Raio X à Águia: Enzo Pérez
Jorge Jesus transformou Enzo Peréz

Raio X à Águia: Enzo Pérez

A história do futebol português tem o privilégio de ver em campo um dos jogadores mais incríveis e talentosos da Argentina. O médio Enzo Peréz, inspirado em Aimar, tem sido um autêntico exemplo para a família benfiquista e, nas últimas duas épocas, tem equilibrado todo o meio campo das águias. Saiba todo o percurso deste brilhante jogador aqui no Vavel Portugal.

francisco-dias
Francisco Dias

A dinâmica reconhecida ao conjunto do Sport Lisboa e Benfica deve-se em grande escala ao génio do influente Enzo Peréz. Nas duas últimas épocas, o centro-campista partilhou o miolo com Matic e, mais recentemente com Fejsa mas a regularidade e a classe que imprime ao futebol da Luz têm sido essenciais para as boas exibições da equipa a nível nacional e internacional. Este tipo de jogador permite ao técnico Jorge Jesus variar em diferentes fases de jogo o sistema táctico e, com Enzo, o Benfica ganha não só esse rigor táctico como também garra, resistência e técnica, o que tem permitido às águias lutar pelos títulos que os adeptos tanto sonham. O atleta tem um percurso curioso e nem sempre feliz de águia ao peito mas sob a alçada de Jorge Jesus ganhou experiência e uma maturidade tal que merece todo o destaque do Vavel Portugal.

Do Godoy aos Estudiantes: um talento que deslumbrou a Argentina

A Argentina é tradicionalmente um país formador e com história no futebol mundial. Entre Maradona, Messi ou Aimar, os apaixonados do futebol, em particular osportugueses, agradecem a excelência e a qualidade que os argentinos têm trazido aos nossos relvados perfumando uma Liga que se quer o mais competitiva possível. O futebol português teve o privilégio de ver em campo nomes como Lucho Gonzalez, Aimar e, entre outros, mais recentemente, Gaitan e Enzo Peréz.

A relevância que se costuma dar a extremos ou avançados nem sempre permite ter uma ideia suficientemente clara do que é o verdadeiro espectáculo do futebol. O caso de Enzo Peréz é um exemplo de um jogador que começou por ser extremo por denotar dotes técnicos acima da média e uma irreverência que despoletou o interesse da Europa do futebol. No entanto, actualmente, joga como número 8 ou até como médio ofensivo e o seu contributo para a equipa do Benfica nem sempre tem a mesma espectacularidade das fintas de Gaitan ou Markovic mas a organização e a visão de jogo que oferece aos encarnados fazem dele um dos jogadores mais influentes das duas últimas épocas do Benfica de Jesus.

Ao atingir a maioridade, Enzo Peréz tornou-se profissional de futebol ao serviço da equipa argentina do Godoy Cruz. Da mesma geração de Di María, as esperanças dos argentinos recaíam sobre estes dois jogadores pelo talento que ambos demonstravam quando, com a bola colada ao pé, enfrentavam os adversários de forma destemida. A deslumbrar a América Latina, ao serviço do Godoy, entre 2003 e 2007, Enzo Peréz disputou 84 partidas, com 13 golos marcados mas, sobretudo, com assistências primorosas para os avançados da sua equipa. Apesar de despertar o interesse de alguns clubes europeus, a influência de Diego Simeone foi essencial para a contratação sonante do emblema dos Estudiantes de La Plata. O actual treinador do Atlético de Madrid já demonstrou interesse em contratar o médio organizador de jogo e é com agrado que recorda os tempos de Enzo Peréz ao serviço do histórico clube argentino.

