Portugal no Mundial 2014: O que falhou?

Portugal no Mundial 2014: O que falhou?

Na ressaca de uma das piores participações da equipa das quinas numa prova de selecções o VAVEL analisa algumas das causas da má campanha Lusa e olha para o futuro, analisando o que deve mudar na equipa de todos nós.

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João Pita

Terminada que está a participação Lusa no Mundial do Brasil é altura de olhar para todo o processo de preparação da competição e tentar perceber o que foi mal feito e o que originou a má participação da equipa das Quinas no Brasil.

A convocatória - Vão os melhores ou vão os do costume?

O Mundial começou com muita polémica em Portugal e ainda dois meses antes da bola começar a rolar no Brasil já havia muita contestação às escolhas de Paulo Bento. Logo quando o seleccionador Nacional anunciou os 23 finais muita gente discordou das escolhas do ex-técnico do Sporting. Depois de épocas muito bem conseguidas de elementos como Anthony Lopes, José Fonte, Antunes, Adrien Silva e Ricardo Quaresma o seleccionador optou por convocar outros jogadores que vinham de épocas onde pouco ou nada jogaram, por fazerem parte do habitual núcleo duro da selecção evitando mexer na dinâmica vencedora mostrada no Euro 2012.

Raul Meireles, João Moutinho, Bruno Alves, Miguel Veloso, Nani e Postiga são 6 dos habituais titulares da selecção mas tiveram épocas pouco conseguidas onde jogaram pouco e foram fustigados por lesões. Ainda assim Paulo Bento optou por levar jogadores da sua confiança não mexendo na estrutura da selecção. Para além de alguns jogadores habituais em más condições físicas e em sub-rendimento Bento decidiu também convocar jogadores estreantes em provas deste nível que vinham de épocas pouco intensas, com lesões pelo meio, como foram Éder e Rafa, ambos do Sporting de Braga.

Depois da participação no Mundial é fácil contestar os seleccionados mas fica a ideia de que Paulo Bento foi demasiado conservador e deixou de fora jogadores por motivos inexplicáveis prejudicando assim claramente as ambições da equipas das Quinas. Com a maior média de idades das equipas presentes no Brasil, Portugal pareceu sempre uma equipa cansada e sem soluções e sobretudo Antunes para defesa esquerdo após lesão de Fábio Coentrão, Adrien Silva para mexer no meio campo dando mais dinâmica e intensidade e Ricardo Quaresma para desequilibrar no 1 para 1 e mexer com o jogo agitando o ataque fizeram muita falta à equipa das Quinas em solo Brasileiro.

Estágio antes do Mundial - Chegada tardia ao Brasil

Os mais pessimistas viram certamente semelhanças com o Mundial de 2002. Há 12 anos a equipa das Quinas, comandada por António Oliveira, optou por realizar um estágio de preparação em Macau por razões maioritariamente financeiras, aproveitando também a forte comunidade Portuguesa. Antes do Mundial do Brasil a selecção estagiou nos Estados Unidos aproveitando a imagem mediática de Cristiano Ronaldo, o crescimento exponencial do «Soccer», realizando um bom encaixe financeiro e aproveitando novamente a presença de muitos emigrantes no local.

A equipa Lusa chegou ao Brasil apenas 4 dias antes do primeiro jogo, quando já se jogava o Mundial, algo que foi bastante criticado. Mais do que o local do estágio fica a ideia de que a preparação foi pouco séria e os motivos por trás da escolha não foram de cariz futebolístico mas sim de marketing e divulgação da imagem.

O Jogo com a Alemanha - Os 11 do costume

Pese embora as 7 diferenças nos convocados para o Mundial 2014 em relação ao Europeu de 2012, Paulo Bento fez alinhar frente à Alemanha a equipa habitual, ignorando por completo o momento de forma dos jogadores e pagando cara a factura. Portugal entrou em campo com quase o mesmo onze que alinhou frente à Alemanha no Euro, excepção feita a Hugo Almeida, que alinhou em detrimento de Hélder Postiga. Esta previsibilidade do seleccionador fez da equipa das Quinas presa fácil para os comandados de Low, sofrendo uma pesada derrota por 4-0 e mostrando muita passividade e falta de intensidade no meio-campo, com Amorim e William no banco a ver, depois de excelentes épocas nos seus clubes.

