Rios de esperança e um deserto de ideias

Até à última jornada. É desta maneira que será decidido quem desce, quem joga um playoff e quem permanece no escalão maior do nosso futebol. À entrada para a penúltima jornada o Olhanense era aquele que se encontrava em pior posição; os algarvios precisavam obrigatoriamente de vencer, mas tinham pela frente o FC Porto, equipa que, apesar da temporada muito abaixo das possibilidades, constituía um obstáculo extremamente complicado de ultrapassar.

Giuseppe Galderisi pedia um milagre à sua equipa, e a verdade é que crença foi aquilo que não faltou aos algarvios; os de Olhão encararam o adversário de frente, sem qualquer tipo de receio e conscientes da responsabilidade. Do lado do FC Porto as ausências e novidades eram muitas: Mangala, Quaresma ou Alex Sandro eram apenas algumas das indisponibilidades; em sentido contrário estavam as novidades Kayembe e Tozé, tendo este último alinhado no onze inicial de Luís Castro.

O frete e o ataque

Numa partida disputada sobre um relvado em más condições, foram os dragões que começaram por tomar conta da partida nos minutos iniciais, um domínio que não tinha qualquer tipo de consequências para o adversário devido ao carácter inofensivo das investidas portistas. Perante esta situação o Olhanense rapidamente encontrou modo de aproveitar a apatia do jogo dos azuis-e-brancos, fazendo-se valer da rapidez e dinâmica dos seus alas para criar desiquilíbrios na defesa portista; Femi era de longe o mais interventivo, procurando explorar ao máximo o visível desconforto de Ricardo em jogar como lateral esquerdo.

Conduzidos por um espírito de missão, os algarvios procuravam criar perigo perante um FC Porto que parecia estar a fazer o frete de vir a Olhão disputar uma partida de futebol. Perante esta conjuntura, foi sem surpresas que os rubro-negros chegaram à vantagem. Pouco antes de terminar o primeiro quarto de hora, um livre batido para a grande área portista encontrou Sampirisi, o italiano assistiu Koldrup que, na cara de Fabiano e com um pouco de sorte à mistura, acabou por fazer o primeiro do jogo.

Mesmo a ganhar por 1-0 diante do FC Porto, o Olhanense continuou ao ataque, beneficiando das melhores ocasiões de golo da primeira parte; os remates de Rui Duarte aos 25 minutos, e de Dionisi aos 33 indiciavam uma equipa de Olhão determinada a aproveitar a letargia portista para chegar ao segundo golo. Do lado dos dragões, Luís Castro trocou Carlos Eduardo por Quintero em busca de mais criatividade e definição, mas a verdade é que os azuis-e-brancos pareciam totalmente alheados do jogo. O resultado ao intervalo era lisonjeiro para os dragões.

Herrera: uma gota no deserto

A segunda parte trouxe nova alteração no FC Porto, Luís Castro deixava Tozé nas cabines, fazendo entrar Kayembe. Todavia a toada da partida não se alterou, o Olhanense mostrava-se mais esclarecido e aguerrido; os homens de Galderisi apareciam frequentemente com vários elementos dentro da grande área aquando dos seus ataques, sendo frequente ver contra-ataques dos algarvios em superioridade numérica em relação à defesa portista. Apesar disso, a vontade algarvia tolhia, por vezes, o seu discernimento; os de Olhão queriam chegar rapidamente ao golo, mas acabavam por muitas vezes falhar o último passe ou serem apanhados em posição irregular, Dionisi esteve em particular destaque neste aspecto.

Apesar das mexidas no ataque, os dragões continuavam pouco ou nada ameaçadores junto da baliza de Belec, um guardião com muito menos trabalho do que esperaria. Inconsequente a atacar e descoordenado a defender, o FC Porto acabaria por sofrer mais um golo; boa iniciativa de Jander pela direita, o cruzamento atrasado e Dionisi, meio com a canela, meio com o pé, acabou por fazer o 2-0, um resultado que apenas poderia chocar aqueles que não assitiam à partida. (foto: gettyimages.pt)

A perder por dois golos, e com os poucos adeptos portistas a manifestar claramente o seu desagrado para com a prestação da sua equipa, os azuis-e-brancos continuaram sem capacidade de resposta, aproximando-se da área adversária sem nunca criar uma situação de golo iminente. Contudo, e neste completo deserto de ideias, eis que surgiu uma gota de água; Herrera aproveitou uma bola aliviada pela defesa algarvia para, na meia-lua da área, desferir um forte remate para o melhor golo da tarde, e um dos tentos do campeonato.

Nem com o magnífico golo de Herrera o FC Porto foi capaz de se galvanizar e procurar o empate; com muito pouca clarividência, os dragões lá iam tentado acercar-se da área algarvia, na esperança de que um golo surgisse. O Olhanense mostrou garra e concentração, mantendo-se unida e coesa na sua defesa, deixando correr o relógio.

Com este triunfo, o Olhanense permanece vivo na luta pela permanência, estando assim reservada uma última jornada de emoções fortes para os três clubes ainda envolvidos (Olhanense, Paços de Ferreira e Belenenses). A vitória dos de Olhão perante o FC Porto é a primeira desde a temporada de 1973/74. Na altura os algarvios também derrotaram os dragões por duas bolas a uma.

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