Análise táctica do Mundial: 1ª Jornada
Página do «De Telegraaf» deu destaque à lide táctica de Van Gaal sobre a Espanha

Numa primeira jornada repleta de surpresas Portugal, Espanha e Uruguai foram os principais destaques pela negativa. Com derrotas surpreendentes quer pela superioridade teórica face ao adversário (Espanha e Uruguai), quer pelos números avultados, houve nuances tácticas a fazer a diferença e os jogos, embora ganhos no terreno fruto da capacidade técnica e inteligência táctica de alguns jogadores, começaram a ser ganhos na sala das tácticas.

Brasil x Croácia - A preponderância de Oscar e demasiado espaço entre linhas para Neymar Brilhar

fonte: zonalmarking

Scolari fez alinhar a Canarinha em 4-2-3-1 embora com muitas diferenças daquilo que é habitual. Normalmente "Felipão" desenha um ataque com 2 avançados interiores nas faixas a cortar para dentro para procurar a finalização com o pé mais forte (Neymar da esquerda para o meio e Hulk da direita para zonas interiores para armar o seu potente remate de pé esquerdo), aproveitando o arrastamento dos centrais contrários que Fred promove com as suas movimentações no espaço vazio e procurando tabelas com Oscar, o "playmaker". No jogo inaugural do Mundial Brasil 2014 Scolari, ao contrário do que é habitual nele, surpreendeu. O Brasil alinhou com Oscar na direita, numa posição onde não é usual vê-lo mas onde esteve a muito bom nível, e Hulk na esquerda, sendo que o ex-FC Porto nunca conseguiu mostrar o seu futebol enconstado à faixa esquerda, apostando muito num futebol de cruzamentos para a área.

Neymar foi quem mais beneficiou desta nuance táctica, pois teve espaço para jogar entre linhas conseguindo inclusivamente marcar um golo numa situação em que teve metros para correr e chutar na passada. A estratégia de Felipão é explicada maioritariamente por duas razões, que se prendem com a maneira como Niko Kovač planeou o jogo. Kovač entrou com intenção de fechar o espaço com laterais defensivos, capazes de acompanhar os movimentos interiores de Hulk e Neymar a partir da faixa e ao mesmo tempo de começar a construir rápido de trás, apostando em centrocampistas com muita qualidade de passe longo, transporte de bola e visão de jogo como são Rakitic e Modric em detrimento de um elemento de combate como seria Vukojevic.

O seleccionador Croata apostou no jogo pelas faixas porque se viu privado de Mario Mandzukic, habitual ponta de lança e goleador desta equipa e viu a hipótese de explorar o espaço nas costas dos laterais Canarinhos, sempre muito ofensivos. Com o Brasil a partir para um jogo mais pelas faixas em busca de cruzamentos e passes atrasados Vrsaljko acabou por sofrer com Oscar que puxou muito para o pé esquerdo do lateral esquerdo destro da Croácia.

Hulk não teve tanta sorte com Darijo Srna pela frente. O experiente lateral direito conseguiu anular Hulk que se viu privado daquilo em que é mais forte, as incursões para o meio para finalizar em força com o pé esquerdo e que foi sempre muito previsível nas suas acções. A Croácia chegou primeiro ao golo numa jogada que espelha na perfeição a estratégica de Kovač, os médios começam a construção rapidamente de trás, com Rakitic a sair em posse e a abrir na faixa para Olic que coloca a bola no coração da área.

Se não houve Mandzukic para finalizar houve Marcelo, que depois de um desvio de Jelavic acabou por marcar na própria baliza. É fruto da aposta em médios com muita qualidade na saída de bola no "duplo pivot" que a Croácia chega ao golo mas é também assim que sofre o segundo, com Neymar a ter muito espaço entre os dois médios mais recuados e os centrais e a conseguir ter espaço para armar o remate batento Pletikosa e consumando a reviravolta. Já antes Paulinho tinha beneficiado de algum espaço entre linhas para receber a bola e criar perigo às redes Croatas.

