Fonseca e Jesus: as mesmas competições, prestações desiguais
Fonseca e Jesus, treinadores com prestações desiguais entre si (Foto em: www,maisfutebol.iol.pt)

A distância entre Porto e Salónica mede-se, não só em quilómetros, mas também em qualidade futebolística. Por um lado, temos o Benfica, primeiro classificado no campeonato, sem contestação e a praticar um futebol apoiado, com a habitual nota artística de Jorge Jesus. Por outro lado, o FC Porto, segundo classificado, a 4 pontos dos encarnados, com um futebol instável e com pouca organização entre os sectores de jogo. As mudanças promovidas por Jorge Jesus frente ao PAOK em nada alteraram a ambição e a cultura de jogo do técnico, terminando com a vitória das águias por 0-1 frente aos gregos, com um tiro certeiro de Lima, na segunda parte do jogo. Já Paulo Fonseca manteve a equipa e, até começou por ter uma vantagem de 2-0 (golos de Quaresma e Varela) mas depois veio ao de cima a instabilidade defensiva e a falta de experiência de alguns jogadores, que permitiram aos alemães estabelecer o resultado final em 2-2. Estes resultados dizem muito do que tem sido a época das duas formações lusas, e saltam à vista, os diferentes estados anímicos, as opções no banco de suplentes e os reais objectivos das equipas, no decorrer desta época 2013-2014.

Águia voa de forma diferente na Europa mas mantém ambição

Em declarações aos jornalistas, Jorge Jesus reafirmou, na antevisão da partida na Grécia, que a prioridade dos encarnados é o campeonato e, como tal, as alterações no onze inicial, nesta partida frente ao PAOK, não surpreenderam. Para além de ter mudado as peças, o treinador mudou também o desenho táctico da formação vermelha e branca. Do habitual 4x4x2 para um “europeu” 4x3x3, a equipa técnica manteve a coerência táctica que já se havia verificado em 3 partidas, na fase de grupos da Liga dos Campeões. Com este modelo, que incluiu 3 elementos no sector intermediário dos benfiquistas, os comandados de Jorge Jesus venceram, por exemplo, o PSG na liga milionária e, não foi por reforçar o meio-campo, que as águias deixaram de ter dinamismo ofensivo e, assim, voar até à área contrária. Recorde-se que nesta partida, o treinador encarnado introduziu no miolo, jogadores como Matic, Fejsa e Enzo Pérez que, juntos, taparam completamente jogadores como Thiago Motta ou Ménez. Com este futebol, o Benfica ganhou maior critério na posse de bola e, apesar de incluir menos peças ofensivas no seu onze inicial, conseguiu vencer os franceses por 2-1, com golos de Gaitán e Lima, acentuando assim, a diferente abordagem que Jorge Jesus implementa nos jogos europeus, a nível táctico, sem desguarnecer a equipa a nível ofensivo.

A pensar no embate da próxima segunda feira frente ao Guimarães, a contar para o campeonato, Jorge Jesus, para esta partida frente ao PAOK, retirou do onze inicial jogadores como: Garay, Siqueira, Fejsa, Gaitán, Markovic e Rodrigo e, para os seus lugares, entraram Jardel, Sílvio, André Gomes, Djuricic e Sulejmani. Para manter o critério dos jogos europeus, Jesus alterou o miolo dos encarnados. Em relação à partida do campeonato frente ao Paços de Ferreira, atentemos às dinâmicas habituais impostas pela dupla Fejsa- Enzo que, numa rotação constante, tornam evidente a forma como o sérvio controla toda a zona defensiva do meio-campo, o que permite a Enzo exercer uma pressão permanente, numa segunda fase de construção e, com a bola no pé, torna-se essencial no apoio aos alas e aos avançados, Lima e Rodrigo, onde se destaca a qualidade técnica do argentino e uma visão de jogo acima da média, como foi possível observar no jogo frente ao Sporting, onde foi essencial no meio-campo, tendo também feito balançar as redes de Rui Patrício.

Nesta partida europeia, o centro do terreno das águias foi ocupado por: Rúben Amorim, André Gomes e Enzo Pérez. Com estas alterações, os encarnados praticaram um futebol mais apoiado e, consequentemente, com menos transições rápidas para o ataque, uma vez que, o repentismo dos habituais extremos não esteve presente em Salónica. Com Rúben Amorim a número 6 e a controlar as investidas do miolo grego, André Gomes, Djuricic e Enzo ganharam liberdade dentro das 4 linhas, o que baralhou as marcações dos jogadores do PAOK. É de salientar que André Gomes pisou espaços regularmente ocupados por Enzo, o que permitiu ao argentino descair para o flanco direito, com constantes movimentações, com o sérvio Djuricic, que alternava com Enzo, a posição de médio ofensivo/ “falso” extremo direito, saltando à vista que, nos dois modelos de Jorge Jesus, o internacional argentino Enzo Pérez, é um jogador fundamental. Este dinamismo no meio campo benfiquista permitiu a Jorge Jesus implementar, nas diferentes fases de jogo, não só um 4x3x3 como também um 4x2x3x1, onde, sem alas puros, se destacaram os laterais Maxi Pereira e, principalmente, Sílvio, que foram decisivos nas poucas transições rápidas que o Benfica teve nos flancos.