Na época 2007/2008 Enzo realizou 36 partidas e fez balançar as redes adversárias duas vezes. Na época seguinte, o tecnicista participou em 41 jogos e concretizou 6 tentos. Na temporada de 2009/2010, anos em que o Benfica se mostrou, pela primeira vez, interessado no jogador, o argentino jogou 41 vezes e fez o gosto ao pé por 5. O ano de 2009 e 2010 foram memoráveis para o jogador, por ter conquistado os troféus da Copa Libertadores e o Campeonato Argentino, onde o jogador foi peça fundamental para a obtenção destes títulos. Na última época em que Enzo vestiu a camisola dos Estudiantes, os aficionados tiveram a oportunidade de o ver disputar 40 jogos e festejar 5 golos. Ao serviço da selecção nacional da Argentina e numa posição em que a concorrência para as alas é feroz, destaque para a chamada de Enzo Peréz pelo seleccionador Maradona, em 2009, para um encontro particular com o Gana. Desde então, o médio soma apenas 5 internacionalizações, com relevo para um golo marcado, em 2011, num amigável frente ao Paraguai.

De contratação duvidosa a indiscutível para Jesus

Depois de ter despoletado o interesse dos encarnados em 2009, o namoro entre o emblema das águias e o jogador consumou-se e Enzo Peréz tornou-se reforço do Benfica para a época 2011/2012. A adaptação de jogadores sul-americanos ao futebol português tem sido, ao longo dos tempos, complicada e, com Enzo, foi particularmente difícil. Com a credencial de ala esquerdo, foi nessa posição que o jogador começou por actuar na pré-época e, desde logo, mostrou alguns dotes técnicos que facilmente deslumbraram os adeptos da Luz. No entanto, à primeira perda de bola, o jogador demonstrava alguma insegurança e imaturidade, que levaram rapidamente Jorge Jesus a preferir Gaitan. Com apenas 4 jogos oficiais em 2011, o argentino teve a infelicidade de, para além de não se ter adaptado ao clube, ter sofrido uma lesão que o impediu de evoluir e mostrar serviço ao treinador. Com os responsáveis do Benfica a duvidar dos 5,5 milhões investidos no atleta e, com a vontade do jogador, em regressar à Argentina, o consenso surgiu e Enzo voltou a vestir a camisola dos Estudiantes, clube que lhe trazia boas memórias.

Quando terminou o empréstimo e, atendendo às vendas do Benfica de Javi Garcia e Witsel, o técnico Jorge Jesus procedeu a algumas adaptações e experiências para compor o meio-campo das águias. Perante tanta venda encarnada no mercado de transferências, os adeptos demonstraram alguma desconfiança de quem iria compor o centro do terreno que, com Javi Garcia e Witsel, havia ganho consistência no ano anterior. Apesar de tal facto, o estratega Jorge Jesus teve a coragem de lançar Matic e Enzo para compor a dupla de meio-campo e, depois de alguma intermitência inicial, foi unânime que as características do sérvio e do argentino, por serem tão díspares, acabaram por se complementar, dando ao futebol defensivo e atacante dos encarnados, ainda maior critério do que a dupla Javi e Witsel.

A estratégia do treinador da Luz recaíu sobre o habitual 4x4x2 mas, com Enzo Peréz a compor o meio-campo, a avalanche atacante do Benfica tornava-se, em algumas fases de jogo, num 4x1x3x2, isto é, a versatilidade do argentino permitia que, tanto nas transições defensivas como ofensivas, e com a ajuda de Matic, que o Benfica pudesse rapidamente sair de um lance defensivo para uma jogada de ataque, com uma rapidez e critério que desequilibrava qualquer adversário. Neste 4x1x3x2, Enzo Peréz mostrava como é que um jogador que inicialmente era extremo, consegue aproveitar as suas qualidades e aptidões, para evoluir tacticamente e é impressionante como, em diferentes fases do jogo, o argentino desempenhava a posição de número 8, de número 10 e, por vezes, a posição de extremo direito, tornando imprevisível, para os opositores, a sua marcação individual.