Não sendo de todo um jogo perfeito da equipa de Scolari que desaproveitou jogadores como Fred e Hulk, Oscar e Neymar conseguiram beneficiar de alguma falta de agressividade de Modric e Rakitic que acabaram por dar espaço nas costas. Salientar também a pouca coesão do bloco defensivo do Brasil, que tremeu por diversas vezes e que mostrou ser vulnerável contra uma equipa com homens mais rápidos e incisivos na frente.

Holanda x Espanha - O triunfo esmagador de Van Gaal e do 5-3-2

Fonte: zonalmarking

A Holanda de Louis Van Gaal levou de vencida a campeã do Mundo e da Europa com uma vitória avassaladora por 5-1. Face ao futebol rendilhado da seleção Espanhola Van Gaal fez alinhar 3 defesas centrais e 2 "trincos", fechando por completo as portas do miolo a la Roja, que não teve tempo e espaço para ter bola no meio campo e que sucumbiu ao pressing agressivo dos Holandeses. A Espanha até teve algumas situações de perigo fruto do posicionamento defensivo dos centrais Holandeses com Indi e De Vrij (centrais a jogar "por fora") a cair em cima dos médios espanhois e a ir pressionar muitas vezes à frente do duo de médios De Jong e De Guzman. Diego Costa avisou primeiro e depois sofreu penalti num lance em que teve espaço nas costas e David Silva teve nos pés a oportunidade de fazer golo depois de De Vrij sair para pressionar Iniesta e de o médio do Barça meter a bola no espaço vazio onde caia El Chino.

Depois de acertar as marcações e já a perder 1-0 a Laranja Mecânica acelerou para uma vitória estrondosa, atropelando Espanha. À estratégia de defender agressivo com 5 homens a reagir rápido no momento da perda no centro do terreno Van Gaal juntou Sneijder no centro, Blind pela esquerda e Janmat na direita com a missão de fazer chegar a bola em boas condições aos dois homens da frente (Robben e Van Persie). O primeiro golo surge numa destas acções após jogada magnifica de Blind e Robin Van Persie em que a Espanha dá muito espaço nas costas dos seus centrais e fica permeável à saída de bola longa, com Piqué a acompanhar Robben e a deixar em jogo RVP que num movimento à ponta de lança atacou as costas de Sergio Ramos e fez o golo.

Também no segundo golo Holandês há dedo de Blind mas desta feita foi Arjen Robben quem concluiu outra bonita jogada. O médio do Ajax recebe a bola de Sneijder e já antes de tocar no esférico tem Robben a atacar o espaço nas costas de Piqué (que tem novamente culpas no golo sofrido) e mete a bola picada para que o jogador do Bayern receba com classe e ultrapasse ainda Ramos e Piqué antes de abanar as redes de Casillas.

Com dois golos fruto de erros defensivos pelo meio, a Holanda chega ao 5-1 com mais um golo em que os médios descobrem espaço nas costas da linha de 4 Espanhola e em que Arjen Robben consegue receber a bola em velocidade e marcar, grande passe de Sneijder e saída de bola rapidissima dos Holandeses, muito agressivos na transição ofensiva explorando as lacunas dos homens de Del Bosque.

Avassaladora a estatística de roubos de bola da Holanda (Fonte: fourfourtwo )

Costa Rica x Uruguai - Brilhante desempenho dos underdogs de um grupo recheado de estrelas

Fonte: zonalmarking

Certamente ninguém previa uma vitória da Costa Rica frente à campeã em título da Copa América, muito menos um desempenho superior a todos os níveis dos homens de Jorge Luis Pinto. Num jogo marcado pela pouca qualidade técnica houve muitos lances de bola parada que evindenciaram as debilidades defensivas das duas equipas e de onde surgiram golos e penaltis.