Resumindo, com este modelo, o Benfica tem mais posse de bola no meio-campo, trata o esférico com maior critério mas perde repentismo e imprevisibilidade técnica que, por exemplo, jogadores como Rodrigo, Markovic e Gaitán implementam no conjunto encarnado, já para não falar que, neste jogo frente aos gregos, se verificou um número bastante reduzido de remates à baliza. Ainda assim, Lima marcou o golo da vitória e deixa os encarnados numa situação privilegiada para, no Estádio da Luz, decidir a eliminatória a seu favor. Perante isto, é possível concluir que, apesar das mexidas e das alterações tácticas, o Benfica demonstra uma organização tal, que lhe permite ter dois sistemas de jogo opostos o que, só se torna possível implementar, pelas variadíssimas opções, em quantidade e qualidade, que o banco do Benfica oferece ao seu treinador, o que faz com que o clube encare todas as competições com a mesma ambição, sem as descredibilizar.

Porto europeu com equipa base, com a intermitência do costume

Do lado portista, Paulo Fonseca, que está longe de ter o consenso de todos os responsáveis azuis e brancos, não poupou esforços para defrontar os alemães do Frankfurt e apostou na equipa base, para esta primeira mão dos 16 avos de final da Liga Europa. Perante a instabilidade exibicional dos dragões, Paulo Fonseca não arriscou e colocou em campo toda a artilharia pesada, o que acentua a falta de opções no banco de suplentes e mostra uma tremenda vontade de compensar o mau desempenho, a nível interno, com um percurso positivo na Europa. Apesar de estar envolvido em 4 frentes, o Futebol Clube do Porto tem apresentado um futebol bastante irregular, entre contratações falhadas e jogadores com potencial, mas que tardam em justificar a aposta dos responsáveis azuis e brancos. Como elo de comparação, que reforça esta instabilidade exibicional, temos o bom jogo do Porto frente ao Gil Vicente, onde foi possível verificar uma organização e um dinamismo no centro do terreno, como se viu poucas vezes no decorrer desta época, com as posições bem definidas. Fernando, como médio defensivo, esteve imperial e Herrera demonstrou finalmente, as suas verdadeiras capacidades técnicas e tácticas, que permitiram ao ataque do Porto, fluir de forma mais contundente, onde se destacou Varela, com os dois golos marcados frente aos galos. A contrastar com esta partida, este desafio europeu frente aos alemães, voltou a evidenciar as fragilidades que o Porto tem na construção de jogo e na abordagem aos lances defensivos que, entre distracções e faltas de marcação, acabam sempre por culminar, em golos para as equipas adversárias.

Ao contrário de Jorge Jesus, o técnico azul e branco manteve o habitual sistema de jogo, 4x3x3, com o quarteto na defesa, que apenas se alterou com a inclusão de Maicon, em detrimento de Abdoulaye. No miolo, o treinador apostou em Fernando, Herrera e Josué que, apesar da boa exibição frente ao Gil Vicente, não souberam segurar a vantagem de 2-0 alcançada pelos 3 da frente, Quaresma, Varela e Jackson, terminando esta partida num empate a duas bolas. Contas feitas, o Porto continua sem vencer no Dragão, para as competições europeias, acentuando assim, a fragilidade emocional de uma equipa que terminou a fase de grupos da Champions, em 3º com apenas 5 pontos. Para recordar esta campanha desastrosa na liga milionária, recordamos os jogos com o Zenit e com o Aústria de Viena, equipas estas que estavam claramente ao alcance do Porto mas, que em campo, foram uma autêntica dor de cabeça para a formação orientada por Paulo Fonseca, relegando os portistas para esta Liga Europa, onde, aparentemente, se mantêm as fragilidades da formação azul e branca.

Ainda na análise a esta partida, é possível concluir que o banco de suplentes do Porto não oferece as mesmas soluções que o do Benfica e, como tal, não seria fiável arriscar numa revolução na equipa, mesmo tendo em conta que os dragões terão um jogo importantíssimo para o campeonato, no próximo Domingo, frente ao Estoril. No jogo frente aos alemães fica a nota positiva para o extraordinário tento de Quaresma e, mais um golo de Varela. Contudo, os golos dos germânicos gelaram o Dragão e o Porto é obrigado a marcar, pelo menos, um golo no reduto do Frankfurt e, assim, carimbar a passagem aos oitavos-de-final da Liga Europa.

Diferenças anímicas ditam objectivos de águias e dragões

À partida para esta temporada, Porto e Benfica delinearam como principal objectivo desportivo, ser campeão nacional. Se, numa primeira fase da época, o Porto chegou a ter 5 pontos de vantagem sobre os encarnados, neste momento, verificamos que, na tabela classificativa, o Benfica leva 4 pontos de vantagem sobre os dragões. A contrastar com o mau início de época do Benfica, os comandados de Paulo Fonseca pareciam ter a mesma qualidade e pareciam manter a mesma estrutura de jogo que tem sido reconhecida, ao longo das últimas épocas. No entanto, os comandados de Jorge Jesus demonstraram reagir, de forma positiva, ao mau início de época, ao contrário do Porto que, no decorrer desta primeira fase da temporada, com algumas contratações duvidosas, acentuaram algumas incoerências tácticas de um treinador que, ele mesmo, tem sido duvidoso.

A equipa de Jorge Jesus revela, neste momento, uma saúde mental de tal ordem que, na abordagem a esta partida europeia, lhe permitiu mudar radicalmente a equipa e, ainda assim, cumprir o objectivo para o jogo. Para o actual 1º classificado no campeonato, o factor psicológico contribui claramente para o bom rendimento dos jogadores, sejam eles quais forem, e em que sistema táctico joguem, o que faz com que o Benfica encare de forma mais segura e ambiciosa, as 4 frentes onde está envolvido, ao contrário do FC Porto que, apesar de estar envolvido nas mesmas competições, demonstra uma fraqueza mental e uma irregularidade exibicional, que se tem verificado nos  seus jogos ao longo da época.

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