Quando o Benfica partia para ataque continuado, formava-se o habitual 4x4x2 e, aí, Enzo Peréz era preponderante para pressionar os adversários, o que permite concluir que, o argentino desenvolveu, com Jorge Jesus, uma agressividade e um poder de pressão assinaláveis que, aliados à técnica, visão de jogo e classe, tornam-no, aos 28 anos, um jogador completo que, nem sempre finta, nem sempre é o centro das atenções, mas que é essencial e decisivo a construir e a destruir jogo, o que permite aos avançados brilhar na frente de ataque. O mérito desta adaptação recai totalmente em Jorge Jesus, que tornou Enzo um símbolo de garra e um exemplo para o clube e, para quem realmente gosta de futebol, é perceptível que um médio com esta qualidade e versatilidade é essencial para o futebol moderno que é, ao nível europeu, cada vez mais táctico e que tem cada vez menos espaços e, são jogadores como este argentino, que apesar de ser apenas um elemento, conseguem dar consistência, a todo o processo defensivo e atacante.

Com o Benfica a lutar pelo campeonato, pela Taça de Portugal e pela Liga Europa, em 2012/2013, a estratégia de Jorge Jesus pecou apenas pela constante utilização dos mesmos jogadores, principalmente sobrecarregando Enzo Peréz que, ao longo dos 90 minutos que cada jogo albergava, era um atleta que corria demasiado e o desgaste ao longo da época coincidiu com a quebra exibicional que fez com que o Benfica perdesse a Liga Zon Sagres perto do fim e, nas fatídicas finais, frente ao Guimarães e frente ao Chelsea. Ainda assim, foi nesta época que Enzo Peréz se afirmou, em definitivo, depois do começo difícil na Luz e esteve presente em 47 jogos, tendo marcado 4 golos.

2013/2014: a consolidação do diamante que Jesus lapidou

Para a nova época 2013/2014, o Benfica reequilibrou o plantel com várias contratações mas manteve a dupla Matic e Enzo que tantas garantias deu ao futebol encarnado, naépoca passada. Com a reabertura do mercado em Janeiro, Matic transferiu-se para o Chelsea e, mais uma vez, toda a família benfiquista se interrogou de como iria ficar o sector intermediário da equipa. Com um profundo conhecimento do plantel, Jorge Jesus apostou no sérvio Fejsa e foi fácil a sua adaptação a número 6, devido, em grande parte à dinâmica e entrosamento que Enzo Peréz dava ao miolo, o que permitiu ao sérvio adaptar-se, naturalmente, com o incansável argentino a compensar defensivamente o meio-campo do Benfica e, com as habituais transições rápidas que, nesta época, se têm acentuado em grande escala, pelo facto de, alas como Gaitan e Markovic, conseguirem dar sequência aos lances que o próprio Enzo constrói.

Com a estabilidade de jogo que Jorge Jesus construíu ao longo desta época, os processos parecem estar automatizados, com Fejsa e Enzo a construírem jogo, para os habituais alas, Gaitan e Markovic, que por seu lado, têm o privilégio de contar com dois avançados como Rodrigo e Lima. Com o principal objectivo do Benfica a ser o campeonato, recordamos, por exemplo, o jogo contra o Sporting na Luz, que foi, talvez, o jogo mais decisivo para o desfecho do presente campeonato. Nesta partida, o Benfica venceu os leões por 2-0, com Enzo Peréz a ser o melhor jogador em campo, o que levava os adeptos, a proferir, na gíria do futebol, a frase “parece que está em todo o lado”. Para esta estratégia de Jorge Jesus funcionar e poder jogar tão balanceado para o ataque, só com um jogador como Enzo é que uma equipa que joga com dois avançados e dois alas declarados, consegue imprimir tal estratégia tão ofensiva. Voltando ao jogo frente ao Sporting, recordemos que a pressão que Enzo Peréz exercia sobre Adrien Silva e André Martins permitia, na altura de recuperação de bola, passes instantâneos para as costas da defesa leonina, o que surpreendia os laterais subidos do Sporting, permitindo aos alas driblar, colocando em sentido todo o bloco defensivo dos de Alvalade.

