A liga dos fantasmas
Os estádios vazios são o prato forte do futebol nacional

Precisamente em 2005, o holandês Co Adriaanse, há escassas semanas no comando técnico do Fc Porto, afirmara: «Vi o jogo do Setúbal e só se via imagens de uma varanda com pessoas a espreitar, de borla, para o relvado. Não havia adeptos. É sobre isso que devem escrever. O futebol pode melhorar se as pessoas em Portugal amarem o jogo e forem aos estádios».

Esta declaração, por muita indignação que tenha gerado na altura, é um retrato fiel do nosso campeonato. Não digo do nosso futebol, nem da maioria das nossas equipas, mas objectivamente uma fotografia mais que realista da Liga Portuguesa.Temos boas equipas, temos bons jogadores, bons resultados nas provas europeias e uma grande paixão pelo desporto em todo o país. Mas não temos adeptos, pelo menos em quantidade suficiente para a quantidade de equipas que queremos que compitam entre si.

Sabemos que Sporting, Benfica e FC Porto têm muitos associados, e que concentram sobre si o grosso do volume de apoio do nosso campeonato. Mas depois, só V.Guimarães e mais recentemente o Sporting de Braga conseguem registar assistências dignas de um clube profissional de futebol. No resto, falamos de autênticos desertos nos estádios do nosso país que envergonham qualquer português que tente convencer um cidadão estrangeiro, por exemplo, do poderio da nossa liga relativamente a outras financeiramente mais fortes.

Olhando para os resumos dos jogos do campeonato, vemos bancadas vazias, com alguns emplatros aqui e acolá a ajudarem ao perturbador silêncio que grassa nos Estádios. Uns dormem, outros tapam o sol com a folha do jornal para conseguirem ver alguma jogada digna de registo – se houver-, e outros preferem acompanhar o relato de outra qualquer partida de futebol que não aquela. São dezenas, centenas…poucas e tão poucas que às tantas contabilizá-las torna-se quase inútil.

É claro que para os amantes do futebol o aumento do número de equipas no nosso campeonato nem é uma má notícia: aumenta a competição, aumenta o número de jogos e diminuem as irritantes pausas que ao longo do ano vão interrompendo e prejudicando o ritmo das equipas. Mas a verdade é que mais competição não significa mais adeptos.

Durante anos e anos, a conversa do “preço dos bilhetes” foi desculpa esfarrapada usada para justificar a ausência de público. Obviamente com um fundo de verdade, este argumento foi ainda asssim sendo sucessivamente contrariado à medida que a crise económica acentou a necessidade de redução de bilheteira e promoção de entradas gratuitas nos Estádios, com o número de adeptos a não sofrer oscilações significativas.

Começam hoje já a perceber alguns clubes (finalmente), que a receita passa por atrair as pessoas da cidade e da região para o estádio, para a equipa e para os jogadores. Que uma ligação com um clube de futebol é criada a partir da infância, e é nos jovens e nas crianças que os departamentos de marketing e comunicação destes clubes devem apostar. É preciso filiá-los, pô-los a praticar desporto, ensinar-lhes a cultura do clube e por fim criar uma associação que seja mais forte do que uma simpatia hereditária por qualquer um dos três grandes passada por pais e avós.

Por fim, no que respeita à questão financeira, não deixa de ser interessante que, imaginando que a classificação actual da Liga Zon Sagres se mantenha tal como está após a última jornada, 11 dos 18 clubes da próxima temporada sejam da região norte do país, contabilizando também a Académica de Coimbra que, sendo centro, está mais a norte do que a Sul. De Lisboa para baixo (incluindo Marítimo e Nacional), apenas sete formações.

Interessante porque falamos de 11 clubes pertencentes à região mais pobre de Portugal, onde se concentra a grande percentagem de desempregados do nosso país. Aceitando a explicação do pouco público pela inflação na bilheteira, e quando se preparam mais quatro equipas nortenhas para voltar à primeira Liga (contando com o Boavista), tal poderia pressupôr um agravamento no nível de assistências no nosso campeonato. Subsistem dúvidas sobre a capacidade de algumas destas equipas em atrair adeptos para os seus estádios, a manter-se a inexistência de projectos de captação de público e os níveis de assistências conseguidos em divisões inferiores. Isto apesar das suas estruturas técnicas e directivas fortes, e da sua tradição no principal campeonato português.

Os grandes projectos estão então fora do radar deste núcleo duro do futebol profissional português, fortemente centralizado no norte do país. Em equipas modestas, sem capital financeiro ou tradição no nosso futebol, mas que dia após dia vão alcançando conquistas em termos de mobilização.

Por mais incrível que possa parecer, o futuro do futebol português está aqui, nestes clubes que inteligentemente vão percebendo o caminho para chegar ao topo, sem dívidas mas com público. Por agora, a Liga vai ficar mais engraçada, com mais equipas, mas com ainda menos público nas já vazias bancadas dos nossos estádios.

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