Dá a ideia de que o seleccionador, mais do que responder a interesses exteriores à selecção como é frequentemente acusado, tende a valorizar e a premiar aqueles que são da sua confiança e fechando de certa forma a porta a jogadores fora desse núcleo duro. Paulo Bento é grato a quem já o ajudou no passado e mesmo dois anos depois com esses jogadores em momentos de forma completamente diferentes, o seleccionador não lhes vira as costas e continua a apostar neles, talvez mais por "gratidão" do que pelo seu momento actual.

O pós-Alemanha - Circo mediático

Mesmo depois da pesada derrota contra a equipa Alemã ainda estava tudo em aberto nas contas do grupo G. Sabendo que tinhamos uma diferença de golos muito negativa e que os Estados Unidos tinham ganho ao Gana, ficava clara a necessidade de ganhar frente à equipa Americana e de preparar o jogo com a maior seriedade, aprendendo com os erros e corrigindo-os.

Logo após a derrota é dado a conhecer o calendário da preparação para a segunda jornada do grupo, que para surpresa geral não incluia um treino no dia seguinte. Ao contrário das outras equipas do grupo, Portugal, certamente satisfeito com a prestação frente à Alemanha, optou por dar folga aos jogadores e ter menos um dia de treino para a «final» que se avizinhava. A questão que se levanta é apenas e só porquê? Será que o seleccionador estava satisfeito com o jogo anterior? Será que  não havia necessidade de preparar o jogo importante contra os EUA? Ou será que os jogadores não aguentavam um treino depois de jogar? A questão pareceu mesmo prender-se com questões físicas porque dos 23 escolhidos já praticamente metade estavam lesionados ou condicionados fisicamente, um erro de amador numa competição tão importante.

Depois da folga esperava-se então um treino intenso e meticuloso de preparação do jogo, aproveitando a recuperação física e psicológica dos jogadores depois da goleada, mas mais uma vez Paulo Bento e toda a estrutura da selecção estiveram na vanguarda do treino desportivo. Em vez de treinar um esquema alternativo e surpreender na partida da segunda jornada ou mesmo trabalhar melhor o esquema habitual, optaram por um treino aberto com cerca de 10 mil adeptos nas bancadas e em ambiente de folia e confraternização, com Bruno Alves e Nani a competir para ver quem metia a bola num balde, Cristiano Ronaldo a assinar chuteiras e a sorrir para os fotógrafos, entre outras "brincadeiras". Mais uma vez a ideia de que tudo não passa de uma jogada de marketing e de um circo mediático em volta do melhor jogador do mundo. Há pouca concentração no jogo e no treino, depois de um jogo tão mal conseguido parece impossível como se perdem 2 dias na preparação do próximo embate.

Jogo com os EUA - Mais do mesmo

No jogo contra os EUA houve mais do mesmo, fundamentalmente em dois aspectos, mesmos jogadores e mais lesões. Embora tenham havido substituições todas elas foram motivadas por problemas físicos e não por iniciativa de mudar o rumo dos acontecimentos e lançar outros jogadores como opções técnicas e tácticas. Mesmo depois do atropelamento que o meio campo sofreu frente à Alemanha, Paulo Bento não quis virar as costas aos seus comandados e voltou a alinhar com Veloso, Meireles e Moutinho no meio campo, com André Almeida na esquerda.

O polivalente lateral do Benfica cedo mostrou estar condicionado fisicamente e vimos muitas vezes Meireles fechar à esquerda. Como é possivel ter um jogador lesionado a jogar mais de meia parte em claro sub-rendimento, condicionando a sua saúde e a qualidade de jogo de Portugal? Depois da lesão de Coentrão não foi ensaiada a melhor solução? Não foi sondado o estado físico dos jogadores? Estes erros pagam-se caros em alta competição e a fraca condição física e intensidade dos jogadores Portugueses pareceu contrastante com a frescura física e alta rotação dos Americanos, também eles sujeitos ao calor de Manaus.