Nesta partida, Enzo, para além do contributo defensivo, marcou um dos golos mais bonitos desta edição da Liga Zon Sagres onde, até ao momento, já disputou 23 jogos, com 3 golos concretizados. Esta estatística no campeonato permite concluir que, Jorge Jesus aprendeu com os erros e a sua utilização na Liga é indiscutivelmente maior, em relação às restantes competições, conseguindo o técnico gerir de forma mais consistente, os índices físicos e anímicos do argentino. Para a Taça de Portugal frente ao Porto, mais recentemente, e tendo em conta a qualidade de Rúben Amorim, é incontornável que o poder de pressão e o repentismo de Enzo fizeram falta no Dragão. O meio-campo benfiquista esteve irreconhecível e, em algumas fases de jogo, apático, o que deve ter levado muitos aficionados a interrogarem-se: “quando é que entra o Enzo?”. De forma tardia e já a perder 1-0, Jorge Jesus resolveu lançar Enzo Peréz, a 10 minutos do fim e, coincidência ou não, foi neste período que a acutilância ofensiva do Benfica se acentuou, com algumas iniciativas de ataque que ainda assustaram o guardião Fabiano.

Na Liga Europa, o treinador Jorge Jesus faz rodar vários jogadores, tratando-se esta competição de um objectivo secundário, que o tem levado a abdicar de Enzo Peréz. Por exemplo, no jogo da Luz frente ao Tottenham, o sobressalto que o Benfica sofreu depois de estar em clara vantagem, deveu-se a uma descompensação do meio-campo, que permitiu aos ingleses recuperar várias bolas nos últimos minutos da partida e quase levar a eliminatória para prolongamento. Podemos admitir que o principal objectivo do Benfica é o campeonato mas, um jogador com a qualidade de Enzo Peréz merecia mais oportunidades na Europa, já que é uma possível montra para um clube que, tradicionalmente, tem que vender de época para época (suplente utilizado em 3 jogos na presente edição da Liga Europa).

A selecção argentina merece a classe de Enzo

Como é reconhecido pelo mundo do futebol, a Argentina é tradicionalmente um país de extremos e avançados e actualmente conta com astros como Messi, Aguero, Tevez,Lavesi e Di María, que dispensam qualquer tipo de apresentações mas que não têm aproveitado este potencial, por se tratar de uma selecção que fica descompensada na defesa mas, principalmente, no meio-campo. Em ano de Mundial no Brasil, seria de todo inteligente, por parte do seleccionador, aproveitar um jogador que, sob a alçada de Jorge Jesus, atingiu um patamar elevadíssimo, que cairia que nem uma luva no centro do terreno argentino. O médio poderia partilhar o meio-campo com Mascherano e, assim, equilibrar defensivamente uma selecção que é toda balanceada para o ataque. O seu forte posicionamento táctico e visão de jogo dariam muito mais ímpeto ao estrondoso ataque de Messi e companhia, deste jogador que, felizmente, nivela por cima a qualidade do futebol português.

A título de curiosidade e atendendo ao facto de Enzo Peréz ser um jogador correcto e que demonstra hombridade e humildade, recordamos que a sua família está intimamente ligada ao futebol e, particularmente, Enzo que sempre demonstrou um carinho especial por Pablo Aimar e tem no River Plate o seu clube de eleição. O nome Enzo advém da admiração que o pai do argentino tem, por um antigo jogador do River, de seu nome Enzo Francescoli, por este ser um jogador de qualidade, com simplicidade e humildade. O argentino de 28 anos, que respira futebol, prova que, para além de ter capacidade, talento e aptidão, é necessário também ter as qualidades humanas que permitam ultrapassar as adversidades, admitir erros, que permitem neste momento esquecer que o percurso deste brilhante jogador, não começou da melhor forma, aquando da sua transferência para o Benfica. Perante tudo isto, é expectável que num futuro próximo, o médio organizador de jogo se transfira para um “tubarão” europeu e assim continuar a deliciar os grandes palcos do futebol mundial.

VAVEL Logo