Darwinismo futebolístico dispensa Cardozo

A grande redefinição táctica deste novo Benfica assenta num princípio organizativo que, visto à lupa, revela a regeneração orgânica a que a equipa foi submetida, passo a passo. Felizmente para os adeptos e para o próprio Benfica, tais metamorfoses aconteceram num espaço temporal razoavelmente reduzido, pelo menos nesta época. Existem, de facto, mudanças: este Benfica actual não é, nem de perto nem de longe, o mesmo que jogou toda a temporada passada, não sendo sequer o mesmo que actuou até fins de Novembro. O princípio da transformação ocorreu com a saída de Cardozo do onze titular, factor de darwinismo futebolístico que potenciou o mutualismo e o associativismo no seio da formação da Luz: saiu um ponta-de-lanço estático, lento e sem profundidade de jogo, entrando para o seu lugar uma dupla dinâmica, rápida, ágil, plena de entreajuda e complementaridade, tanto ofensiva como defensiva

A forçada saída de Cardozo veio revelar o forte mutualismo entre Rodrigo e Lima, dois jogadores com uma amplitude de movimentos alargada, profundidade extrema, tanto no centro como nas alas do ataque, nunca esquecendo o auxílio defensivo que ambos imprimem no seu estilo de jogo, pressionando alto, cobrindo metros para fechar os espaços livres e carregando a bola para o último terço do terreno sempre que necessário. Saiu um ponta-de-lança obsoleto, clássico, apenas matador, entrou um binómio de velocidade, desmarcação, drible e ruptura. O paraguaio saiu depois da partida contra o Sporting (4-3 na Luz), e Jorge Jesus apenas demorou dois jogos (Braga e Anderlecht) para perceber que teria mais a ganhar se fundisse os dois jogadores na linha de ataque, utilizando a sua polivalência e multi-funcionalidade para dar maior consistência táctica.

Arranque à segunda

A partida em Vila do Conde, contra o Rio Ave (oponente que encontrará o Benfica na próxima jornada) foi a primeira a reeditar uma dupla que, ironicamente, começou a Liga Zon Sagres (derrota contra o Marítimo, nos Barreiros) devido ao castigo de Cardozo. Sem a devida preparação, a equipa começou a época aos trambolhões, mas, à segunda tentativa, pegou de estaca e acelerou. O 1-3 diante do Rio Ave mostrou um profícuo entendimento entre Lima e Rodrigo: 1 golo do hispano-brasileiro e 2 de Lima construíram o resultado. Seguiu-se o empate contra o Arouca (2-2) com golos de ambos, depois um triunfo forasteiro (2-3 contra o Olhanense) com Lima a marcar de novo, e nova vitória fora de portas, 0-2 contra o Vitória Futebol Clube, com a dupla a marcar outra vez. Rodrigo viria a engordar a sua conta pessoal de golos no horizonte próximo: um tento contra o FC Porto (no 2-0 na Luz) e um bis diante do Marítimo, em novo 2-0 caseiro.

Benfica sem Cardozo é mais forte

Poderá doer à memória benfiquista mas, a realidade crua confirma que a saída de Cardozo do onze sistemático do Benfica é extremamente benéfica para o clube encarnado: perde-se um elemento imóvel e de fraquíssimo pendor colectivo, ganha-se, com dois completos avançados, uma organização maleável e uma infinita panóplia de movimentos e combinações imprevisíveis, aliadas a um rendimento defensivo exponencialmente maior que aquele oferecido por Cardozo, que começa imediatamente na saída de bola dos defesas adversários, com pressão alta e encurtamento do perímetro de iniciativa oponente. 

Essa pressão inicial (trabalho que Saviola efectuava muito bem, juntamente com Dí Maria e Aimar) é essencial para condicionar a primeira jogada de construção do adversário, levando a maior indíce de perdas de bola e, consequentemente, maior índice de recuperações de bola por parte de quem efectua a pressão alta. Além dessa vertente, o trabalho complementar feito por Rodrigo e Lima na zona do meio-campo reflecte bem a versatilidade de ambos, já que estes avançados conseguem juntar-se aos colegas do centro do terreno (principalmente Enzo, Gaitán e Markovic) para adensar esse sector,procurando por roubos de bola e possíveis compensações posicionais. 

