Marco Paixão, o goleador esquecido
Festejos de um avançado que não coube nas contas de Bento (Foto: Dawid Antecki)

Marco Paixão, o goleador esquecido

Marcou, nas duas últimas épocas, mais golos que qualquer outro ponta-de-lança escolhido por Paulo Bento. Radicado na Polónia, Marco Paixão veste a pele do goleador sem estatuto de seleccionável, apesar do rendimento apresentado. Não é caso isolado.

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Marcou que se fartou, fê-lo durante duas épocas inteiras: um saldo de 43 golos e o reconhecimento indubitável das suas qualidades por parte das ligas que o acolheram nessas duas temporadas. Radicado na Polónia, Marco Paixão actuou no Chipre antes de se mudar para o Slask Wroclaw, onde atingiu a marca dos 28 golos em 2013/2014. Antes, em toda a época 2012/2013, marcara 15 golos ao serviço do modesto Ethnikos Achnas

Militando numa equipa de parcos recursos, Paixão, de 29 anos, foi, a par de Marcin Robak, o melhor marcador da liga polaca, a Ekstraklasa, com 22 golos apontados. Dotado de um perfil eficaz na hora de sentenciar as jogadas, Marco Paixão, natural de Sesimbra, gozou nas duas últimas épocas de uma forma invejável: os golos acumularam-se e a carreira do português formado no Sesimbra (com passagem pelo FC Porto) ganhou visibilidade...mas, aparentemente, não a suficiente para convencer Paulo Bento.

Revelação lá fora, invisível cá dentro

O avançado luso recebeu ontem o prémio para «Revelação do Ano» no âmbito da liga polaca, já que, logo na sua época de estreia, impressionou pela capacidade finalizadora. Além desse troféu individual, Paixão foi também escolhido para integrar o onze ideal do campeonato. O avançado, que conta também com passagens por Espanha (Cultural Leonesa e Logroñes) e Escócia (Hamilton) goza do seu melhor momento de forma, apresentado níveis de eficácia elevados, ainda mais elevados quando os comparamos com os executantes que o suplantaram na convocatória para o Mundial 2014.

Apesar de ser uma revelação fora de portas, Marco Paixão continua a ser invisível em Portugal: não só para a comunicação social (que pouquíssimo destaque lhe oferece) como também para o corpo técnico da Selecção Nacional. Estarão estes dois elementos interligados no que à «produção» de conteúdo analítico (técnico) diz respeito? Serão estes dois factores que se complementam, num circuito-fechado baseado no binómio visibilidade/valor? Por outras palavras: serão as convocatórias feitas a partir de uma base mediática?

É certo que o mediatismo comunicacional desempenha um papel intenso na ponderação e nas tomadas de decisão, quer de treinadores quer de seleccionadores, mesmo a um nível tendencialmente inconsciente. Poderá ser ou não caso de Paulo Bento, não o saberemos enquanto o próprio não se pronunciar (nunca o fez) sobre as duas épocas de Paixão. Até no debate das escolhas Paixão (e outros) foi relegado para o esquecimento.

A pergunta que se impunha: porque que motivo um avançado que marca 43 golos em dois anos permanece no completo anonimato, enquanto concorrentes seus, bem abaixo do seu rendimento, são premiados com um lugar entre os melhores? Os argumentos responderão que existe uma consolidação grupal que deve ser preservada em detrimento de certas introduções 'estranhas ao serviço'; ou que, num claro cepticismo tendencioso, o jogador não provou nos grandes palcos (grandes equipas) o seu valor, dado ter actuado em insignificantes ligas que não contam para a análise do seleccionador. Ambas parecem revelar uma gritante desconsideração, quer pelo esforço futebolista em causa, quer pelos clube onde passou - trabalho é trabalho e tal deveria, quanto menos, abrir porta a uma pequena oportunidade: quantos golos marcaria Hélder Postiga no Slask Wraclow? Ou Hugo Almeida? Ou Éder?

Paixão: mais golos que qualquer ponta-de-lança seleccionado

Nunca o rendimento de Paixão valeu, sequer, uma chamada à Selecção em contexto de competitividade nula, como um amigável. Dois anos de golos sem uma única chance de furar pelo restrito grupo de seleccionáveis lusos. Dos três pontas-de-lança escolhidos por Paulo Bento para a odisseia no Brasil, nenhum possui, actualmente, mais golos (ou sequer registo próximo) que o avançado da liga polaca. Hugo Almeida contou 15 golos na temporada ao serviço do Besiktas, quase um terço dos golos de Paixão. Mesmo adicionado os golos da época transacta (10), Almeida nem iguala o registo de golos de Paixão em 2013/2014. Se passarmos para os outros dois escolhidos, a situação torna-se ainda mais nítida...

Hélder Postiga registou a quantia de 4 golos durante a temporada, numa época divida entre Valência e Lazio, com lesões pelo meio. A fraca forma do atacante de 31 anos prolongou-se durante o ano e o jogador natural de Vila do Conde chega agora à esquadra lusa numa condição física duvidosa. Mesmo somando os golos da época passada, Postiga fica a 25 golos do jogador do Slask na soma das duas épocas. Éder marcou os mesmos 4 golos em 2013/2014, numa época igualmente marcada pelas constantes lesões. Mesmo adicionado os 16 golos marcados no ano passado, o avançado bracarense fica a uma distância de 23 golos de Marco Paixão. Aliás, à excepção do imparável Ronaldo, não há, em todo o plantel luso, quem tenha marcado mais golos esta época que o goleador esquecido.

O «star-system» e o super agente Mendes

Fora da dinâmica do mediático e tentacular «star-system», Marco Paixão não justificou, aos olhos da Selecção, uma chamada ao plantel dos melhores jogadores nacionais. Numa formação envelhecida que introduz poucos valores refrescantes (Portugal é a quarta selecção mais velha entre as presentes no Mundial 2014), a ausência de Paixão apenas é um sintoma da pouca aposta nos valores que extravasam a esfera consolidada daqueles que normalmente ocupam as vagas da selecção. Nem sequer é uma questão de idade, mas sim de um proteccionismo grupal que se preserva nos limites da confiança: parece tremendamente difícil furar pelo núcleo luso e a desconfiança perante jogadores doutros 'circuitos' aparenta ser considerável.

Jogadores como José Fonte, Eliseu ou Diogo Figueiras (Daniel Carriço goza de menos espaço devido à competição no seu lugar), já para não falar de Adrien, são outros exemplos de jogadores que orbitam fora da esfera 'seleccionável'. O defesa do Southampton foi um dos mais competentes centrais da Premier League, apresentando uma constância assinalável (38 partidas disputadas numa liga exigente) e uma «forma impressionante», como descreveu o jornal inglês «Daily Star». Eliseu, com 30 partidas e um peso considerável no onze do Málaga, permanece fora das cogitações de Bento também. 

Outra das tendências claras no contexto dos seleccionáveis é a predominância da influência do agente Jorge Mendes, que agencia 10 elementos presentes na convocatória para o Mundial: Cristiano Ronaldo, Bruno Alves, Fábio Coentrão, Pepe, Rui Patrício, Miguel Veloso, João Moutinho, William Carvalho, Hélder Postiga, Hugo Almeida e também o próprio seleccionador. As questões inerentes a este facto, tanto éticas quanto desportivas, podem facilmente ser erguidas. Conflitos de interesses e monopólios empresariais são susceptíveis de criar debate sobre a exagerada importância de Jorge Mendes na vida da selecção «de todos os portugueses»...será assim mesmo?

 

 

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