As estrelas deste jogo são sem dúvida Joel Campbell e os 3 centrais da Costa Rica, que embora evidenciando algumas lacunas no capítulo do desarme estiveram sempre muito coesos e tiveram os laterais (sobretudo Diaz pela esquerda) a fechar muito por dentro, formando um quinteto que o Uruguai nunca conseguiu ultrapassar, sem imaginação nos médios e alguma complacência dos dois avançados que se deram demasiado à marcação desta linha de 5 muito recuada. A Costa Rica conseguiu segurar bem o poderio ofensivo do Uruguai que não contou com Luís Suarez e foi muito eficaz a lançar o veloz Joel Campbell na frente e beneficiando de algumas incursões ofensivas do rapidissimo lateral Gamboa.

Campbell, que pertence aos quadros do Arsenal mas que vem de 3 empréstimos consecutivos, o último dos quais ao Olympiakos foi um diabo à solta no ataque e deu muitas dores de cabeça aos homens de Óscar Tabarez. O lance do empate surge numa incursão de Gamboa a aproveitar a lentidão dos centrais Uruguaios e do lateral Cáceres, que cruza para a área onde Campbell aproveita alguma passividade do Uruguai para fazer golo.

Foi também Campbell quem aproveitou algum espaço nas costas da defensiva Uruguaia para meter bem a bola aproveitando uma movimentação muito interessante de Ureña que após receber o passe finalizou com muita classe fazendo o 3-1 final. Mais uma vez muito espaço dado entre os centrais e o lateral esquerdo e a Costa Rica a aproveitar bem para fazer golo, expondo a lentidão da defensiva Uruguaia.

Alemanha x Portugal - Vitória Germânica a premiar a ousadia de Low e a castigar a previsibilidade de Paulo Bento

Fonte: zonalmarking

Paulo Bento foi mais uma vez muito conservador e optou por uma equipa semelhante à que apresentou em 2012, com um desfecho catastrófico. O meio campo Nacional não teve capacidade para fazer frente aos 3 médios mais posicionais da Alemanha e entrou bem na pressão com Veloso a roubar uma bola a Lahm criando perigo mas cedo se esgotou e ficou sem qualquer dinâmica e com uma condição física fraca, perdendo a batalha do meio campo e abrindo espaços para as deambulações constantes dos 3 da frente que castigaram Portugal. Se por um lado Bento teve medo de, face à escassez de homens de área, apostar num elemento mais móvel na frente de ataque como Ronaldo ou Nani, Low foi mais imaginativo e colocou Muller, Ozil e Gotze em constantes movimentações que baralharam muito a defensiva Lusa ao invés de se limitar a apostar em Klose.

Low foi criticado por alinhar com 4 centrais (Howedes e Boateng nos flancos) pela falta de situações de 2-1 que iria ter com jogadores tão defensivos nas alas mas a Alemanha nem precisou de muitos jogadores na frente para complicar muito a vida aos Portugueses. Os 3 da frente andaram em trocas posicionais constantes e os 3 médios de contenção (Lahm, Khedira e Kroos) tiveram muita facilidade em anular a saída de bola Portuguesa, controlar o meio campo face à má condição física dos 3 médios Portugueses e potenciar as jogadas de envolvimento dos 3 homens da frente. Paulo Bento "largou" Nani e Ronaldo nos corredores com Hugo Almeida solto na frente e os 4 defesas Alemães nunca deram espaço para que Portugal pudesse impor o seu futebol de transições, ainda que tenham havido algumas hipóteses para Portugal onde ficou patente a falta de imaginação no ataque e a intenção excessiva de colocar a bola em Ronaldo.

Depois da expulsão Portugal perdeu-se completamente em campo e seguiram-se lances de total desconcentração da equipa Portuguesa e, não fosse a poupança com bola que os Alemães promoveram, o resultado podia ter atingido proporções ainda mais complicadas. Destaque para a passividade de Paulo Bento em reagir à expulsão, jogando algum tempo sem central de raíz até ao 3-0 altura em que meteu Ricardo Costa. Bento nem aproveitou para meter logo um central, corrigir o posicionamento defensivo e evitar sofrer o 3-0 nem partir para o ataque com um 4-4-1 com Veloso a central, ao invés apostou em Meireles numa posição mais recuada que pareceu sempre pouco confortável em formar a linha de 4 defesas como é patente numa jogada em que dá as costas e Portugal quase sofre golo por Muller.

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