensibilidade analítica ao treinador, que por se silenciar faltou também ao comando da equipa.

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