Nem assim William Carvalho e Rúben Amorim conseguiram convencer Bento a jogar e esta convicção forte nos "seus homens" começa a ter traços de teimosia e dogma incontestável. Scolari no Euro 2004 também tinha o seu núcleo duro de jogadores e depois da derrota frente à Grécia conseguiu perceber que não estava a fazer alinhar os jogadores em melhores condições de ajudar a selecção e promoveu uma revolução no onze, com Portugal a aproveitar a boa época de elementos do FC Porto e a acelerar para a Final da competição.

O pós-EUA - Já ninguém acredita

O amadorismo na preparação da competição atingiu proporções épicas depois do empate frente à equipa Americana. Apesar de não ditar o afastamento da equipa das Quinas, a missão estava agora muito difícil mas restava acreditar! Ou se calhar não... Os jogadores, treinador e até o médico não se mostraram crentes no "milagre" e foram dadas conferências de imprensa em jeito de balanço do Mundial, antes de terminar a participação Portuguesa. Inacreditável tudo isto, se por acaso tivessemos seguido em frente como explicar tantas conferências em jeito de balanço? Como é possível entrarem no jogo já derrotados?

Costuma-se dizer que o pior cego é o que não quer ver e depois do tsunami de lesões o staff da Federação continua a sacudir a água do capote e a recusar a ideia de que os jogadores convocados não estavam em condições, de que a preparação não foi eficaz e de que houve um número excessivo de lesões musculares. Mais uma vez, a culpa morre solteira ou então foi o bruxo do Gana e as suas macumbas quem esteve na origem de tantos problemas físicos.

Jogo contra o Gana - A diferença no meio-campo

À terceira foi mesmo de vez e Paulo Bento fez alinhar o meio campo que todos pediam desde o início do Mundial, com William, Amorim e Moutinho e a diferença foi quase do dia para a noite. Mesmo com a enorme pressão que tinham em cima os jogadores Portugueses fizeram um bom jogo contra o Gana e fica a ideia de que se não precisassem de marcar 4 golos para seguir em frente podiam mesmo ter chegado a esse números. Houve mais dinâmica no meio campo, mais intensidade, perigo no ataque e Portugal chegou mesmo à vitória, insuficiente para chegar aos oitavos de final.

O que falhou na partida frente ao Gana foi mesmo a posição de defesa esquerdo, com Miguel Veloso adaptado à posição a ter bastantes dificuldades a jogar numa posição que não é a sua e sem as rotinas que se pedem a um lateral. Mais uma vez Antunes via tudo em casa, uma vez que a polivalência foi sempre um critério de selecção. O problema dos polivalentes é a falta de rotinas e Veloso nunca conseguiu dar profundidade ao corredor esquerdo e teve sempre muito espaço nas costas.

O Futuro - evitar a caça ao homem

Depois de tanta má comunicação finalmente uma boa medida da Federação, reiterando a confiança em Paulo Bento, começando já a trabalhar na preparação da qualificação do Euro 2016. Concordando-se ou não com a permanência do seleccionador é importante que a Federação saia em apoio da equipa dando condições de trabalho ao seleccionador.

Paulo Bento é o mesmo seleccionador que levou Portugal às meias finais do Euro 2012, só caindo nos penalties frente à Espanha, o problema é que os jogadores também foram os mesmos. Bento tem todas as condições para continuar como seleccionador se entender o princípio de que os convocados devem ser os que estão em condições para dar mais à selecção e não os mais simpáticos, os da sua confiança ou os que dão bom balneário. A selecção não deve ser um grupo de amigos e não deve estar fechada a outros jogadores. Se depois de uma época desportiva há elementos em destaque, capazes de dar mais à equipa eles devem ser escolhidos e não outros que já o fizeram, tem de ser dada importância ao momento de forma.

Dada a avançada idade da maior parte dos nossos jogadores e tendo agora o início da qualificação é importante começar a fazer alguma renovação da equipa, lançando alguns jogadores de selecções mais jovens ao mais alto nível, criando dinâmicas e rotinas com outros jogadores em melhor momento. Vamos ver como Paulo Bento faz essa renovação, sendo certo que já começou mal, voltando a sair em defesa dos "seus homens", afirmando que «Poderão haver opções diferentes no futuro, não digo que não. Mas não fecharei as portas a quem tanto deu para conquistar o seu espaço. Independentemente da idade que tenham».

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