O 3-5-2 da «Vecchia Signora» visto à lupa

Juventus engrena em 3-5-2, Benfica em 4-4-2: isto em teoria, numa generalização apressada que descura a complexidade do planeamento táctico de cada equipa. Conte veio solidificar o estilo de jogo bianconeri com três centrais, sustentando o meio-campo com dois alas que se adicionam aos movimentos ofensivos da equipa. Pirlo impulsiona as sinapses do cérebro da Juventus, imediatamente posicionado à frente dos centrais. No miolo, Pogba e Vidal pontificam como autênticos príncipes, dando corpo e virtude à construção de jogo italiano.

Por sua vez, Jorge Jesus construiu um Benfica ofensivo, viciado na vertigem atacante, percorrendo um longo caminho desde 2009/2010 (ano do primeiro título nacional), pleno de golos, futebol espectáculo e jogadas de belo efeito - faltou a materialização em troféus do atraente futebol encarnado. De um 4-2-4 que vigorou durante toda a época passada e ainda subsistiu até Janeiro deste ano, o Benfica passou para um 4-4-2 estabilizado, equilibrado e consistente, renegando finalmente o suicida 4-2-4, potenciador de buracos no corredor central e nas costas dos laterais.

3-5-2 matreiro e tacticamente evoluído

Três centrais de qualidade, Bonucci, Chiellini e Barzagli, constituem a linha defensiva da Juventus: quando a bola sai dos pés de Buffon, Bonucci é o elemento preferencial, central entre os centrais, que se posiciona para fazer a primeira distribuição, geralmente para os colegas do lado, esperando um momento oportuno para colocar a bola nos pés do construtor Pirlo, autêntico pivot, que joga constantemente de costas para a frente de ataque. Caso a pressão impossibilite tal passe, a outra solução é o passe directo (muitas vezes longo) para a subida dos alas, Asamoah pela esquerda e Isla (ou Lichtsteiner) pela direita.

Resumindo: Bonucci recebe, circula até encontrar o espaço para se conectar com Pirlo, no começo do círculo central. Pirlo, que recebe de costas a bola, vira-se de modo fluído e rapidamente executa passes longos para as extremidades do campo, servindo a subida dos alas da «vecchia signora», principalmente o lado esquerdo, onde Asamoah (antigo extremo adaptado a ala) tem tendência para atacar mais que o companheiro do lado contrário. A celeridade com que o «deep-lying playmaker» pensa e executa a construção (directa) de jogo é assinalável: em pouquíssimos segundos a Juventus pode, se não for correctamente pressionada, colocar a bola no seu sector ofensivo - enquanto o ala recebe a bola, Pogba ou Vidal sobem no terreno para dar uma opção de passe interior.

O virtuosismo táctico deste 3-5-2 possibilita um meio-campo com cinco elementos: dois alas que obrigam o adversário a alargar as suas linhas no momento da pressão, um «regista» que elabora o jogo e o passe de arranque, e dois médios centrais com agilidade, velocidade e características polivalentes. Neste meio-campo povoado a Juventus não costuma perder tempo em circulações de bola, preferindo lançar a bola para os flancos e subir no terreno para suforcar o adversário uma vez controlado o domínio da posse. Pogba e Vidal sobem com facilidade (Vidal é um dos melhores marcadores do plantel) e apoiam as movimentações ofensivas do veloz e tecnicista Tévez, que flutua pela linha atacante procurando espaços para receber a bola.

Na saída de bola ainda em perímetro defensivo, a Juventus possui três centrais que podem, todos eles, sair a jogar, caso o passe habitual para Pirlo não possa ser efectuado. Bonucci permanece no centro enquanto Barzagli e Chiellini podem aproximar-se das linhas laterais, abrindo maior amplitude de jogo e, inclusivamente, subindo no terreno, até à linha de meio-campo, forçando o adversário a disponibilizar jogadores para lhe fazerem oposição, assim potenciando possíveis linhas de passe - quer pela lateral (com Asamoah ou Isla disponíveis) quer pelo interior, com Pogba ou Vidal (Marchisio é outra opção, caso jogue).

Para além da marcação apertada ao raio de acção de Pirlo, o oponente da Juventus deve ter sempre em atenção a estas movimentações de Barzagli (Cáceres é o seu natural substituto) e de Chiellini (conhecedor da posição de lateral esquerdo), pois estas podem abrir brechas pelas quais a Juventus constrói o seu jogo, pelo miolo, ou fugindo pelas linhas laterais, fazendo uso dos seus alas possantes (Lichtsteiner é forte, corpulento e rápido). Apesar da útil pressão que deve ser feita sobre a saída de bola italiana, atenção ao bloqueio destes dois centrais - se os extremos (no caso do Benfica, Markovic e Gaitán) subirem para cortar espaços, Asamoah e Isla (ou Lichtsteiner) ganham liberdade zonal para receber a bola sem oposição imediata.

Caso o oponente da Juventus suba em bloco, de modo a encurtar os espaços de manobra e empurrar os bianconeri para o seu reduto, novos problemas voltam a surgir: a mobilidade dos seus avançados (no caso, Tévez e o sprinter virtuoso Giovinco ou mesmo até o versátil Vucinic) poderá ser uma pecha no plano contrário, já que os avançados juventinos poderão ficar, muitas vezes, numa situação de um-para-um diante dos seus opositores de circunstância, neste caso os centrais. Atenção, por conseguinte, às derivações destes para as faixas, procurando a finta e o passe para o interior, onde colegas da zona central podem surgir para finalizar ou gerar o caos na imediação da área.

Llorente, avançado ex-Bilbao, oferece ao ataque um naipe de qualidades que são diferentes dos restantes avançados disponíveis: possante, alto, perigoso no jogo aéreo, Llorente pode servir de pivot atacante sempre que a equipa não consiga elaborar jogadas como gosta. Os passes longos (de Pirlo, principalmente) poderão ser uma arma secundária no combate à pressão adversária.

Estancar Pirlo e gripar o melhor motor bianconeri

Para estancar Pirlo é essencial que lhe seja dada uma atenção especial, da preferência através de uma pressão posicional que não permita ao italiano receber a bola com tempo para pensar. Para tal, o Benfica poderá reservar Lima ou Rodrigo para essa tarefa, bloqueando a zona de Pirlo - mas, para que tal estratégia seja efectiva, é preciso que todo o bloco avançado dos encarnados imprima uma pressão concentrada, acompanhando as movimentações da Juventus e montando uma linha estável que preencha o campo: em Turim, a melhor estratégia será tapar os caminhos (exemplo da Roma no vídeo) e obrigar a Juventus a errar no passe.

Mesmo assim, isso apenas gripará o motor principal, referente à manobra favorita da formação, mas não inviabilizará os outros já referidos: é por esta razão que a equipa de Conte é forte, bem montada e apetrechada com um sistema táctico que oferece múltiplas saídas para os problemas causados pelo adversário. No vídeo mencionado, o passe acaba por sair, encontrando o ala bem subido no terreno - o segundo passe acaba por ser errado mas a transposição de bola foi uma realidade - Bonucci serviu o colega na perfeição.

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