O princípio da transformação

A saída de Cardozo esteve na base da transformação deste Benfica. A sua saída, juntamente com a transferência de Matic e a maior disciplina táctica imposta pelo treinador aos seus extremos (esta afinação táctica veio tarde) veio enaltecer as qualidades colectivas de um Benfica que nunca se tinha conhecido até aqui, pela mão de Jesus: mais associativo, mais solidário, mais estruturado, mais dinâmico e portanto apto a lidar com as diferentes exigências do jogo, tanto a nível ofensivo (mais fluído) como a nível defensivo (maior entreajuda entre sectores). A saída de Matic (valor inquestionável do futebol mundial), ainda que prejudicial para o Benfica, obrigou Jesus a redefinir o meio-campo, atribuindo um novo papel ao médio Fejsa: médio defensivo destacado, mais recuado e mais precupado com o auxílio aos seus colegas da retaguarda. 

Este calibramento desenhou o novo funcionamento do meio-campo encarnado, que, por ironia do destino, ganhou maior consistência sem Matic, não devido à qualidade do agora médio do Chelsea, mas sim porque Jesus foi obrigado a reter Fejsa (mais limitado tecnicamente) num perímetro menor. Enzo ganhou respaldo para poder orientar o jogo ofensivo do Benfica, facto que libertou o quarteto de ataque do Benfica para liberdades criativas fulminantes. Para completar o processo de regeneração, os extremos benfiquistas começaram a desempenhar funções defensivas, compensando os laterais, pressionando nas linhas e na zona central do campo, diminuindo, tanto a tranquilidade da posse de bola, como as hipóteses de transição das formações rivais.

Este novo Benfica consegue atacar com, pelo menos, 4/5 elementos (dois avançados, dois extremos e um elemento adicional, seja um dos laterais seja Enzo), conseguindo, inclusivamente, juntar mais um jogador à manobra, tornando-se num sexteto de ataque em 50% das arrancadas ofensivas. Apesar dessa apetência ofensiva, o Benfica actual permanece sólido lá atrás, subindo as suas linhas e confiando em Fejsa para liderar a coordenação defensiva. 

Darwinismo futebolístico

Quem acreditava, piamente, que o regresso de Cardozo à titularidade dependia apenas da sua recuperação, estava rotudamente enganado (recordo o artigo «Cardozo, a quanto obrigas?»...). E porquê? Porque, como explica o artigo referido, o progresso táctico e técnico da modalidade obriga a um desenvolvimento que premeia os jogadores mais versáteis, mais aptos à adaptação funcional, aqueles que reúnem em si várias qualidades que possam oferecer uma complementaridade colectiva à equipa. O treinador moderno busca nos seus jogadores a capacidade «multi-tasking» e o maior índice de trabalho possível. Os activos que desempenham várias posições, várias tarefas, ganham preponderância em detrimento dos jogadores que apenas realizam uma ou duas tarefas: caso de Cardozo.

A prova que corrobora este argumento está embutida na própria evolução do futebol em si - a posição de líbero desapareceu, sendo hoje o guarda-redes a desempenhar essa função específica; os defesas laterais ganharam responsabilidades ofensivas, chegando a ser, por vezes, autênticos extremos (Lahm, Coentrão, Dani Alves, Jordi Alba, Marcelo, Maxi, Danilo, Alex Sandro e por aí afora...), concentrando em si tarefas defensivas e ofensivas; o trinco vem sendo substituído pelo médio defensivo e pelos médios centraisrecuperadores de bola, papéis que não se resumem à simples destruição de jogo, e que até podem desembocar no organizador de jogo recuado (como Pirlo, Matic ou Xabi Alonso); a melhor prova desse darwinismo é o surgimento do «box-to-box» médio todo-o-terreno que ataca e defende, implodindo a necessidade do médio central limitado.

No ataque, essa evolução (que tem sempre por base o mutualismo) verifica-se de igual modo: o ponta-de-lança fixo caiu em claro desuso, em detrimento do avançado móvel, completo, capaz de segurar a bola e esperar pelas desmarcações dos colegas, capaz de driblar e inventar espaços para rematar ou assistir, capaz de imprimir velocidade na transição de bola, desmarcar-se e baralhar as marcações. Lima e Rodrigo personificam essa evolução, remetendo Cardozo para o banco, adivinha-se que de modo sistemático. 

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